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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 18 de junho de 2013

Eles querem se apropriar

por Thiago Domenici*

1 – A reivindicação principal é pela redução da tarifa do transporte em SP, é baixar de 3,20 para três reais, pra começar. Só pra começar. A tarifa zero não é utopia. Há que ser discutida.

2 – Antes de quinta, quando a PM aterrorizou, o movimento era de jovens "baderneiros", pedindo algo "impossível". A ideia era desacreditá-los. O discurso da mídia virou depois da ação truculenta da PM, vide um exemplo: Arnaldo Jabor se desculpando por falar asneira.

3 – A imprensa, nome aos bois mais vistosos: Globo, Veja e editoriais de Estadão e Folha agiram em prol da manipulação da pauta dos protestos desde o início.

4 – Daí teve ontem, um mar de gente e...

5 – Essa mesma imprensa pensou: “e agora?”. E o que fez? Seguiu deturpando a pauta principal das manifestações. Agora, dá um jeito de dizer que não é só pela “redução das passagens”. Que a coisa é geral, contra tudo que de ruim existe no país e blábláblá.

6 – Isso se explica, de certa forma, pelo seguinte: ontem teve tanta gente na rua, “sem partido”, “contra corrupção”, “acordando” e cantando o hino e outras firulas (lembram do “Cansei”?) que nisso viram [não só a imprensa, tá?] uma boa oportunidade de seguir jogando sujo. E seguem.

7 – Então assim: não se enganem. O Brasil dos movimentos sociais fortes não está acordando. Está desperto há tempos. Lutam, como grande parte da imprensa independente, por suas bandeiras verdadeiras e justas. A imprensa, a de massa, vai seguir tentando desqualificar e desmobilizar as ações por meio da informação torta, aquela que mais confunde do que esclarece. A independente, menor em alcance e recursos, mas tão capaz e forte, vai seguir limpando essa sujeirada toda com informação de interesse público.

PS: assistam o Roda Viva de ontem, com os representantes do Movimento Passe Livre, no qual o NR esteve presente na bancada de tuiteiros. Vídeos em quatro partes aqui.

Thiago Domenici, jornalista, editor e coordenador do NR

3 comentários:

Márcio Fernandes Pereira disse...

Thiago, eu acho que você está certo. O movimento - especialmente em SP, mas não apenas - deve se manter forte na defesa da redução das tarifas do transporte público e, daí para frente, ampliar o debate em torno das questões que envolvem as políticas de Mobilidade Urbana no país.

Porém, temos um fato: o MPL foi fortalecido por um apoio popular muito amplo e, naturalmente, este processo gerou uma maior visibilidade quanto a insatisfações para além da tarifa zero. Uma coisa não exclui a outra. Há que se relacionar com ambas, sem perder qualquer delas de vista.

Nós estamos em uma fase muito especial das mobilizações dos últimos dias. Os MPLs do país - que, de fato, já lutavam muito isolados, sem auxílio, há tempos - obtiveram um apoio que os fortaleceu e lhes deu a chance de dobrarem os agentes políticos que insistem em vender a ideia de que políticas de tarifa zero são impossíveis. A continuidade das manifestações depende da contínua mobilização destes diferentes grupos, pois, do contrário, o movimento correrá grave risco de se enfraquecer. Não há donos desta manifestação. Ela foi para além da pauta inicial (mas que não deve ser abandonada). Os grupos organizados devem se reestruturar, definir pontos claros para a pressão junto às mais distintas instituições da sociedade. Quer dizer, precisamos de uma pauta que envolva mobilidade urbana, reforma das instituições, perda de privilégios dos ocupantes de cargos eletivos, desmilitarização e reformulação do aparelho policial. Tais elementos fortalecerão o movimento, potencializarão o seu caráter nacional (pois os pesos destas demandas muda de região para região - eu sou de Brasília) e darão o fôlego necessário para que ele se mantenha para além das semanas que teremos pela frente.

Trata-se de criar mais uma força política (que não precisa estar ligada a partidos específicos) capaz de interagir com aquelas que estão estabelecidas, tomando parte do espaço de influência. Trata-se de diminuir a distância entre governantes e governados, de buscar caminho alternativo para uma política que não precisa necessariamente ser partidária (ainda que não a exclua). Mas isso depende de organização e de coordenação. É necessário que os diferentes grupos das grandes capitais se encontrem para definir uma articulação comum, com pontos comuns. A primeira reivindicação deve ser a redução das tarifas, claro. Mas, conquistada essa, o movimento não pode se enfraquecer tão rapidamente (é justamente o que os atores políticos consolidados querem hoje, pois dividir poder é perder o seu). Foi esta falta de construção de pauta e de articulação que enfraqueceu o Movimento 15-M na Espanha, fazendo-o perder grande força após as eleições nacionais naquele país em 2011.

Mais: muitas lideranças regionais das mobilizações dos últimos dias estão sendo perseguidas pelos governos locais (é o que acontece no DF). A formação de uma articulação nacional seria importante para que estas pessoas continuassem na organização dos movimentos e para que estabeleçam negociação sob o risco das manifestações seguirem uma direção que antes atenda aos grandes veículos de comunicação e às forças políticas consolidadas.

Thiago, desculpe-me pela longa mensagem, mas achei que precisava me expressar neste momento em que, após os meus passados anos de movimento estudantil, voltei a acompanhar as marchas como manifestante anônimo.

Obrigado.

Anônimo disse...

Puta texto.

Thiago Domenici disse...

Marcio, li sua mensagem com muita atenção e interesse. E peço desculpas pela demora no retorno. Concordamos, então. Ótimo. O que tenho visto é uma rua cheia de pautas, de todas as vertendes, nesse momento. É preciso olhar com carinho e atenção pra todas e se informar. Só assim é possível entender um pouco esse momento conjuntural brasileiro. Vamos em frente! Abs.

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