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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Isto daria naquilo

Se meus pais não tivessem mudado do Rio para Sampa, quando eu tinha quinze anos, talvez eu morasse na ilha de Paquetá e não na Vila Madalena. Também não teria conhecido os amigos que amo. Nem teria os adversários dos quais me esquivo. Certamente não seria a dona do meu cachorro Chico. Ele dorme aos meus pés, neste momento em que escrevo com a doida esperança de que alguém me leia.

Caso meu professor de matemática no curso ginasial, o seu Almerindo, não fosse o idiota que foi, talvez eu tivesse cursado engenharia civil. Quem sabe, no lugar de criar puxadinhos de palavras, estivesse construindo pontes que levam pessoas, carros, mercadorias, encontros, sonhos do ponto A ao ponto B. E vice-versa.

Se eu tivesse nascido num grotão do país, provavelmente seria uma mulher sem escolhas, com poucos se, caso, se. Estaria esfolando as mãos num canavial, ou limpando e cuidando da casa dos outros. Se eu tivesse sido submetida ao trabalho infantil, provavelmente teria um déficit de expectativa.

Caso os portugueses não tivessem erguido a Fortaleza de Santa Cruz, em Niterói, defendendo a Baía de Guanabara, talvez a gente falasse francês. Caso a mãe de Lula não tivesse montado naquele pau-de-arara rumo ao sul, talvez ele não se tornasse presidente da República. Caso o Brasil não tivesse mergulhado na noite da escravidão, teríamos chance de sermos menos desiguais.

Se Jonatas tivesse demorado mais trinta segundos na festa da casa da amiga, talvez o carro que o atropelou e o matou já tivesse passado no momento em que ele cruzou a rua. Se aquele domingo fosse chuvoso, talvez a menina Marina não quisesse brincar no quintal da vizinha e não teria caído no poço.

Caso Judas não tivesse traído Jesus, talvez a Igreja Católica nem existiria. Caso Moisés fosse analfabeto, os dez mandamentos não nos perseguiriam. Caso o carnaval fosse permanente, adoraríamos trabalhar quatro dias por ano. Caso os galos pusessem ovos e o Papa engravidasse, as mulheres não precisariam lutar tanto e nem o tempo todo pelos seus direitos.

Se os brasileiros ficassem sérios, talvez deixassem de ser brasileiros. Se os ingleses derrubassem a monarquia, talvez deixassem de ser ingleses. Se os franceses desenvolvessem alergia a perfumes, talvez deixassem de ser franceses. Se os espanhóis não se indignassem, talvez deixassem de ser espanhóis.

Caso não houvesse sons, o ouvido gritaria de pavor. Caso não existisse a morte, a vida perderia os sentidos. Caso não houvesse praia, o mar seria apenas dos peixes e das embarcações. Caso não existisse o silêncio, a música jamais teria sido inventada. Caso não houvesse a recorrente dor, ninguém escreveria e nem leria nada.

Se não encontrássemos, na última Flor do Lácio, as conjunções condicionais indicadoras de hipóteses, eu não poderia ter escrito esta crônica. Caso meus pais não tivessem mudado do Rio para Sampa, eu não teria a ideia de escrevê-la.

fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

12 comentários:

Denise Autran disse...

Adoro teus escritos sempre!
Aguardo suas palavras quinzenais...


Beijos
Denise Autran

Saudades do velho e novo Chico...

julio disse...

acredite, sempre alguém viu,diferente dos que moram no andar acima ...

Anônimo disse...

Saiba que eu só espero o tempo de ler você. E se vc não escrever, o que faço do meu tempo ? jsavio

nil disse...

espero, sempre, junto com o bento 17 e o telonius I suas cronicas. sim esperamos vc. sddes. nil

Ligia disse...

Oi querida, tudo bem? quanto tempo. Sinto muitas saudades.
Sou sua Fã, admiro muito seu trabalho e gosto muito quando você envia por e-mail para eu ler...Parabéns pelo seu trabalho.

E se não fosse os escritores, o que teria os leitores para ler...
Beijos

Marisa Ferraz disse...

Como sempre, é uma delícia te ler...

Moriti disse...

Ótima crônica, Fernanda. São tantas as possibilidades na vida, não?

Anônimo disse...

o destino é assim mesmo se não fosse o se,nada seria. muito bom ler tuas cronicas sempre
beijos saudades
lurufalco

C. Pompeu disse...

Coitado do prof. Almerindo!

CLinck disse...

...nossa!

Mergulho.

(de um fôlego só!)
Até o fundo que não existe.

então...

Por favor, continue mergulhando com as palavras.
(quem sabe um dia os Almerindos leiam e consigam saborear um texto assim como esse, amém!)

Anônimo disse...

Sempre criativa! Depois dessa gostasa leitura me pergunto o que me fez conhecê-la? E se vc fosse engenheira..ainda bem que é uma escritora. Ainda bem que seus pais mudaram do Rio para Sampa...rss bjos
Alderon

Redes disse...

Caso não gostasse tanto de você começaria a gostar agora e caso não tivesse lido esta crónica à Cristina ela não me teria inquietado com o seu questionamento metódico sobre :"... então é a dor que move a escrita e a leitura?" "não é o amor ? ... ao lápis?"
Um abraço
Paula e Cristina (Portugal)

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