.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Pode o título mundial forjar uma identidade espanhola?

Morei na Espanha entre 2001 e 2002 e durante esse tempo, sem sucesso, tentei compreender o que é ser espanhol. Na véspera da Copa da Alemanha fui a Barcelona assistir a um amistoso entre a seleção brasileira e a catalã. No estádio, conversei com alguns torcedores e ouvi de um deles o seguinte: “Já que não estamos, torcerei para vocês [Brasil] na Copa”. Sem entender o comentário, retruquei: “Como não estão? A Espanha está classificada”. A resposta foi direta: “Sou catalão, não sou espanhol”.
Meses antes, em um trem que partia de Portugal para a Espanha, conheci um casal do País Basco. Ao apresentá-los como espanhóis a um português que viajava no mesmo vagão fui repreendido: “Somos bascos”.
Uma vez, caminhando pelas ruazinhas do centro histórico de Bilbao, me deparei com um cartaz que dizia (em inglês): “Turista, lembre-se: você não está na Espanha, está no País Basco”.
Em uma conversa com um amigo espanhol simpatizante da “causa separatista” perguntei se a Constituição já não garantia bastante liberdade (financeira e cultural) às comunidades. Sua resposta foi: “Imagine que você vive trancado em um quarto de uma casa. Depois de muitos anos, deixam você transitar por toda ela. No começo você fica feliz com a liberdade concedida, mas depois de um tempo sentirá falta de sair para conhecer o mundo.”

Só há uma nação?
Essas histórias dão uma pequena noção da divisão que há na Espanha. Hoje mesmo, dia 9 de julho, o Tribunal Constitucional tornou pública uma decisão sobre o Estatuto da Catalunha. “A Constituição não conhece outra que não a nação espanhola”, decidiram os magistrados, que também vetaram o dispositivo que colocava o catalão acima do espanhol como língua na comunidade autônoma – ambas são reconhecidas como “oficiais” pela constituição. Se o tribunal precisa dizer que há somente uma nação, a espanhola, é porque há quem defenda o contrário (e não são poucos).
A questão promete se arrastar. Na Catalunha acusam o tribunal de “enfraquecer” a Espanha com a decisão e cria problemas em vez de resolvê-los. Uma maior autonomia é tema frequente no também País Basco - como é sabido, por lá há grupos que defendem o separatismo.
Do outro lado do Atlântico e ao ver fotos da festa que se faz em toda a Espanha pela campanha da seleção na Copa passei a me questionar se uma possível conquista não serviria para forjar um sentimento de nação e, de certa forma, unir mais o país. Fiz essa pergunta a Miguel Ángel Bastenier, professor e ex-diretor de redação do jornal El País, e a Gerard Romero, jornalista esportivo em Barcelona. A resposta dos dois foi categórica: não.
Bastenier: "Sem dúvida, não faz mal algum ganhar um Mundial, mas seria muito otimismo acreditar que isso vá influenciar quem tem opinião formada sobre o tema. Além disso, uma vitória da seleção pode dar alguma alegria aos catalães já que a Espanha venceria como jogadores de sua comunidade, sobretudo. No entanto, houve já, especialmente na Catalunha, quem deixou claro que não se importava com o resultado ou, inclusive, torceu pela Alemanha. Para os nacionalistas radicais, é evidente, uma vitória da Espanha será uma chateação." 
Romero: "Uma vitória da Espanha no domingo não fará com que o povo catalão se sinta mais espanhol. Quiçá em parte, vejamos. Há um sentimento diferente este ano na Catalunha porque há sete jogadores da comunidade na seleção e as pessoas acreditam que esta seleção é o Barcelona. Seguramente isso pode unir um pouco. Só um pouco."
Ao ler as notícias do principal jornal esportivo da Catalunha durante a Copa entendo o que Bastenier e Romero dizem. Hoje, por exemplo, o destaque do Sport é: “Quatro jogadores do Barça [Xavi, Iniesta, Villa e Messi] na lista dos melhores da Copa”. Por que não três espanhóis? No dia da vitória da Espanha sobre a Alemanha, o fato de Puyol (catalão e jogador do Barça) ter feito o gol da vitória tinha mais destaque do que o triunfo em si.
Nem mesmo o fato de a seleção espanhola ser praticamente dividida entre os dois principais clubes do país (Barcelona e Real Madrid) parece que significará alguma coisa quando a bola deixar de rolar na África do Sul. Se no Brasil há um sentimento patriota meio besta que só surge de quatro em quatro anos, quando a amarelinha entra em campo, na Espanha, ao que tudo indica, nem mesmo um título mundial fará com que o país todo se una para celebrar.

Ricardo Viel é jornalista.

5 comentários:

Anônimo disse...

Polos vistos, nom visitou a Galiza. É pena, porque é umha outra realidade nacional diferenciada dentro do Estado espanhol, onde nasceu e ainda se fala o português, embora hoje seja de maneira precária devido à imposiçom do espanhol.
A Galiza é a grande desconhecida para o povo brasileiro. Se bem a força do independentismo é menor, ele existe, ligado à defesa da unidade lingüística galego-luso-brasileira.
Convido o Ricardo e os brasileiros que lêem isto a terem conhecimento do processo galego de luta pola autodeterminação e a independência, após séculos de domínio imposto polos espanhóis.

http://www.diarioliberdade.org

http://www.pglingua.org

http://www.galizalivre.org

http://www.primeiralinha.org

http://www.vieiros.com

Juju Balangandã disse...

Na verdade, o Brasil consegue a proeza de ser esse país enorme, com tantas 'raças' diferentes, com regiões tão afastadas uma das outras, com sotaques tão diferentes, com vocábulos próprios para cada região, além de pequenas comunidades que ainda se comunicam em outras línguas que não o português, com diferenças econômicas tão grandes, com desenvolvimento social tão desiquilibrado e mesmo assim conseguie ser uma nação. Uma nação. Consegue ser um país onde os "movimentos separatistas" (se é que nesse caso podemos chamá-los assim) têm força ínfima. Tá pra existir outro país no mundo que tenha essas características... Uns usam recursos mais violentos, outros menos, mas vide Espanha, vide Canadá, vide Rússia e ex-repúblicas soviéticas, etc, etc etc. O porquê? Não sei direito, com certeza são vários porquês e isso rende outra discussão, mas ainda não estou totalmente convencida de que esse "patriotismo bobo" só surja de 4 em 4 anos. Pensei muito sobre isso nessa Copa e cheguei à conclusão nenhuma, mas tendo a acreditar que somos patriotas sim, independente do futebol.
Quanto a Espanha, também fiquei boba de ver a garra e a *fúria* tão presentes quando o assunto é se separar e se destacar como nação independente da "atual Espanha" (será que um dia teremos que realmente usar esse artifício? Tipo Ex-URSS, ex-Espanha. rs)

conexsom disse...

Prezado, estive na Galícia em 2002 e fiquei encantado pelo idioma, tão semelhante ao português. Do processo de independência sei muito pouco. Agora terei a oportunidade de saber mais. Um abraço, Ricardo

rodrigo disse...

Por isso chama ainda mais a atenção o fato do Brasil não ter passado por um processo de fragmentação como a “América Hispânica”, que afundou em sangue o sonho da Grande Colômbia de Simão Bolívar. Imagine que cada estado brasileiro poderia hoje ser um país ou estar buscando uma autonomia legítima. Continua sendo irônico que o idioma espanhol não é nem de perto o mais falado na Espanha e sim seja no enorme continente latino-americano.
Como sempre, meu caro Ricardo, parabéns por olhar mas além das manchetes.
Abraços, Menitto.

Raphael Tsavkko Garcia disse...

Excelente post, compartilho: http://tsavkko.blogspot.com/2010/06/espanha-nao-existe.html

A Espanha, de fato, não existe. E na Catalunha este sentimento parece ser ainda maior. 1.5 milhão de Catalães nas ruas na semana passada para exigir independência. TODOS os partidos menos os fascistas do PP. No País Basco os nacionalistas são mantidos em jaulas e governa o PSOE com o PP em um sistema absolutamente fraudado.

Veremos o dia em que a Espanha se desintegrará e as minorias terão liberdade.

Postar um comentário

Ofensas e a falta de identificação do leitor serão excluídos.

Web Analytics