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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Correio sentimental

A culpa é do Ricardo Viel, que há algumas semanas publicou aqui um lindo texto sobre como era a vida “Antes do email”. Pegou-me prestes a encarar um centro cirúrgico (lugarzinho lúgubre) para uma intervenção programada, tranquila, mas que deixa qualquer um de cabelo em pé e coração mole. Não só porque você sabe que vão te cortar e te remexer por dentro, mas também porque vão fazê-lo enquanto você está sedada, vagando pelas galáxias. Saí de lá com uma pintura primitiva na barriga e uma sonolência boa, que me fez viajar pelas cartas que escrevi e recebi.

Foram muitas. Escrevia-as à mão, em papel especial, passava a limpo quando necessário, preparava o envelope com destinatário e remetente, dobrava o papel no formato que encaixava, colava e levava ao correio, onde ela recebia o selo e era despachada ao seu destino. Daí, ficava curtindo a ansiedade de esperar a resposta por vários dias, e quase sempre vinha. Vieram muitas. Fui uma missivista – como ainda se dizia – esforçada e prolífica por anos a fio, mantendo correspondência com parentes e amigos espalhados por algumas cidades e até países.
Sabe o que não mudou? A nossa necessidade de trocar afeto com as pessoas, compartilhar segredos, colocar em palavras escritas o que nos vai no coração, falar de impressões e sentimentos, ou de qualquer outra coisa, num tom que só funciona quando estamos sozinhos com nossos botões.
Uma das últimas novidades da era das cartas foi o aerograma, uma folha de papel bem leve, que permitia que a gente escrevesse de um lado e, do outro, trazia impresso o formato do envelope. Era só dobrar, endereçar e enviar. Numa IBM elétrica, eu ocupava todo o espaço interno com a carta, datilografada em letra pequena e espaçamento apertado. Rendia muito e ficava baratinho.

Pois é, o email acabou com esses rituais e quase eliminou a espera. Mais recentemente, outras formas de comunicação digital o estão substituindo, e daqui a pouco ele também será lembrado com esse tom nostálgico. O “videofone”, que encantava nas fantasias futuristas de poucas décadas atrás, está hoje acessível a qualquer pessoa que esteja diante de um computador e saiba usar seus inúmeros recursos de comunicação instantânea com som e imagem. Tanto que, atualmente, nenhuma viagem é tão longa ou distante que impeça o contato diário, o que, por sua vez, tirou do ato de viajar um certo glamour de se estar inacessível – e um distanciamento eventualmente muito desejado e apreciado.

Sabe o que não mudou? A nossa necessidade de trocar afeto com as pessoas, compartilhar segredos, colocar em palavras escritas o que nos vai no coração, falar de impressões e sentimentos, ou de qualquer outra coisa, num tom que só funciona quando estamos sozinhos com nossos botões. Não sabe como encarar a pessoa e dizer o que pensa ou sente? Tente escrever, procurando aquelas palavras que melhor expressem o que te vai no coração e na cabeça. No mínimo, será um exercício de autoconhecimento e moderação, que pode te surpreender muito. Depois de matutar bastante, talvez até decida não enviar o que escreveu, guardando para si mesmo uma reflexão preciosa ou reveladora do que te vai por dentro. É isso, escrever permite ajustar o foco.

Falando nisso, e fazendo uma ressalva importante, pense muito bem antes de colocar desaforos e impropérios por escrito, porque, que eu saiba, ainda não foi inventado um “delete”, uma tinta, uma borracha mágica que conserte sentimentos feridos por letras. Só o tempo, que, acredita-se, conserta tudo, mas demora pra passar.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR. + Textos da autora.

5 comentários:

Junia Carvalho disse...

Achei perfeitas suas palavras, xará. Como sempre.
Eu ainda me atrevo a afirmar que a pasta de rascunhos da minha caixa de emails é um dos meus melhores terapeutas. E de graça!

Anônimo disse...

FANTÁSTICO!!! VOCÊ ME FEZ VOLTAR ÀS VELHAS AULAS DE LATIM, CONFIRMANDO O ULTRA-VELHO DITADO : VERBA VOLANT ; SCRIPTA MANENT.
ENTÃO ,PODEMOS CONCLUIR O OBVIO : OS SENTIMENTOS COLOCADOS NO PAPEL SÃO MAIS AUTÊNTICOS DO QUE AQUELES DECLARADOS AO VIVO.
MIL BEIJOS DA MUMMY DURCIM

Montanhas, mares e culturas disse...

É a pura verdade...ainda não inventaram um ´delete´para marcas de letras regadas por tintas raivosas. Sempre penso nisso quando vou escrever algo, mesmo que seja por email. No entanto, mesmo assim, algumas vezes, tropeço em algumas letras de perninhas mais longas ou de colunas esticadas.... :-´(

Anônimo disse...

Rainha, estou com saudades de você. Seus textos são meu deleite pré final de semana. bjs, Súdita Valenzuela

coresentrenos disse...

Gosto de lembrar que vc é presente com um belo presente, toda sexta feira.
Te gosto muitão.
bjos,bjos

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