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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Caso Eloá: só alguns minutos

"Esse texto foi escrito à época do assassinato de Eloá (outubro de 2008) e circulou entre um grupo restrito. Achamos oportuno publicá-lo no momento em que o caso vai a julgamento."


Assentada a poeira inicial, não consigo parar de pensar neste assunto. Nos últimos dias, vimos passar diante de nossos olhos, pelas telas de nossas TVs, um tratado completo sobre as relações de poder entre mulheres e homens. Aquilo que os “iniciados” chamam de “relações de gênero”, e que tanta gente tem dificuldade para entender.

Lindemberg e Eloá eram jovens moradores de um conjunto habitacional de trabalhadores da Grande São Paulo. Até onde sei, com histórias e vidas parecidas. Nada que envolvesse grandes disparidades socioeconômicas.

Envolveram-se num relacionamento amoroso, quando ela era pouco mais que uma criança, e ele um rapaz de dezenove anos. Segundo informações que circulam, era um namoro tumultuado, com vários rompimentos e reconciliações, geralmente motivados pelo comportamento possessivo de Lindemberg.

Até o dia que Eloá decidiu não se reconciliar mais com ele. Uma decisão que ele não podia aceitar, um atrevimento, uma manifestação insuportável de egoísmo, como falou por telefone a um repórter. Como ela não cedia às suas tentativas de diálogo, ele resolveu obrigá-la, da forma que lhe pareceu mais adequada. Ou seja, ela o empurrou a tomar aquela atitude extrema!

Invadiu a casa dela numa tarde de segunda-feira, insinuando que os colegas que estavam ali tinham intenções a respeito de Eloá que só ele mesmo poderia ter. Estava armado, e a situação logo evoluiu para cárcere privado.

Não tinha nada para pedir em troca, pois o que ele queria, que era a atenção exclusiva dela, já havia conseguido. Que fazer, então? Prolongar indefinidamente o inferno, para que não restasse dúvida sobre quem controlava a situação, para reafirmar, hora após hora, que ela era propriedade dele, e faria o que ele quisesse.

Não me venham com essa lorota de que ele foi movido pela paixão. O que moveu Lindemberg foi o medo de ser rejeitado de forma definitiva e de perder a voz de mando numa relação que ele controlava tão bem. Como ficaria sua hombridade? Como lidar com o vazio deixado por tamanha humilhação?

Passaram-se os dias, as noites, mais dias e noites, até que ele mesmo não suportava mais a situação que havia criado. Mas, como sair? Impedindo que Eloá continuasse a viver, e, agora, sem ele, que é um rapaz inteligente e sabe que não teria mais nenhuma chance. Mirou seu revólver na cabeça e no sexo da ex-namorada. Bem dentro da lógica de que “se não for minha, não será de mais ninguém”.

Lindemberg inviabilizou sua vida e seu futuro, mas ele ainda pode dispor de uma e de outro. Eloá foi imolada para que o macho pelo menos preservasse sua macheza, pois viverá o resto de seus dias assombrado pelo que foi capaz de fazer. Isto pode soar como uma simplificação extrema, e talvez seja mesmo, mas como encontrar razões defensáveis para o que aconteceu?

Peço vários minutos de silêncio e reflexão sobre este caso tão emblemático e, ao mesmo tempo, tão corriqueiro, em maior ou menor grau, em tantas relações supostamente afetivas entre mulheres e homens.

Júnia Puglia, cronista, após o carnaval escreverá a coluna De um tudo toda sexta-feira.

12 comentários:

Elezer Puglia, Jr. disse...

Júnia, apesar de escrito há mais de dois anos, o texto é oportuno, sem dúvida, porque não foca só o caso Eloá: é representativo de uma série infindável de crimes cometidos com o propósito único de garantir superioridade, controle e orgulho próprio, em vez de amor, compaixão e humildade reais. E o motor do problema é o mesmo (infelizmente) no Brasil, na Suíça, no Egito, ou em qualquer outro lugar.
De passagem, parabéns pelo sucesso da coluna, demonstrado pela periodicidade agora semanal.

fernandapompeu disse...

Não é coca-cola. Mas seu texto é isso aí. Todo dia, no mundo inteiro, mulheres são assassinadas porque de alguma forma discordaram de um namorado, um marido, um ex. Até quando?

coresentrenos disse...

O "eu te quero ter" amplo e poderoso é assustador.
É um texto para o dia-a-dia. É um texto para homens/mulheres. É um texto que fala do poder que é tão sedutor e facinante. É um texto de alma. Enfim, é um texto que toca a ferida humana.
Parabéns!
Desejo que o seu "poder"de escrita nos traga compaixão para a alma humana.
bjos e um abraço Aconchegante,
Soraya

Márcia Cassis disse...

Oportuno, profundo, nos faz refletir!
Parabéns amiga de sempre!
Vai ser muito bom te encontrar todas as semanas!
Um abraço apertado,
Márcia Cassis

Bel Clavelin disse...

Madame Puglia,

parabéns por mais esta reflexão. É super importante teres conquistado este canal de expressão porque de um tudo mesmo rola é na vida das mulheres. Precisamos pensar no que mais nos vulnerabiliza como também no que mais nos dá prazer e felicidade. Voltando à Eloá, seu caso é muito emblemático e com variáveis quase infinitas, inclusive sobre o papel da mídia na cobertura, a atuação da polícia e do poder público, etc. Realmente, não podemos ficar indiferentes aos fatos do cotidiano, em que a violência contra as mulheres torna-se cada vez mais visível e estarrecedora como no caso do estupro coletivo na Paraíba ou na morte da procuradora federal. Bom encontrar aqui na tua coluna um espaço pra reposicionar as lentes que por vezes ficam embaçadas diante de tantos acontecimentos. Fico feliz que tua coluna passe a ser semanal, porque gosto muito de te ler. Sucesso!

Ana Claudia Farranha disse...

Junia:
Mto. legal, oportuno e que faz a gente refletir sobre que relações são essas. Mais do que complicar com intricadas origens da opressão de genero, claramente se entende do que fala quando de fala em "relações de gênero" - tradução: PODER>
Besitos e parabéns pela coluna semanal.
Ana Claudia Farranha

iara disse...

Bem colocado....

Anônimo disse...

É um crime de gênero, sem dúvida. Concordo. abs, Fredo Sidarta. SP

Solange Sanches disse...

As situações extremas desvelam o que o cotidiano ao qual não prestamos atenção esconde.
Direto ao ponto, Junia. obrigada!

José Humberto Fagundes disse...

Quem entende de gênero, como você, sabe bem expor o que está por trás de um assassinato bárbaro como esse. Sensibilidade à toda prova. Parabéns pela coluna semanal. Nós merecemos. Obrigado.
beijo
Zé Humberto

Anônimo disse...

Júnia, muito importante ressaltar que esse é (mais um) crime de gênero, nada de passional. Obrigada pelo texto!

Natalia Mendes

leila disse...

#fato# Temos a impressão que essas "coissas horrendas" acontecem lá bem longe da gente, entretanto essa relação de amor e ódio permeia de forma velada o cotidiano de mulheres que podem estar bem próximas de nós! parabéns pelo texto, Júnia! excelencia maisum vez!

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