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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Deus ex machina

Meu coração cambalhota como biruta de aeroporto quando atravesso a rua na frente de um desses 4x4 que mais parecem tanques de guerra de butique. Parrudos, possantes, velozes, cariríssimos. Suas rodas são enormes, quase de tratores. Seus para-choques estão mais para para-pedestres.

Projetados para subir por trilhas montanhosas, andar por caminhos com cascalhos e ralis de deserto. Feitos para cruzar pontes de madeira podre sobre rios selvagens ou voar pelas estradinhas de terra que levam ao churrasco com cerveja e piadas com uísque. Em suma, novos conquistadores de territórios já conquistados.

Mas na falta dessas oportunidades, eles - os carrões - rodam mesmo pelas ruas asfaltadas das cidades. Forçam passagem por vias estreitas e malconservadas. Na maior parte dos momentos, perdem a majestade de aventureiros para se tornarem elefantes em loja de louça. Tudo bem se a loja não fosse a esquina da minha rua e a louça não fosse eu.

Para gasolinar a nóia, invariavelmente esses carrões escodem seu proprietários-guerreiros atrás de isofilmes muito escuros. Ficamos sem ver se o motorista é uma velhinha, um pirata, uma louca ou um padre. Se não vejo a cara do condutor, como adivinhar se ele vai me deixar passar ou acelerar? Como saber se ele ao menos me viu? E se me viu, simpatizou ou odiou?

Esses automóveis são sobretudo indicadores de status. Não simplesmente status de poder aquisitivo, mas de virilidade e poder. Marqueteiros e publicitários do Tucson-Hyundai, SX4-Suzuki, CRV-Honda, Frontier-Nissan, Ford Explorer e congêneres capricham nas imagens de máquinas que tiram qualquer coisa - lama, pedra, troncos de árvores, insetos, duendes - do caminho.

Com seus haras no motor e carcaças robustas pulverizam obstáculos que atrasem a chegada ao seu destino. Por que não passariam por cima de mim, pedestre importuna? Pois sabemos que todo herói tem seus inimigos. Não há protagonista sem antagonista. Não há vitoriosos sem perdedores, nem valentes sem bravatas.

Não sou tão ingênua para pensar que Brasílias amarelas ou verdes, fuscas e kombis remanescentes e todos os 1.0 não atropelem transeuntes. Seres atrás de volantes podem mudar de personalidade. Conheço pessoas absolutamente gentis - das que não matam uma mosca - que se tornam furiosas quando dirigem.

Mas é fato que, também no trânsito, o meio é a mensagem. Land Rover, BMW, Porsche e a toda a família 4X$ soltam pelo escapamento CO2 e gases de arrogância. Não são os donos do mundo, mas a maioria acredita que tem prioridade sobre cruzamentos, lombadas, esquinas e pés-rapados a pé.

Fernanda Pompeu, redatora freelancer, colunista do NR e da ONGPi, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

Um comentário:

julio disse...

Muito oportuno, a foto de uma munição real simbolizando um automóvel, no meu ver e parecer é que ofusca o brilho da escrita .....

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