.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
Mostrando postagens com marcador trânsito. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador trânsito. Mostrar todas as postagens
quarta-feira, 28 de agosto de 2013
Carona solitária
por Ricardo Sangiovanni*
Sou um tipo ranzinza, pouco novidadeiro, é verdade; e é justamente por isso que cuido de redobrar no espírito a dose de uma antiga precaução: a de não desgostar de novidade nenhuma, a priori, apenas por tratar-se de coisa ou fato novo.
Porém que não me venha abusar da boa vontade esse pessoal que “inventa”, como se novidade fosse, alheias invenções do arco da velha, inventadas alhures, antanho, distante daqui. Descabelo-me mais ainda quando a invenção copiada, a original, já deu provas de sua redonda ineficiência – e, mesmo assim, é replicada.
O caso concreto em questão: a fabulosa “Faixa Solidária”, criada em Salvador, Bahia, Brasil, na quarta-feira passada. Foi o seguinte: a intelligentsia transporteira da prefeitura municipal netocarlista resolveu separar, em reduzidíssima porção da orla da cidade, meia pista de quem vai para ser usada por quem vem, desde que quem vem esteja dirigindo junto, no carro, com mais alguém.
A aposta, dizem, é que, a partir dessa iniciativa genial, desencadeie-se uma doce onda de solidariedade – tema, aliás, da Campanha da Fraternidade de mil novecentos e não-sei-quantos, não se esqueçam, irmãos em Cristo. Nobre sentimento que, espera-se, será decisivo para reduzir a quantidade de carros nas ruas de nossa urbe rude; sentimento que nos conduzirá, com fé, à vitória final prometida sobre esse terrível, esse dito adventício mal do século que é o engarrafamento.
Perfeito. Só que esqueceram de avisar aos baianos (ao menos aos que, como eu, passam de vez em quando o olho pelos jornais para saber o que está para acontecer na cidade) que a faixa solidária é uma artimanha já tentada em uma outra cidadezinha brasileira, uma cidadezinha acanhada e desconhecida, da qual quase nunca se ouve falar – talvez por isso ninguém tenha se lembrado dela – chamada São Paulo.
Foi no final dos anos 90 – acertou quem disse 1997 – e foi implantada não em uma, mas em oito vias movimentadas da cidade, coisa de 12 quilômetros, na soma. Começou reservada para carros com pelo menos três pessoas. Mas aí, vista a baixa adesão, liberaram para carros com duas pessoas. Passaram-se cinco anos, os engarrafamentos seguiram aumentando, e a quantidade de carros saindo pelo ladrão. Cadê solidariedade? Ora, amigo leitor, aí não teve solidariedade certa: nem bem 2002 tinha chegado à metade, a intelligentsia transporteira local (petista, nesse caso; intelligentsia não tem partido) não aguentou e resolveu liberar as tais faixas solidárias também para os motoristas dirigindo sozinhos, tamanha era a solidariedade que eles demonstravam consigo próprios em comoventes caronas solitárias.
E então as tais faixas solidárias paulistanas cumpriram seu verdadeiro destino, que seria cômico se não fosse trágico: tornaram-se mais e mais pistas engarrafadas, capazes, quando nada, de dar um aumentozinho no calibre das já entupidas artérias do trânsito de São Paulo. Pistas engarrafadas das quais, evidentemente, a São Paulo hoje já não pode mais prescindir. E os motoristas, pergunte se ficaram mais solidários…
Mas parece que nada disso aconteceu, que nada disso importa, que nada disso tem a ensinar a esse nosso intransponível bairrismo de Primeira Capital da Colônia.
Pois se o caminho é esse, começamos bem: em três dias, poucos usaram a faixa solidária, e o principal êxito foi ter-se criado um congestionamento onde não havia (a saber, no sentido de quem vai, que afinal ficou mais estreito). E assim segue a Bahia, sãopaulizando-se a cada dia. Aliás, sendo sãopaulizada, sãopaulizada no que a cidade de São Paulo – onde tive a sorte de poder aprender coisas da vida e fazer grandes amigos – tem de pior.
*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.
Marcadores:
bahia,
carros,
crônicas,
engarrafamento,
faixa solidária,
mistério do planeta,
motoristas,
salvador,
trânsito
quarta-feira, 13 de março de 2013
As galinhas do Água Branca
por Thiago Domenici*
A fuga das galinhas do Parque da Água Branca, na esquina da movimentada av. Francisco Matarazzo com a ministro Godoy é das observâncias mais inusitadas. De uns tempos pra cá faço um novo caminho diário ao ir e voltar do metrô Barra Funda: desço a ministro Godoy, cruzo a faixa de pedestres pela Matarazzo e pego, em seguida, após correr os olhos por uma banca de jornal e ver as manchetes de algum periódico, uma ruazinha estreita que vai desembocar defronte a estação, a poucos passos do exuberante Memorial da América Latina.
Nesse itinerário tenho me deparado diariamente, não sem espanto, com motobóis sem paciência e carros sem amor buzinando para galos e galinhas radicais e seus pintinhos emancipados que arriscam suas cristas e penas ao atravessar fora da faixa de pedestres.
Isso mesmo! Galos e galinhas que se aventuram no asfalto em busca de um mix de farelos qualquer. Os bichos, sem medo, retrucam às buzinadas; galos, principalmente, empostando seu canto alto e vigoroso. É um tal de Fom! Fom, Beep Beep e Có coró cóóó de dar inveja ao silêncio, que ali não tem espaço.
Pois outro dia a mamãe galinha e dois rebentos estavam a cacarejar com regateios solenes, com seus movimentos pescoçais ritmados em meio ao já citado ruído nauseante. Fotografei com o celular. Não deu boa foto. Pensei, oras, que a cena tem é de ser vista a olhos vivos, sem imagens ou registros que inibam a imaginação, sempre mais interessante (ou quase sempre) do que a realidade.
O Água Branca, para situar, é nome do bairro, localizado no distrito da Barra Funda, mas que oficialmente leva o nome do homem que o concebeu, Fernando Costa, secretário de agricultura no longínquo ano de 1929, data em que se iniciou uma grande crise na economia mundial, devido à quebra da Bolsa de valores dos Estado Unidos. Quando inaugurado em 2 de junho daquele ano, o objetivo era abrigar exposições e provas zootécnicas.
Hoje o lugar é patrimônio cultural, histórico, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico do Estado. Além desses títulos, o que mais importa é o que nele vive: além da farta (e cada vez mais rara) natureza e dos galos e galinhas que gostam de aventurar-se no além-parque, os outros bichos que vale a confraternização são os macacos, gatos, cavalos, patos, pavão, peixes e, claro, alguns espécimes de zumanos em busca de respiro. O lugar tem um certo ar de nostalgia, meio outro tempo.
Nos meus encontros com as aves, uma galinha em especial – de penas escuras – que já vi por mais vezes a saçaricar entre os andantes sempre ignora meu “boa tarde” com uma corrida meio trotada em direção oposta. Ela, a quem apelidei de Mafalda, não é de dar atenção fácil pra ninguém. O guardador de carros que fica no pedaço é dos poucos que oferece um rango farelístico sem que ela fuja.
Fico a imaginar, por pura curiosidade, aquela São Paulo mais antiga e rural que não vivenciei, com seus transeuntes ternados e chapelados, quando por essas bandas existia mais terra batida do que asfalto e mais horizonte, que ofuscado, dorme atrás dos edifícios.
*jornalista, Thiago Domenici é editor e coordenador do NR
A fuga das galinhas do Parque da Água Branca, na esquina da movimentada av. Francisco Matarazzo com a ministro Godoy é das observâncias mais inusitadas. De uns tempos pra cá faço um novo caminho diário ao ir e voltar do metrô Barra Funda: desço a ministro Godoy, cruzo a faixa de pedestres pela Matarazzo e pego, em seguida, após correr os olhos por uma banca de jornal e ver as manchetes de algum periódico, uma ruazinha estreita que vai desembocar defronte a estação, a poucos passos do exuberante Memorial da América Latina.
Nesse itinerário tenho me deparado diariamente, não sem espanto, com motobóis sem paciência e carros sem amor buzinando para galos e galinhas radicais e seus pintinhos emancipados que arriscam suas cristas e penas ao atravessar fora da faixa de pedestres.
Isso mesmo! Galos e galinhas que se aventuram no asfalto em busca de um mix de farelos qualquer. Os bichos, sem medo, retrucam às buzinadas; galos, principalmente, empostando seu canto alto e vigoroso. É um tal de Fom! Fom, Beep Beep e Có coró cóóó de dar inveja ao silêncio, que ali não tem espaço.
Pois outro dia a mamãe galinha e dois rebentos estavam a cacarejar com regateios solenes, com seus movimentos pescoçais ritmados em meio ao já citado ruído nauseante. Fotografei com o celular. Não deu boa foto. Pensei, oras, que a cena tem é de ser vista a olhos vivos, sem imagens ou registros que inibam a imaginação, sempre mais interessante (ou quase sempre) do que a realidade.
O Água Branca, para situar, é nome do bairro, localizado no distrito da Barra Funda, mas que oficialmente leva o nome do homem que o concebeu, Fernando Costa, secretário de agricultura no longínquo ano de 1929, data em que se iniciou uma grande crise na economia mundial, devido à quebra da Bolsa de valores dos Estado Unidos. Quando inaugurado em 2 de junho daquele ano, o objetivo era abrigar exposições e provas zootécnicas.
Hoje o lugar é patrimônio cultural, histórico, arquitetônico, turístico, tecnológico e paisagístico do Estado. Além desses títulos, o que mais importa é o que nele vive: além da farta (e cada vez mais rara) natureza e dos galos e galinhas que gostam de aventurar-se no além-parque, os outros bichos que vale a confraternização são os macacos, gatos, cavalos, patos, pavão, peixes e, claro, alguns espécimes de zumanos em busca de respiro. O lugar tem um certo ar de nostalgia, meio outro tempo.
Nos meus encontros com as aves, uma galinha em especial – de penas escuras – que já vi por mais vezes a saçaricar entre os andantes sempre ignora meu “boa tarde” com uma corrida meio trotada em direção oposta. Ela, a quem apelidei de Mafalda, não é de dar atenção fácil pra ninguém. O guardador de carros que fica no pedaço é dos poucos que oferece um rango farelístico sem que ela fuja.
Fico a imaginar, por pura curiosidade, aquela São Paulo mais antiga e rural que não vivenciei, com seus transeuntes ternados e chapelados, quando por essas bandas existia mais terra batida do que asfalto e mais horizonte, que ofuscado, dorme atrás dos edifícios.
*jornalista, Thiago Domenici é editor e coordenador do NR
Marcadores:
água branca,
aves,
barulho,
carros,
cidades,
cronicas,
galinhas,
imagens,
motos,
parque da água branca,
são paulo,
thiago domenici,
trânsito
Assinar:
Postagens (Atom)


