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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Imunidade

por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna* 

Tenho lido notícias sobre o que parece um novo tipo de paralisia acometendo crianças nos Estados Unidos, coisa mais maluca. Foram mais de vinte casos comprovados nos últimos anos. Suspeita-se que seja pela ação de um vírus de poliomielite modificado, e se atribui seu surgimento ao fato de, na última década, ter-se alastrado entre os pais de crianças pequenas o hábito de não vaciná-las, sob alegações várias.

Por coincidência, recentemente fiquei sabendo também que crianças têm sido intencionalmente expostas a certos vírus de doenças evitáveis, como catapora e outras, para que, uma vez contaminadas, desenvolvam a doença e os respectivos anticorpos, também como forma de driblar as vacinas. Não sei se esse comportamento tem algum respaldo científico, só sei que acho muito esquisito. Quando eu era criança, convivi com colegas que tiveram poliomielite por falta da devida imunização, e a vida se tornou extremamente difícil para elas. Aos poucos, os casos foram diminuindo até desaparecer. Agora reaparecem, com variações ainda desconhecidas. Talvez essas mães e pais não tenham ideia de como era a vida antes das vacinas. Eu não arriscaria, nadinha mesmo.

Houvesse estado ao meu alcance, eu teria vacinado meus filhos, e todas as outras crianças, contra moléstias do corpo, da alma e da mente. Teria misturado às gotinhas contra pólio, sarampo, meningite, rubéola e companhia substâncias que criassem a capacidade de rebater o desamor, o desamparo e a brutalidade, que em algum momento – ou em muitos, vai saber – atacam cada ser humano já nascido ou por nascer neste mundo. Nem os filhos da rainha da Inglaterra estiveram a salvo. Também os teria capacitado para não sentir fome e sede se não tivessem a possibilidade de acesso à comida e à água.

Teria providenciado imunização completa contra a inexperiência e imperícia dos pais, tanto para aplacar cólicas de recém-nascido quanto para decifrar com precisão suas necessidades mais profundas ao longo da vida. Teria inoculado neles, em dose única, o vírus da liberdade e do direito de escolher, de maneira que nunca fossem contaminados pela escravidão do pensamento e pela infelicidade de viver vidas alheias às suas. Teria inserido neles o DNA dos vagalumes, para que nunca me fossem invisíveis, no meio da noite bem escura ou de tantas coisas que podem distrair a gente.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

6 comentários:

Carlos Augusto Medeiros disse...

Fiquei curioso para saber quais remédios você usaria contra os males da alma...
Obrigado pela excelente reflexão.
Abraços, Carlos.

Anônimo disse...

JÚNIA, se pudesse eu teria inoculado em você o brilho dos vagalumes e o perfume das flores .Aliás, você os tem por natureza........
Beijos da Mummy Dircim

Júnia Puglia disse...

Vixe! Generosidade materna em dose master plus.

Anônimo disse...

Ju,

Que beleza, que delicadeza de texto!

Terê

abuelitapeligrosa.blogspot.com disse...

"... Teria providenciado imunização completa contra a inexperiência e imperícia dos pais..." Pais experientes e não dotados de imperícia vacinam seus filhos... sempre. Terno e belíssimo texto. Ah... se pudéssemos todos cuidar de nossos filhos e protegê-los...

Anônimo disse...

Júnia, é muito isso daí!!! Estou rindo aqui, pensando como será, então, quando você for avó!!! Um beijão, FF

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