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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 5 de julho de 2013

Ridículas ideias


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

 Escrevo sob o efeito do livro La ridícula idea de no volver a verte, o mais recente da escritora espanhola Rosa Montero, uma das minhas preferidas. Inovando mais uma vez, nesse livro a autora fica numa espécie de “limbo de gênero”, a meio caminho entre romance, memórias e biografia, misturando suas vivências pessoais com a história de Marie Curie. Bendito limbo, onde tudo é permitido, porque Rosa se permite tudo em sua alucinante capacidade criativa.

O livro gira em torno da perda de pessoas amadas e da enorme, quase insuperável dificuldade de conviver com o fato de que não as veremos mais, a despeito da realidade, que eventualmente se impõe. Como é possível admitir, entender que não voltaremos a vê-las? E quão ridícula nos soa esta ideia! Evitando entrar num campeonato de dor, suspeito ser esta uma das mais devastadoras, cinicamente ignorada por quem promove matanças mundo afora. Conviver diariamente com ela é um desafio e tanto, quase sempre solitário, pois, como bem registrou Chico Buarque, “a dor da gente não sai no jornal”.

Mas há outra ideia, igualmente ridícula: a de que nós mesmos não morreremos. A vida é tão interessante e sedutora, apesar de tudo, que a grande maioria de nós vive como se a morte não fosse uma certeza. Vivemos para viver, não para morrer. Tomo por mim mesma, que há décadas tento me acostumar com a ideia de que um dia vou desaparecer, e o mundo continuará existindo, com as pessoas que amo, os livros, as árvores e toda essa complexa e maravilhosa imensidão.

Tão presente quanto a morte certa é a pressão que sofremos para aproveitar a vida, ser feliz. Essa tal felicidade varia conforme o freguês, mas quase sempre se refere a ter muito dinheiro e/ou poder, viver paixões alucinadas, entregar-se ao prazer interminável ou a uma fé religiosa, viajar freneticamente, criar uma família linda e perfeita, realizar-se numa profissão apaixonante, ser famoso, e por aí vai. Isto quando não estamos num contexto em que a simples sobrevivência é felicidade suficiente.

É preciso pensar grande, desejar mais ainda, e atender à expectativa social ou familiar de sucesso e realização segundo receitas e fórmulas consagradas. Uma vida de bom tamanho, que caiba em mim ou em você, parece muito chinfrim, não é? Ridícula ideia!

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

4 comentários:

Anônimo disse...

DIFÍCIL, quase impossível, falar ou escrever sobre a partida de uma pessoa amada.Não concordo que seja ridículo,de forma alguma.Sentir o coração chorando de saudade apenas alivia a dor da separação, dor essa particular a quem ficou.O tamanho da dor ? Quem sabe ? Não cabe no íntimo do ser sobrevivente.
Mas agora uma pergunta, Júnia : por que você anda tão introvertida, preocupada com sentimentos e dores ? Cadê sua alegria contagiante,sempre presente onde você está ? Gosto de suas gargalhadas, de seu sorriso e quero ter o privilégio de ouvir sua voz ecoando pelos quatro cantos onde você estiver.
Beijos da Mummy Dircim

Carlos Augusto Medeiros disse...

Apresentado à Rosa Montero por você, virei seu fã também. Mas (já) tenho pensado na morte como uma passagem, uma ruptura, a curva que chega. Não que acabe, mas assume outro formato - qualquer que seja sua crença, podendo, inclusive, não se transformar em nada. De minha parte, continuo na luta incessante por qualidade de vida - em um mundo que te impõe o contrário - que perpassa pelas significações dessa vida. Elevar o espírito, contribuir para com o outro, enfim, crescer! Obrigado pela reflexão, Carlos.

Anônimo disse...

Tudo muito lúcido e verdadeiro a respeito dessas perdas, inclusive da nossa própria vida...
Quanto à pressão que sofremos para aproveitar a vida da maneira que os outros acham que deve ser, eu sempre nadei contra essa corrente, tentando viver minha vidinha "chinfrin" à minha maneira, só olhando os outros se desesperarem para viajarem para onde todos estão indo, fazerem os cursos que dizem que estão na moda para mostrar são tão inteligentes quanto quem já os fez e "otras cositas" que fazem parte dessa alucinação do nosso tempo ("É preciso pensar grande, desejar mais ainda, e atender à expectativa social ou familiar de sucesso e realização segundo receitas e fórmulas consagradas."). Um beijão e obrigada por mais essa pérola! FF

Anônimo disse...

Lindo...

Carol Mendes

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