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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)
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quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Bruno Maranhão, presente


por Aleksander Aguilar*

Teimoso, polêmico, dedicado, afetuoso, louco, aberração. De todos os muitos adjetivos usados para descrever Bruno Maranhão o último, que pode ser visto como o mais curioso e pesado, é paradoxalmente o que dá o melhor sentido para justificar a celebração da sua da sua vida, pela qual lutou, como fez em toda sua trajetória política, até o dia 25 de janeiro deste ano.

Bruno, filho de usineiros de açúcar por parte de mãe e de pai, um herdeiro típico da alta burguesia tradicional pernambucana, legada diretamente da relação Casa Grande/Senzala, fez-se aberração suficiente para deixar o chicote opressor e lutar pelas emancipações dos oprimidos ao lado dos mais destacados comunistas da época das revoluções guerrilheiras no Brasil, e seguir lutando ao longo de toda sua existência. De sucessor da estrutura de dominação social pela terra, passou a vida em militância por reforma agrária.

“Origem de classe não tem a ver com consciência de classe”, me disse em uma das inúmeras reuniões que tivemos no seu escritório no bairro Casa Amarela, em Recife. Bruno fez muitos amigos e amigas em sua história política, de tão longa data como da clandestinidade na ditadura e do exilio no exterior. Eu, porém, tive apenas a oportunidade de conviver com ele durante os últimos seis meses do vigor da sua militância, em 2011, quando nos reuníamos quase que diariamente, em Pernambuco e outros estados, para organizar a “Marcha da Reforma Agrária do Século XXI”, do Movimento de Libertação do Sem Terra (MLST), do qual ele foi um dos principais coordenadores.

Bruno tinha uma inquietude otimista motivadora, e gostava muitas vezes de desafiar as “condições objetivas”, acreditava que só lançando-se aos projetos poderia faze-los realidade.

− Vai ser muito difícil conseguir a condição ideal pra caminhar 250 km com quase 1000 militantes, Bruno, em tão pouco tempo, argumentava-se.

− Nem sempre há tempo para conseguir o ideal, companheiro, mas ao fazermos já vencemos, respondia.

Levamos 20 dias naquele ano, de agosto até o 7 de setembro, para caminhar da capital do Estado de Goiás, até Brasília. “Aperte a mão de quem o alimenta!” foi o lema, e a Marcha promoveu pelas cidades onde passou seminários para evidenciar a importância e a necessidade da reforma agrária para a superação da pobreza no Brasil. Essa atividade idealizada pelo Bruno foi sua última grande articulação de movimentos populares. Ele infelizmente não pode conclui-la, pois justamente ali se iniciou a manifestação da doença que levou o lutador. As fotos que fiz durante a Marcha são suas últimas imagens em plena militância, no ato de lançamento da jornada, em que o vimos com punho levantado e de microfone à mão, como o foi na sua história de lutas por emancipação.

Em plena ditadura militar brasileira, aos 20 e poucos anos ingressou no Partido Comunista Brasileiro Revolucionário (PCBR) e integrou o Comitê Central ao lado de lendas como Apolônio de Carvalho, Jacob Gorender e Mário Alves. Foi exilado político, e no retorno ao país ajudou a fundar o PT, tendo sido membro da Executiva nacional, e já com mais de 50 anos fui fundador do MLST, onde militou até a sua morte, aos 74 anos de idade.

Sua capacidade de liderança era inegável e era tão destacada quanto o seu carisma. Bruno ensinou gerações de militantes, do campo e da cidade, de movimentos sociais e de partido, aquelas particularidades do comportamento político, do trato com o adversário, da hora de ser firme, de negociar, de flexibilizar, que só a experiência forjada em muitos anos de prática podem dar. Desde a roda de camponeses em um galpão de pouca cobertura no interior do Nordeste até o gabinete do governador do Estado, pelos assentamentos e acampamentos sem-terra à reuniões ministeriais no Distrito Federal, via-se aquela postura e leitura sociopolítica inabalável da realidade. Era o que lhe motivava a apostar e entregar-se a necessidade de transformações estruturais no país que, vista como uma grande excentricidade por parte de muitos, foi justamente o que lhe garantiu o respeito e um lugar certeiro na história da esquerda brasileira; uma coerência e chama sempre acesa por justiça social que fez de Bruno um militante revolucionário na juventude, na idade adulta e mesmo na terceira idade.

Bruno Maranhão foi um brasileiro que teve uma história particular. Na dedicatória do livro Os Colares e as Contas (2012), a síntese poética de uma experiência política, segundo seu próprio autor, o jornalista Marcelo Mario de Melo, que também foi militante do PCBR, aparece a homenagem a Bruno entre aqueles “que se mantém socialistas e de esquerda depois dos 60 anos”. E Bruno ainda depois dessa idade não apenas manteve suas ideias como as expressou constantemente desde caixotes improvisados em assembleias e reuniões camponesas nos campos desse Brasil. Só se pode respeitar uma trajetória assim. O sonho e a luta por reforma agrária permanecem vivos na memória de Bruno Maranhão.

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Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

domingo, 11 de agosto de 2013

Ruy Fernando Barboza

A última vez que encontrei o Ruy, no ano passado, na feijoada da Lana, na Vila Madalena, ele contava com entusiasmo da viagem que fizera pouco antes para Barcelona. Desde então não nos vimos mais. Somente algumas trocas de mensagens pelo Facebook e e-mail.

A última, pouco antes de ele ser operado para tirar a vesícula, eu pedia para publicar um texto que havia lido em seu blog. Ele respondeu que seria um prazer. O texto ia sair nessa semana, estava só a espera de uma ilustração para caprichar mais. Não deu tempo de ele ver, infelizmente.

Fui pego de surpresa com a notícia de sua partida, avisado pelo amigo em comum Serginho Kalili. Ruy tinha 70 anos e faleceu por conta de uma parada cardiorrespiratória em Florianópolis, cidade onde vivia.

O Ruy conheci em 2012, no começo do ano, quando ele foi ser editor de texto da Retrato do Brasil. Ele saiu alguns meses depois, num tempo de convivência curto mas intenso. Ele tinha uma energia tão boa, uma inteligência e um humor raros que virei um admirador imediato. Ruy era generoso por natureza. Era um extra-classe de ser humano. Durante as manifestações de junho ele me escreveu dizendo que o NR havia feito uma cobertura “ótima”. Fiquei orgulhoso. Elogio do Ruy era sinal de que estávamos no caminho certo.

Então, timidamente, quero prestar uma homenagem minha e do blog para o Ruy que foi, sem dúvida, um dos grandes jornalistas que esse país já teve. Foi, sem dúvida, uma pessoa muito querida e admirada, visto o tanto de gente que vi circular em seu velório nesse domingo à noite.

Queria deixar um abraço para família e pra Silvia, a namorada dele, também muito querida. Tem perdas que nos fazem balançar demais. E pensar num tanto de coisas que fica difícil digerir. Um dia a pessoa está ali, no outro não está mais. Complicado.

Valeu muito Ruy, um beijo, querido, com toda a minha admiração e respeito!

Thiago Domenici

"Nasci em Paranaguá, PR, em 1943. Mudamos para Londrina, PR, em 1947. Em 1965 concluí Direito na USP. Em Sampa, ao chegar em 1961, não conhecia quase ninguém. Primeiro emprego decente foi na Folha, em 1963. Lá Woile Guimarães e outros generosos jornalistas me explicaram o que fazer. Simultaneamente com o jornalismo, atuei por um tempo na advocacia criminal. Mais tarde cursei Mestrado em Comunicação, também na USP - mas não defendi a dissertação. Fiz Psicologia (São Marcos) e formação em Psicanálise, Psico-Oncologia e Análise Bioenergética. Planejei e implantei o curso de Comunicação da Universidade Estadual de Londrina. Continuei sempre no jornalismo (Realidade, Quatro Rodas, Playboy, Veja, TV Globo etc.) e na Psicologia (consultório, grupos e consultoria a empresas). Aos 50 anos, prestei concurso, como bacharel em Direito, para Analista Judiciário do Tribunal Regional Federal (onde me aposentei em 2000). Hoje moro em Floripa e em Sampa (sou editor de Texto da Retrato do Brasil) e trabalhei: até 2009, no Canal Futura e Revista Cláudia (respondia como psicólogo, a cartas d@s leitor@s. Em 2010 coordenei, por uns meses, a TV e a Radio Justiça, em Brasilia." - no seu blog Pensamentos Divergentes 

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