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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 12 de março de 2014

Sabichões

por Fernanda Pompeu*

Na casa da internet circulam São Google, Mister Yahoo, Wikipédias ao lado de aplicativos que brotam como capins eletrônicos. Sem esquecer as redes sociais que congregam amigos, conhecidos, amigos de amigos, conhecidos de conhecidos. Todos tendo como matéria-prima informações e contrainformações, veiculadas por palavras e imagens.

Hoje, a gente não fala mais em mundo real e mundo digital. Eles se fundiram, configurando o nosso mundo. Da revolução internet, surgiram estonteantes novidades. Dentre elas, a profusão de especialistas e comentaristas. Todos têm, ao menos, uma opinião. Não importa o tema. Como um São Jorge de lança em punho atacamos o dragão dissonante, dissidente.

Ou, ao contrário, como Pietàs emocionadas acolhemos nossa turma, nossos pares, os que pensam parecido com o que pensamos. Sempre foi assim, não é? Por isso, no passado, inventamos partidos, sindicatos, associações. Para defender interesses de uma categoria, de uma classe, de um conjunto. E também para atacar quem atrapalha, trabalha contra, aqueles a quem chamamos eles.

Mas se a essência se mantém, o resto todo muda. Somos seres mais sabidos e capazes de fuçar dados, argumentos, gostos, avaliações em mínimos cliques. Antes era bem mais fácil para governos, empresas, políticos mentirem. Apenas uma pequeníssima parcela tinha acesso a informações e poder para se contrapor. Eram os chamados subversivos da ordem, do estado das coisas.

A nova pergunta é: o que faremos com tanta sapiência? Está certo, para chegar numa minúscula rua no extenso bairro de Parelheiros, extremo sul de Sampa, basta usar um aplicativo no celular. Para descobrir o caminho que me levará para o outro lado do rio, entre as árvores, só preciso de inteligência para cruzar informações ao usar um buscador. Ficou simples e imediato sair do ponto A para o B. Do C até o Z!

O que eu ainda não consigo encontrar na internet são elementos que me ajudem a mudar a rota da minha vida. Nenhum aplicativo me explica como aplacar a tremenda saudade que sinto do meu pai. Jogo algum me habilita a derrotar os inimigos que ardem no meu peito. Não acho nenhum sistema que minimize minha crise.

Talvez no futuro. Chegará uma época em que um programa secará lágrimas? Tempo em que um verbete da wikipédia ensinará a viver a vida? Não consigo dizer que sim nem que não. Sei que um pedaço da resposta que procuro pode estar no poema escrito por uma doceira, ou até na fala espontânea de uma menina de sete anos de idade.

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis a partir da obra de Nam-June Paik.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

O pão, a pomba e as sandálias prateadas



por Tomás Chiaverini ilustração Victor Zalma*

Segunda-feira. Acordo com uma sensação estranha e intensa de que nada faz sentido. Levantar da cama, sobretudo, não faz sentido. São nove horas, um horário ridiculamente preguiçoso para qualquer cidadão de bem. Mesmo assim programo o celular para tocar trinta minutos mais tarde. Não chego a dormir de novo. Fico lá, debaixo das cobertas, imaginando a manhã fria e tentando entender o que, afinal, não faz sentido com tanta força.

Foi um bom fim de semana. Priscila veio ficar comigo, bebemos vinho sem moderação, saímos para jantar, assistimos a filmes velhos na TV. No domingo fizemos torta de maçã, com uma receita indicada pela Clau. Estava um dia muito frio, mas mesmo assim fomos a pé comprar os ingredientes. Quando saímos havia uma pomba parada bem ao lado da entrada do prédio, numa esquina do bairro das Perdizes. Estava muito quieta e não voou quando nos aproximamos. Provável que estivesse doente ou machucada.

Na volta do supermercado, dobramos a esquina conversando animados e um homem fez um gesto com a mão, pedindo que parássemos ou que nos aproximássemos devagar. Estava agachado ao lado da pomba, com uma caixa de papelão nas mãos. – Parece que ela está doente – disse.

Nós concordamos em silêncio e entramos. Fizemos a torta e um caldo verde. Quando ficou tudo pronto, saímos para comprar pãezinhos frescos. A pomba não estava mais lá, nem o homem. Apenas a caixa de papelão vazia. E um par de sandálias. Sandálias prateadas, de salto alto, colocadas juntinhas sobre a calçada, perto da parede externa do prédio. Não faz sentido nenhum. A pomba, o homem a sandália. Também essa crônica não faz sentido nenhum.

E agora, lá se vão mais de sete horas desde que acordei. Tomei café, revisei algumas páginas do próximo romance que não fica pronto nunca, fiz exercícios, tomei banho, almocei os restos do caldo verde com duas fatias grossas de pão integral. Cheguei tarde na redação e o dia está mal parado. Passei o olho pelos jornais, facebook, conversei com amigos pelo comunicador instantâneo, depois me ocupei em escrever este texto. O fato é que a coisa não melhorou. Muito pelo contrário.

Cada vez mais, nada faz sentido.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. Ilustração de Victor Zalma

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Boas meninas



por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Na escola primária, o ciclo da vida era uma frase: o ser humano nasce, cresce, se reproduz e morre. Não significava nada, como muitas outras coisas que a gente ouvia lá. Sabíamos que havíamos nascido e crescíamos, uns mais, outras menos, o que já era preocupação suficiente para a hora do recreio. Meninos de um lado, correndo e disputando, meninas de outro, brincando de roda ou de passa-anel, eles quase sempre maiores que nós. Das meninas, umas cresciam mais rápido que outras. Isso era tudo o que entendíamos do tal ciclo.

Eles, os meninos, pertenciam a outro planeta, então os deixávamos lá. Duas eram as nossas principais preocupações: aprender a nos comportar como boas meninas e ser a preferida da melhor menina, a escolhida para sentar ao seu lado no banco gelado do pátio. Ela, muito ciosa da sua relevância e da disputa, só decidia a favorita do dia no último minuto. A premiada se sentia a princesa da cocada – porque a rainha era ela, que ninguém duvidasse!

Deveríamos ser boas meninas e assim alcançar o céu, conforme a frase cuja origem desconheço. Seu complemento maldito, temperado com a deliciosa irreverência de Mae West, liberou as meninas más para dispensarem o céu e irem “a todos os lugares”, especialmente àqueles onde podiam encontrar diversão, informação e conhecimento. Estas se tornavam um grande problema para as famílias e escolas.

Assim cresceu a minha geração, entre o uniforme escolar de saia plissada com laço branco no cabelo e os terremotos da contracultura, da pílula anticoncepcional e do feminismo, com ditadura militar, Guerra Fria e Vietnã pelo meio. Muitas de nós entraram tranquilamente no figurino de boas moças, esposas e mães, mas para algumas faltaram talento e paciência.

Espere um pouco, que eu vou ali na cozinha finalizar o almoço de hoje e já volto.

Voltei. Então, para as que, como eu, não conseguiram se adequar e ganharam o rótulo de rebeldes e malcriadas, a juventude acabou sendo um tanto complicada, porém, quero crer, mais interessante que a das boazinhas. Lemos, contestamos e bisbilhotamos bastante, buscando e absorvendo informação e notícias sobre o mundo que tanto nos atraía e fascinava. Os papos-cabeça das madrugadas foram essenciais para forjar outras expectativas em relação à vida, enquanto nossos pais se descabelavam imaginando o que estaríamos fazendo naquelas longas horas de sumiço.

Brigamos e confrontamos, nem sempre de forma direta, mas com atitudes e escolhas contestatórias, transgressoras. Queríamos, precisávamos ter a sensação do controle sobre as nossas próprias vidas. No meu caso, o tal controle levou-me a uma sólida e estável vida de classe média limpinha e arrumada, marido, filhos, casa, carreira etc. Na verdade, que eu saiba, em quase todos os nossos casos. Boas meninas cumprindo o ciclo da vida, com a maior cara de que está tudo muito bem, obrigada. Raios nos partam!

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

sexta-feira, 12 de julho de 2013

Heróis e santos


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Uma das características mais interessantes da cultura brasileira é a nossa irreverência em relação às figuras heroicas (quase todas homens). Não lhes damos muita atenção, não as cultuamos nem homenageamos. Na verdade, não as levamos a sério. Parece que todas as personagens supostamente míticas que atuaram no nosso passado, e de alguma forma nos moldaram como país e sociedade, foram submetidas ao crivo implacável do tempo, que vai-lhes desvestindo o figurino heroico e revelando personalidades bastante humanas, tão parecidas com as de todo mundo, que o pedestal perde o sentido.

A pesquisa e perspectiva históricas têm desempenhado um papel muito importante neste processo. Hoje sabemos o quanto interesses políticos, econômicos e pessoais nada louváveis, quando não francamente escusos, atuaram em episódios ou processos antes relatados sob a ótica que mais convinha. Ou será que alguém ainda acha que a conquista das Américas pelos europeus, por exemplo, foi um processo belo e justo?

Na verdade, a manutenção de figuras míticas ao longo do tempo é muito mais um produto da propaganda ou da fantasia coletiva do que a confirmação de feitos extraordinários e desinteressados, sobre-humanos. Lembro-me da única vez que estive em Cuba, há uns dez anos, e de como me impressionou a repetição exaustiva dos nomes e façanhas dos heróis oficiais da revolução socialista, começando pelos programas infantis na televisão.

Se tenho um herói, ele é Nelson Mandela. A despeito das críticas que se lhe façam ou dos erros que tenha cometido, o saldo da sua contribuição para o mundo me parece amplamente positivo. Prefiro assim, admirar alguém, preservando a consciência das limitações impostas pela condição humana. Talvez por isso me soe tão ingênua a expectativa, expressa por muitas pessoas, de que figuras públicas sejam perfeitas ou desinteressadas, quase santas.

Falando em santas, não posso deixar de mencionar Madre Teresa de Calcutá. Admirada no mundo todo, já era meio santa em vida e está prestes a ser oficialmente santificada por sua igreja. Mas que figura sombria foi esta senhora! Decidida a viver entre os doentes e os miseráveis, não hesitou em usá-los como um meio fácil e indecente de atender sua necessidade pessoal de glorificação da dor e do sofrimento; na verdade, esquivou-se de curar as doenças e aliviar a miséria dos muitos que a procuraram. Atraiu para sua mórbida missão um grande número de voluntárias e recebeu, nas palavras da sua sucessora, recursos financeiros “incontáveis”, que, segundo diversos relatos, não foram empregados em prover atendimento médico e dignidade, mas na construção de conventos e em gordos depósitos nas contas bancárias da sua igreja. Por sinal, a mesma instituição que faz tudo o que pode para impedir o avanço da liberalização do aborto com argumentos “pró vida”. Infelizmente, nada disso surpreende.

Tanto o heroísmo quanto a santidade pressupõem super pessoas, que se situam além e acima das limitações e interesses humanos, como se fosse possível. Prefiro gente comum, que me inspire com suas atitudes e visão da vida, mas que me deixe ver também como somos iguais e como precisamos uns dos outros.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

segunda-feira, 1 de julho de 2013

Consumidores perfeitos


por Ricardo Sangiovanni*

Sigo animado a conversar e escrever sobre esse tempo de manifestações, mas hoje resolvi escolher um tema específico, porque 1) sou ignorante na maior parte do que gostaria de falar; e 2) noto que há muita gente – gente muito boa – observando de longe, falando demais, demasiado rapidamente e, por isso, falando bobagem sobre tudo e cada coisa que está acontecendo.

Queria lembrar-lhes uma dicotomia interessante anotada por Milton Santos – que, se estivesse vivo, talvez nos ajudasse a entender melhor o que anda se passando, sem falar como se fosse alguma inteligência ex machina, sem tiradas satíricas do arco-da-velha, sem tratar o leitor comum como criança, como incauto partícipe menor de um inextricável teatro político.

Em “O Espaço do Cidadão”, de 1987, o geógrafo propõe a ideia de que o povo brasileiro teria passado, graças a um longo período de exposição a políticas neoliberais, da condição de “cidadão imperfeito” à de “consumidor-mais-que-perfeito”.

Quer dizer: no Brasil, antes que se consolidasse a formação dos indivíduos enquanto cidadãos, dotados de compreensão profunda das relações sociais e de seus direitos (os individuais e os de viver num país em que todos tenham iguais oportunidades e acesso a serviços), optou-se por impulsionar nossa condição de consumidores – ou seja, indivíduos dotados do direito universal ao consumo e nele justificados; capazes de se mover no sistema, mas não de questionar suas premissas e consequências, que dirá de propor-lhe transformações concretas.

Que acontecia há coisa de 30 anos, na visão de Milton Santos? Na falta de clareza sobre sua condição cidadã – do que se depreende a falta de consciência do poder de ação e transformação que dele decorreriam – tinha-se uma população de consumidores-mais-que-perfeitos – ou seja, consumidores que consumiam qualquer porcaria que se lhes fosse oferecida, e sem reclamar, afinal, devia-se dar graças a deus pela dádiva em si que era poder consumir. Não se tinha o hábito, por exemplo, de reclamar da má qualidade de produtos e serviços, e o Procon… bem, Procon nem bem existia.

O que mudou desde então? Amadurecemos, sem sombra de dúvida, em nossa condição de consumidores. Aprendemos a reclamar dos produtos defeituosos, a registrar queixa contra os serviços deficientes, até a processar quem nos tome por patetas que aceitam levar qualquer gato fajuto, tendo pago por lebre gorda.

Se levarmos isso ao extremo, notaremos que amadureceu também nossa relação de consumo com a política. Não estou confundindo as bolas: é que, num país em que se tem mais valor enquanto consumidor do que enquanto cidadão – num país em que inclusão social, inclusive, se mede pela inclusão na esfera do consumo – , a lógica do consumo torna-se a verdadeira moeda das relações político-eleitorais. Hoje, elege-se quem quer que seja subsumindo um trisquinho de debate de ideias e projetos num eficaz (tanto quanto pobre) pacote marketológico.

Então, em que pese o jogo de aparências pertinente à política desde Maquiavel (desde Aristóteles, alguém me corrigirá), é fato que, na balança que define a adesão popular a candidatos e partidos em momentos eleitorais, a tomada de decisão baseada numa lógica de consumo (e não numa discussão cidadã) tem desequilibrado.

O que pode não ser necessariamente um problema, afinal a política não se estrutura na oposição entre conteúdo e forma, entre idéias e retórica – ao contrário, ela é essas duas coisas, juntas. Mas “o consumidor não é o cidadão”, diria Milton Santos.

De maneira que essa forma de “consumir” política tem sim consequências – que podem ser graves e abrir vácuos de representatividade perigosos – quando os “produtos” político e partido mostram-se “podres” (no primeiro caso) e “defeituosos” (no segundo). Nessa hora, a reação do eleitor-consumidor será (tem sido) a de alguém que comprou um liquidificador que não funciona, ou um quilo de carne estragada: ele irá reclamar, dizer que detectou o defeito, e pedir uma troca (há quem fale em recall); ou, mais ainda, pedirá que alguém por favor invente um novo produto, capaz de lhe satisfazer mais.

Aí, para mim, é onde mora o problema – o perigo – de aceitarmos continuar entendendo a política, e falando dela, com a lógica e a linguagem do consumo – haja vista essa história de recall, esse tipo de palavreado.

Porque o consumidor é, por definição, incapaz de propor, de inventar, de pensar fora da estrutura que lhe é dada. O consumidor, a rigor, não produz, não é talhado nem teria as ferramentas para tanto, se o fosse. O consumidor sabe reclamar – e é desejável que o faça. Mas é preciso ser, mais que consumidor, cidadão para reclamar propondo novas soluções à política; para repudiar os atuais partidos criando um – ou vários – novos; para abominar o atual sistema político inventando um sistema renovado, que saiba a quais problemas deve dar solução. Isso tudo motivado não por mera ingenuidade política, senão pelo esgotamento do atual jeito/sistema de se fazer política.

O desafio de fundo me parece então o de tentar iluminar o entendimento desse momento num sentido que leve à transformação do consumidor mais-que-perfeito no que Milton Santos chamaria consumidor imperfeito: “É necessário que ele seja um verdadeiro cidadão para que o exercício de sua individualidade possa ter eficácia. Onde o indivíduo é também cidadão, pode desafiar os mandamentos do mercado, tornando-se um consumidor imperfeito, porque insubmisso a certas regras impostas fora dele mesmo.”

O desafio é, em vez de desqualificar, de achar os pontos débeis das manifestações que até agora têm ocorrido para mostrar o quanto elas são só “cosquinha” na sola do pé do sistemão, de denunciar, feito mangangão, o quanto fomos uns tolinhos ao ir para as ruas com cartolinas nas mãos; o desafio é contribuir para que a agitação um tanto atabalhoada desse momento se depure, se organize, se encha de informação mais aprofundada, se torne mais consciente de quais e quão complexos são os problemas que motivam tamanha indignação.

Do contrário, seguiremos sendo consumidores – consumidores que pelo menos já reclamam, ok, muito bem. Mas sempre e apenas consumidores – consumidores perfeitos.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 25 de março de 2013

A essência, o essencial e os óleos essenciais


por Tomas Chiaverini*

É preciso escrever sobre assuntos relevantes. Textos profundos, que reflitam sobre a natureza e o sentido da vida, sobre a política humana e sobre o amor genuíno. Foi mais ou menos isso que meu amigo e editor deste espaço falou quando entreguei o último post. Falou cheio de cuidado e educação e com algum pesar. Tinha, talvez, chegado ao limite.

Também pudera, um ensaio sobre cuecas? Quem quer saber que porra de cuecas você usa ou deixa de usar, rapaz? E isso depois de uma série de escritos sobre desodorantes, o desapreço aos barbeiros, o incômodo do relógio de ponto e outras trivialidades desimportantes. Assim não dá. Paciência tem limite. Afinal, se o convidamos para colaborar com este espaço, não foi por seus belos olhos ou para saber dos contratempos de sua vidinha classe média. Você é um escritor, cacete, três livros publicados. Queremos substância. Queremos o sumo da vida vertido em Arial 10.

Certo, certo estou exagerando um pouco. Meu amigo e editor não foi assim tão assertivo. É um cara muito polido e discreto. Apenas sugeriu que eu talvez devesse investir em textos mais sérios e profundos de vez em quando. Claro, concordei, faz todo sentido. E sentei e pensei e comecei até. Mais de uma página sobre o carnaval e a natureza inerentemente efêmera da felicidade.

Mas o mecânico ligou bem no meio de um raciocínio. Aquele barulho na roda dianteira era mesmo o que eu pensava. Rolamento. Tive tanto carro velho que fiquei bom em diagnosticar problemas. Me fale onde dói (ou, no caso, onde faz barulho) que te digo que peça trocar. Cento e sessenta reais. Nada desesperador.

Voltei ao texto. Mas, de repente alguma coisa começou a me incomodar ali. Sabe quando não convence? E quando não convence não flui. E um texto, um bom texto, ainda mais um texto curto, tem de sair de uma vez. Tem que ser uma espécie de orgasmo mental. E, como no caso dos orgasmos, não adianta forçar. Só vem se for natural. Pra piorar, eu tinha prometido entregar no começo de fevereiro. Ou seja, um mês atrás. Mas não dá. Melhor fazer uma pausa pra lavar o resto da louça de ontem.

Mas que caralho, fui de novo ao supermercado e de novo esqueci de comprar detergente. E cândida. E os desodorantes? Cada vez que olho pra coleção de potes, tubos e aerosóis na janela do banheiro, sinto um desconforto no coração. Não consigo encontrar um que não deixe manchas brancas nas camisas.

A Pat, minha nova amiga pseudo-hippie até fez um pra mim. Com vodca e óleos essenciais. Uma graça de menina. Cheguei a testar. Mas estou acostumado a usar desodorantes sem perfume e os óleos essenciais (desculpe, Pat) têm um pouco de cheiro de lojinha indiana. Enfim, preciso jogar fora os desodorantes que não vou usar. Preciso também dar um tapa na casa. Esses tufos de pó que vão de um lado pro outro... Talvez seja o caso de finalmente contratar uma diarista.

Mas e o texto? O carnaval? A busca impossível pela felicidade plena? Talvez tenha perdido a mão. Bloqueio de escritor. Essas coisas acontecem. Ou, pior, talvez simplesmente não tenha um intelecto suficientemente arguto. Afinal, a mediocridade é a regra do mundo, por que seria eu uma exceção? Coisa assustadora. Mas pode ser pior. Pode ser que a vida seja isso. Um infinito amontoado de pequenas tarefas, coisas quebradas, compras, faxinas a prestação, alegriazinhas de sexta à noite e buscas inúteis pelos desodorantes ideais. Pode ser que falar de desodorantes seja o mesmo que falar da essência da experiência humana.

Eu, sinceramente, espero que não.

Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Duas chaves


por Júnia Puglia Ilustração de Fernando Vianna

Para que serve um livro? Tola pergunta! Tantas são as respostas... Fico com apenas uma: para nos conectar a sensibilidade, juntar lembranças e exercitar a reflexão. Há poucos dias, ao ler as memórias de uma célebre escritora, deparei-me com uma rápida passagem sobre o hábito judaico de levar consigo a chave de casa, para onde for. Em instantes, fiz duas conexões que ficaram martelando aqui dentro.

A primeira, de quando eu tinha uns vinte anos, já trabalhava num bom emprego – coisas dos começos de Brasília – mas não podia ter a chave de casa, privilégio restrito aos pais e ao irmão mais velho. Inconformada com a restrição, comprei a briga e ganhei, conquistando a bendita chave e o direito de entrar e sair quando bem entendesse. Pode parecer banal, mas esses embates familiares sobre as coisas do cotidiano tomavam proporções quase épicas, principalmente quando protagonizados por uma pentelha topetuda que achava que podia tudo, e que muito pouco lhe era permitido.

A outra: alguns anos atrás, hospedei-me com uma família palestina árabe, em Amã. Apesar da rápida estadia, trago uma viva memória da paisagem árida, do calor e da cantoria prévia às cinco orações do dia, que me chegava de distintas direções por potentes alto-falantes. Chamou-me a atenção, como em nenhum outro lugar onde já estive, a demarcação do espaço público como território masculino. E também o tamanho dos apartamentos, verdadeiros solares empilhados, com salões, saletas, vários quartos, cada cômodo abrigando facilmente um desses ovos de codorna que andam vendendo por aqui, “com varanda gourmet e área de lazer completa para sua família”.

Ali, fiz meu primeiro contato direto com personagens da diáspora palestina. Guardo no coração o relato que me fez a velha senhora da família, em seu parco inglês, sobre a casa onde moravam em Jerusalém até 1948, quando foram sumariamente expulsos para dar lugar aos judeus, que chegavam aos milhares da Europa. O destino foi a vizinha Jordânia.

Supondo que seria um exílio temporário, levaram consigo a chave da casa, que ela tirou de uma caixa e me mostrou, enquanto terminava a história. Porém, como outros milhares de palestinos desalojados, foram impedidos de voltar, vítimas de um milenar, trágico e interminável balaio-de-gatos racial-político-religioso, produto da arrogância, da estupidez e da intolerância que se perpetuam em várias situações similares mundo afora. Uma única vez puderam visitar sua antiga morada, agora habitada por israelenses, que, por sua vez, não tinham ideia do drama por trás daquela casa. Consternados com a insólita visita, moradores e visitantes terminaram chorando juntos por uma situação na qual eram simples peças de um quebra-cabeça perverso.

Ambas as chaves ganharam vida. Nas mãos da moça ávida por alçar seu próprio voo, o objeto tomou a forma de pequenas asas, que depois ganharam envergadura. Lá na Jordânia, naquela caixa de madeira entalhada, o tesouro preservado com tanto sentimento por uma família exilada trazia uma história proibida de morrer.


* Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto
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