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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 24 de julho de 2013

É tempo de celebrar Wilson Baptista


por André Carvalho ilustração Kelvin Koubik "Kino"*

Wilson Baptista (1913-1968) deu vida, com versos rabiscados em guardanapos e melodias forjadas no batuque de caixas de fósforo, aos tipos mais caricatos das ruas do Rio de Janeiro. Do malandro mais valente ao trabalhador mais “pelego”, do marido machista à mulher da orgia, do carioca flamenguista ao português vascaíno. Cantou a Lapa, a Mangueira, o Salgueiro.

Fez do Bonde 56 o Bonde Alegria, condutor de amores e inspirador de versos musicados. Criou personagens marcantes como Etelvina, Seu Oscar, Chico Brito, Hildebrando, Dona Inês, Emília, Alberto e Nega Luzia. Para celebrar o centenário de um dos grandes nomes da música brasileira, o Nota de Rodapé entrevistou o biógrafo do sambista, Rodrigo Alzuguir, que lançou, no início de julho o livro de partituras “Wilson Baptista – Cancioneiro Comentado”. Em setembro, Alzuguir vai lançar outra publicação sobre o sambista, a biografia “Wilson Baptista – O samba foi sua glória!”. Antes, o produtor cultural, ator, músico e pesquisador já havia produzido o espetáculo musical e o CD duplo que levaram o mesmo nome “O samba carioca de Wilson Baptista”. Alzuguir é imperativo ao afirmar que Baptista, um criador de personagens, foi além da composição, tornando-se um cronista social à frente de seu tempo, autor de aproximadamente 700 letras que viraram canções. 

Nota de Rodapé - Quando Wilson Baptista morreu, amargava o ostracismo, a despeito de sua genialidade. Por quê? 
Rodrigo Alzuguir - Ele morreu em 1968, um ano muito conturbado, de muitos protestos e de uma efervescência política muito grande. Os jornais naquela época só falavam em passeata, revolta, AI-5. Além disso, ele já estava meio esquecido, não chegou a pegar a revitalização do samba que estava começando a acontecer naquela época. Cartola, Nelson Cavaquinho gravaram seus primeiros discos nos anos 70. Se tivessem morrido antes, também teriam chegado com menos força até nós.

NR - Olhando por essa ótica, Noel Rosa é uma exceção, já que morreu muito cedo, ainda nos anos 30, desde então muito celebrado.
RA - Sem dúvida. Ele morreu muito cedo, no auge, e ficou como um mito. E tiveram duas pessoas fundamentais para a memória dele: Aracy de Almeida, que praticamente parou a sua carreira na década de 50 pra ficar gravando Noel, e Almirante, que fez a biografia do Noel, produziu vários programas de rádio e séries sobre ele. Badalou Noel até dizer chega. Noel teve esses dois arautos dedicadíssimos.

NR - E o Wilson não teve alguém que cuidasse de sua obra, seu legado?
RA - Wilson tinha muito orgulho de sua obra, falava com os filhos pra que eles cuidassem daquilo depois que ele morresse. Ele falava que tinha uma “bagagem” muito grande e queria que essas músicas dessem algum retorno, que eles pudessem viver disso. Mas isso nunca ocorreu. A obra dele ficou muito dispersa, inclusive as listagens oficiais, as músicas registradas em editoras, sociedades autorais. As listagens são totalmente incompletas, é uma coisa muito bagunçada. Eles, realmente, não puderam desfrutar disso.

NR - Por que você escolheu o Wilson Baptista para pesquisar? Por que ele dentre tantos outros?
RA - Porque eu acho que ele é o grande injustiçado de sua geração. Foi um dos que mais compôs entre os seus contemporâneos - até agora, levantei em torno de 500 músicas gravadas. Mas, além disso, ele tem uma série de inéditas e vendia muito samba para poder sobreviver (ele vivia de música). Então deve ter chegado a umas 700 músicas compostas. E apesar disso tudo ele era considerado um malandro.
Os próprios amigos dele falam em depoimentos: “Ah, o Wilson nunca trabalhou”. Aí eu fico pensando que é um baita preconceito, né? Porque uma cara que fez 700 músicas, e dizer que nunca trabalhou? É, no mínimo, um preconceito.

NR - E uma obra de extrema qualidade.
RA - Exatamente. Porque ele poderia ter feito 700 músicas medianas. Mas sua obra tem muita qualidade e acho que é até mesmo à frente de seu tempo, tanto em termos musicais, como nas temáticas que ele abordava. O olhar que ele tinha sobre a vida. Ele era um cara muito original pra sua época.

NR - Como você conheceu a obra de Wilson Baptista?
RA - Eu sempre fui apaixonado por essa geração dos anos 30, 40. Acho maravilhoso. Assis Valente, Ari Barroso, Noel Rosa, Ataulfo Alves. E o Wilson era um nome que eu já tinha ouvido falar, mas não conhecia grandes coisas.
Fui conhecer mais seus sambas quando eu fiz o encarte do disco “Ganha-se pouco, mas é divertido”, da Cristina Buarque, em tributo ao Wilson Baptista. Nessa época, em 2000, eu estava trabalhando à beça como designer e fiz a programação visual do Cd. E aí foi um banho de Wilson Baptista. E ela me emprestou bastante coisa, umas fitas do acervo da Collectors. E aí, eu fiquei ouvindo aquilo e vi que ele era realmente especial.

Rodrigo Alzuguir em foto de Jaqueline Machado
NR - E aí te despertou uma atenção especial pelo Wilson Baptista?
RA - É. Aí eu vi que não tinha muita coisa publicada sobre ele. Tinha uma monografia da Funarte (“Wilson Baptista e Sua Época”, de Bruno Ferreira Gomes), e um outro livro, da série “Perfis do Rio” (“Wilson Baptista na corda bamba do samba”, de Luis Fernando Vieira), pouca coisa. Uma introdução ao assunto. Eu achava que merecia um mergulho maior, mas eu não sabia exatamente o que fazer sobre ele.
Então, comecei a pesquisar e reunir todas as gravações que eu pudesse, ouvindo tudo, estudando as letras. Aí eu confirmei minha impressão inicial de que o cara era super moderno e original para época.

NR - Mas você não sabia direito que rumo tomar na pesquisa, né?
RA - O que me despertou mais foi a coisa dos personagens. Ele era um cara que levava isso às últimas consequências. Em “Oh, seu Oscar”, no primeiro verso, já aparecem três personagens: O Seu Oscar chegando em casa, a vizinha que traz o bilhete da esposa, e a esposa. Achei muito teatral isso e queria bolar algo pra teatro.
Depois, fui vendo que a vida dele era muito interessante. E fui entrando em contato com contemporâneos seus que se foram ao longo da pesquisa: Roberto Silva, Jorge Goulart, Dorival Caymmi, Dercy Gonçalves, Emilinha Borba, Roberto Roberti.
Também encontrei a Ceci, do Noel, dançarina de cabaré, que motivou uma espécie de “triângulo amoroso” com o Wilson.

NR - Seria este o tema verdadeiro da “Polêmica”?
RA - O tema verdadeiro foi uma outra dançarina do Cabaré Apolo, antes da Ceci. Essa mulher - o nome dela não ficou registrado - era uma outra dançarina. Noel ficou afim da menina, mas o Wilson chegou antes e ganhou a parada. E o Noel iniciou a “Polêmica”, escrevendo “Rapaz Folgado”, um samba que debochava de um sucesso recente de Wilson, “Lenço no pescoço”.
Depois, o negócio esfriou um pouco e a Ceci apareceu no circuito nesse mesmo cabaré. E ela era de Campos, conterrânea do Wilson. Noel viu ele se aproximar dela e pensou: “Ah, não, de novo, não”. E aí, os ânimos se acirraram um pouco.

NR - Wilson ficou estigmatizado como o “vilão da polêmica com Noel”, para as gerações seguintes?
RA - A “Polêmica” em si trouxe muito mais desvantagem para ele. Porque as pessoas comentam que ele ganhou projeção por conta da “Polêmica”, como se tivesse sido uma coisa boa para a carreira dele. Mas eu acho que foi uma faca de dois gumes, porque trouxe uma certa projeção pra ele, ao passo que ele ficou com um papel de vilão na trajetória de Noel Rosa.
Ele já tinha emplacado um ou dois sucessos antes da “Polêmica” acontecer, e o Noel já era um cartaz, porque ele já tinha bombado com o samba “Com que roupa”, em 1930.
Noel era um jovem talento. De classe média, bem aceito nos jornais, era um artista do rádio. E o Wilson era um cara mais humilde, veio de Campos, era negro, não era um cara que estava acontecendo, que estava na crista da onda.
Quem iniciou a “Polêmica”, na verdade, foi o Noel. O “Lenço no pescoço” não era um samba de provocação a ninguém. Era um samba em que ele retratou um malandro muito bem. E todos os outros sambistas da geração dele já tinham feito samba exaltando malandro, retratando malandro. Inclusive Ari Barroso, Bide e Marçal, todos os caras do Estácio, Sinhô, todos eles, né?
E as pessoas ainda falam que Wilson iniciou a “Polêmica” com Noel. Um absurdo. Noel ficou enciumado com o lance da morena, a dançarina do cabaré, e foi provocar o Wilson. Mas nada além de uma brincadeira entre compositores.

NR - Que talvez tenha ganhado uma proporção maior algum tempo depois. Na época não foi tão falado, não?
RA - Na época ficou como uma piada interna entre os músicos, os frequentadores da Praça Tiradentes, da Lapa, do Café Nice. Não teve a menor repercussão fora dali. As músicas que Wilson fez para Noel nem foram gravadas na época, nem eram pra ser gravadas. Eram piadas, brincadeiras. “Ah, vou responder o fulano”.
O negócio só ganhou forma mesmo, quando o Almirante, nos anos 50, fez a série de rádio sobre o Noel. Era o programa “No tempo de Noel Rosa”, onde ele conta a vida do Noel em capítulos. E um capítulo dessa série fala sobre a “Polêmica”. Então, o Almirante dá uma rearranjada na história, apaga a morena do Cabaré Apolo da história e diz que a motivação do Noel teria sido uma preocupação com os temas poéticos da música brasileira. Mas, na verdade, o Noel era amigo de malandro. Amigo do Baiaco, do Zé Pretinho. Na verdade, aquilo era uma galhofa com o Wilson, não uma crítica à malandragem. Mas para a nossa geração, o Wilson ficou muito associado à “Polêmica”.
Pô, um cara que tem mais de 500 músicas gravadas, um compositor cheio de sucessos, cantado pelos melhores cantores de sua geração, ficar pra gente como “o vilão da polêmica com Noel Rosa” é triste. É uma pena que muita gente só se lembre da “Polêmica”, pois ele é um dos gênios da nossa música. O próprio Paulinho da Viola, uma vez, disse em um programa de televisão: “O Wlison Baptista, pra mim, é o maior sambista brasileiro”.

NR - Voltando a falar sobre a pesquisa que fez para escrever a biografia. Você teve um contato forte com pessoas bem próximas a ele?
RA - Como eu disse, tive a sorte de poder entrevistar pessoas que conviveram bem com ele. Sua irmã, dois de seus filhos, uma ex-companheira, amigos que ele fez nas décadas de 50 e 60. Fora os matusaléns todos que ainda estavam vivos, que citei antes. E fui procurando, também, pesquisadores que já tinham um trabalho sobre o Wilson. O Luis Fernando Viera é um pesquisador que têm entrevistas feitas nos anos 70 com toda essa gente que conviveu com o Wilson e que já havia partido quando eu entrei em campo – como Erasmo Silva, Roberto Martins, Ciro de Souza, Zilda do Zé... Então, eu digitalizei e pude escutar todo esse material, que é fantástico. Luis foi super generoso.
O acervo da Biblioteca Nacional, do Museu da Imagem e do Som, do Instituto Moreira Salles, tudo isso eu vasculhei. E fui procurando as viúvas e os herdeiros dos parceiros dele, que às vezes tinham acervos. Do Ataulfo Alves, do Déo, do Erasmo Silva, do Roberto Martins, que eram grandes amigos e parceiros dele. Um quebra-cabeça, cara, que eu fui montando, e aí já imbuído desse objetivo de escrever a biografia.

Baptista na década de 50 [Arquivo O Cruzeiro]
NR - À princípio, você teve a ideia de fazer o teatro e aí veio a ideia da biografia? Como foi isso?
RA - Inicialmente, eu comecei a pesquisar sem nenhum objetivo, encantado com essa história dos personagens. Aí logo veio essa vontade de fazer a biografia. Achei que era o que eu podia deixar de mais legal, de fruto mais proveitoso, de toda essa pesquisa.

NR - E já faz pelo menos uma década que você já está pesquisando para preparar essa biografia...
RA - Exatamente. E aí, em paralelo a isso, fui encontrando parceiros que trabalham nessa área de projetos culturais e a gente foi colocando em editais algumas derivações dessa pesquisa. O espetáculo, o CD, o songbook. E acabou que essas coisas foram acontecendo antes da biografia ficar pronta. E até, nesses momentos, tive que abandonar um pouco o texto e caí dentro dos projetos, pra eles rolarem. Mas foi bacana porque me trouxe um aprofundamento ainda maior, porque escrevi o texto da peça, cantei o repertório com a Claudinha (Ventura), minha parceira no espetáculo. Então, você vai ficando cada vez mais à vontade dentro daquele universo né?

NR - E o que veio primeiro? A peça ou o CD?
RA - Primeiro veio a peça. E foi bacana porque rolou uma sincronia perfeita. A peça veio através do FATE, o Fundo de Apoio ao Teatro da prefeitura do Rio, que nos deu o patrocínio. Logo depois veio um suporte da Petrobrás para a produção do CD duplo (“O samba carioca de Wilson Baptista”, mesmo nome do espetáculo).
E aí, como a gente estava com tudo organizado, com os arranjos do Roberto Gnattali e do Nando Duarte ensaiadíssimos para a peça, pensamos: “vamos fazer um dos CDs com a trilha da peça, cantados por mim e pela Claudinha, e o outro com repertório raro, inédito, cantado por convidados como Elza Soares, Marcos Sacramento, Céu, Mart ´nália, Cristina Buarque, Rosa Passos...” Os sambas mais desconhecidos com intérpretes conhecidos e o registro da peça. Eu acho que funcionou bem, ficou bem abrangente.

NR - E esses trabalhos todos têm um projeto gráfico comum?
RA - É. Porque como essas coisas a gente faz com pouca grana, eu acabei fazendo a programação visual do CD e do espetáculo. E aí a gente vai aproveitando as ideias e criando uma certa unidade.

NR - E agora, está saindo o livro das partituras.
RA - Aí, a gente conseguiu, através de outro edital, o FAM, que é ligado a música, fazer o songbook, que acabou de ficar pronto. São 105 músicas, tem um perfil biográfico que eu escrevi, uma apresentação do Sérgio Cabral, fotos raras. É um apanhado bem abrangente da obra dele e a gente fez num formato voltado pra músico mesmo – tentamos colocar uma música por página, em um formato de fácil manuseio.
Acho que o Wilson teria o maior orgulho desse trabalho, porque ele falava muito da “bagagem” dele, do seu legado. Então, acho que de todos os projetos, este é o que ele ficaria mais feliz de ver na rua.
Eu dei uma organizada no material dele. Muitas dessas músicas nunca tinham sido editadas. Ou foram editadas só nos anos 40 e nunca mais. Então, foi muito legal.

NR - E como foi a questão da organização das partituras? Como foi o contato com as editoras, para liberação dos direitos autorais, etc?
RA - O Wilson editou em umas seis ou sete editoras diferentes. E encontrei um super parceiro nesse trabalho, que foi Fernando Vitale, da editora Irmãos Vitale. E o Wilson tinha muito samba editado na Vitale. Então, Fernando fez esse meio de campo com as editoras. A nossa parceria com a Vitale foi fundamental.

NR - E esses trabalhos te deram muita base pra aprofundar a pesquisa na biografia, não é?
RA - Eu sou músico. Toco, canto e conheço muito bem o repertório dele. Então, não sou só um cara que tá escrevendo e ouvindo, mas musicalmente não sabe justificar o que está acontecendo ali. Eu tenho formação de músico, e isso facilita. Dá um olhar um pouco diferente sobre o assunto, uma propriedade pra falar. Daí quando vou escrever um trecho que está na peça ou que saiu no encarte do CD, aquilo já está digerido, fica mais fácil.
Acho que foi um processo abençoado. Qualquer um desses produtos que tivesse saído, eu já estaria feliz de ter conseguido fazer. E a gente conseguiu fazer um “combo” de biografia, songbook, espetáculo e CD.
O Wilson era um segredo que estava ali, gritando pra aparecer. O nome dele tem uma fagulha e a parada aconteceu.

NR - Conte mais sobre o processo de pesquisa da biografia.
RA - Eu dei sorte porque tinham algumas pessoas bem interessantes vivas quando eu comecei a pesquisar. O Jorge Goulart era uma fonte maravilhosa, o Roberto Silva, o Caymmi, a Ceci. E também tive a sorte de ter acesso àquele material de entrevistas do Luis Fernando Vieira. Aí pude ter acesso a entrevistas com a maioria dos parceiros do Wilson. O próprio Luis Fernando gostava muito do Geraldo Pereira, do Wilson, e perguntava muito sobre eles para os entrevistados. Então era um material bem precioso.
Além disso, encontrei uma irmã do Wilson, a Dona Yolanda, e uma companheira dele, Alverinda. E cheguei a fazer uma entrevista bem legal com uma filha do Wilson, a Marilza, que tinha 50 anos, mais ou menos, e nunca tinha sido entrevistada. Passou um lado mais pessoal do Wilson. E também falei com um filho caçula dele, Vílson, com “V”, que era um figuraça. Foi uma entrevista muito legal, um contato bacana porque ele me ajudou muito nessas investigações nas editoras, quando eu precisava de uma entrada mais oficial da família pra saber de alguma informação. Eles dois faleceram, não chegaram a ver os projetos acontecendo. A peça eu dediquei ao Vílson, o caçula, que era o maior fã do pai. Então, eu tive essa sorte de encontrar essas figuras-chave.
Eu acho que eu consegui mapear bem a vida do Wilson. Claro que tem trechos da vida dele que são difíceis de investigar, ainda mais ele que não deixava muita pegada, não deixou grandes entrevistas, entrevistas longas. Então, realmente tem coisas que eu até intuo, mas não sei realmente o que aconteceu.

NR - E ele teve uma fase mais reclusa, né? O final da vida dele, que ele já estava afastado da vida artística. Como foi essa época?
RA - Dessa época, eu consegui encontrar bastante gente para entrevistar, porque ele era um cara muito generoso com o pessoal mais novo que ele. Então, tinha muita gente que estava começando naquela época.
Ele estava mais recluso porque estava esquecido. E também estava muito amargo, revoltado. Porque, da geração dele, todos acabaram migrando para cargos burocráticos nas sociedades de autores, compondo num ritmo menor. Wilson não. E foi ficando pra trás.
Ele foi ficando na pior, porque não era mais gravado, não era mais badalado. E passou a ter problemas de saúde, porque ele tinha o coração aumentado. Cardiomiopatia dilatada, eles chamam de “coração de boi”. Tinha falta de ar, taquicardia, náuseas. Estava sem grana, preocupado com o aluguel. Aquelas coisas do Brasil, problemas da vida prática. E aí foi ficando mais recluso.

NR - E como foram as pesquisas em arquivos, jornais, revistas e institutos?
RA - Tem uma ferramenta da Biblioteca Nacional do Rio, que eu acho que vai revolucionar a pesquisa no Brasil. Era uma coisa que eu sonhava que um dia fosse existir: a Hemeroteca Digital Brasileira. É um site da Biblioteca Nacional que tem 700 coleções de jornais e revistas. E dá pra pesquisar por palavra-chave. Antes disso, passei séculos mergulhado nos microfilmes da seção de periódicos da Biblioteca, no centro da cidade.

NR - Ele ficou estigmatizado com a pecha de malandro? Por quê?
RA - Se você for fazer uma estatística da obra dele, tem pouco samba que fala de malandragem. Na verdade, eles sobressaíram porque eram muito bons e faziam muito sucesso.

NR - E quanto ao samba “O Bonde de São Januário”, feito com Ataulfo Alves, em que ele exalta o trabalho e que ficou como um marco dessa virada na temática, antes focada na malandragem e agora na exaltação ao trabalho, por conta da pressão do DIP, do Estado Novo, de Getúlio Vargas. Como você vê isso?
RA - Isso foi uma onda que aconteceu pra todos os compositores. No carnaval de 40, aconteceu um baita festival, chamado “Noite da música popular”, com uma premiação de 50 contos para os vencedores. Foi um escândalo, porque era muita grana. Foi patrocinado pelo Estado Novo, o festival. E quem ganhou em primeiro lugar, entre os sambas, foi “Oh Seu Oscar”, de Wilson e Ataulfo. Então acho que isso gerou uma expectativa para o ano seguinte. No ano seguinte, os compositores ficaram meio que alvoroçados com esta possibilidade de ganhar uma grana com o concurso do Estado Novo.

NR - Era o concurso do carnaval?
RA - Exatamente. Eram eleitos o melhor samba e a melhor marcha. Foi o primeiro e maior festival patrocinado pelo DIP, criado alguns meses antes. Aí, acho que todo mundo ali ficou vendo a oportunidade de fazer o filme com Getúlio, de repente ganhar o concurso de carnaval. Então, todo mundo se alinhou a essa política, da exaltação do trabalho. Mas foi uma coisa curta. Isso não era uma marca do Wilson.

NR - E qual era a marca do Wilson?
RA - A originalidade do Wilson é marcante. Ele tem uma coisa muito forte com personagens. Você encontra personagens na obra de muita gente, né? Mas, na obra do Wilson, isso é levado às últimas consequências. Você tem sambas que são quase minioperetas.

Aracy de Almeida foi a que mais gravou Baptista
NR - O Cabo Laurindo foi um personagem inventado por ele?
RA - O Cabo Laurindo foi inventado pelo Noel, no samba “Triste cuíca”. Depois desse samba do Noel, vários compositores pegaram esse personagem. E o Wilson foi quem mais levou adiante essa história, com uns quatro ou cinco sambas. Tem a Etelvina, personagem que aparece em vários sambas. São muitos sambas teatrais. Ele usava os personagens várias vezes. Às vezes não com o mesmo nome, mas o mesmo “tipo”.

NR - São crônicas sociais, né?
RA - Exatamente. Outra coisa que eu acho muito forte nele: ele foi um dos primeiros a fazer samba pra mulher cantar, na primeira pessoa. Nos anos 40, fazia muito pra Aracy de Almeida, pra Odete Amaral. E são mulheres das mais libertárias. Não é feito de maneira machista. Um cacoete da época é a mulher reclamar do marido, reclamar do malandro. Então era muito comum. Mas as mulheres do Wilson eram mulheres muito à frente do tempo.

NR - Elas iam para orgia...
RA - É! Largam o marido pra pular carnaval. E aí, depois, a sandália estragava de tanto que ela sambava. Tem o samba “Boca de Siri”, em que ela narra a farra dela toda no carnaval, e depois pede pra ninguém contar para o marido. São mulheres meio “Leila Diniz”. Acho essa coisa da mulher muito forte nele também.

NR - Apesar de ter composto “Emília”, que é lembrado até hoje como um samba machista, não é mesmo?
RA - Pois é. Mas se você for ver em quantidade, ele tem muito mais samba em que a mulher é retratada com muita liberdade. Tem o samba “Chinelo velho”, em que a mulher não tá nem aí se o cara vai embora. Então isso é muito raro pra época.

NR - Ele foi um precursor nessa temática?
RA - Eu acho. Essa mulher é da geração da minha avó, a mulher não se separava. Ela ficava em casa presa ao marido e às tarefas do lar. Imagina a mulher roubar dinheiro pra pular carnaval? Depois pedir pra ninguém contar? Era muito engraçado, eu acho demais.
Outra coisa que eu acho muito interessante nele, apesar dele ser considerado o maior sambista por Paulinho da Viola e outras pessoas, ele remava contra a maré de vários clichês do samba. Por exemplo, religiosidade. Que é um tema muito caro ao samba, né? Sambas do Dorival, que falam do Senhor do Bonfim, do Ary Barroso, falando da Igreja da Penha, os padroeiros, os orixás... E o Wilson era avesso a qualquer ritual religioso, ele não tinha a menor ligação ao tema.

NR - Para a nova geração, que está descobrindo o samba e quer conhecer mais os compositores, os grandes intérpretes, por que conhecer o Wilson Baptista?
RA - Por conta dessa originalidade dele como compositor. No campo musical, ele era um compositor que tinha umas soluções de harmonia arrojadas e, ao mesmo tempo, simples, intuitivas. A geração dele, do Geraldo Pereira, trouxe uma coisa de síncope para o samba, um samba mais de bossa, despreocupado com métrica, com rima, um samba um pouquinho mais livre. Que é um samba que as pessoas dançam na gafieira e adoram, porque é cheio de síncope, é bem propício para aqueles passos. Então, musicalmente, eu acho que é um cara muito interessante.
E tudo que eu falei dessa originalidade, desse olhar. Um olhar muito livre de preconceito e livre de sentimentalismo barato. Ele era um cara que não fazia melodrama. As músicas dele têm humor, são criativas, têm originalidade.

NR - E tem questão social, também, não é?
RA - Algumas pessoas se referiam a ele como sambista “filósofo”. Ele dizia que as músicas tinham que ser fortes. Que cada música era um veículo do pensamento. Você consegue extrair das músicas dele um pensamento bacana. Por exemplo, no samba “Chico Brito”, ele afirma: “Se o homem nasceu bom e bom não se conservou, a culpa é da sociedade que o transformou”. Ele era um cara que tirava onda, botava um pensamento de Rousseau no samba.
Era um cara muito à frente do tempo. Acho que se não tivesse a censura do DIP, ele teria ido além. O samba “Lealdade”, também retrata uma relação super moderna. Vamos ficar juntos enquanto cada um gosta do outro. Se você não gostar mais de mim, sinta-se livre para ir embora. Naquela época, as relações eram super hipócritas, os casamentos infelizes se arrastavam até o fim. Ele era avançado mesmo!

Seleção de músicas para celebrar Baptista:



*André Carvalho, jornalista, mantém a coluna mensal Batucando, sobre samba. Ilustração de Kelvin Koubik, "Kino", colunista do NR, artista visual, grafiteiro e músico de Porto Alegre

terça-feira, 23 de julho de 2013

Pão com propaganda


por Ricardo Sangiovanni*

Levantou-se preguiçosamente o cidadão na manhã de domingo, e a primeira coisa que ficou sabendo é que a Vent & Lar vende ventilador de teto de acrílico por R$ 115.

E mais que a Castro Embalagens fabrica sacos para lixo em rolo; que o botox, carbocisteína ou selante capilar no centro de beleza e cosméticos Beleza Fashion sai por cem pratas; que a Reclident oferece aparelho dentário, implantes e próteses; e que Mário Soares, do consultório de nutrição, dá 30% de desconto no atendimento com bioimpedância para quem levar o anúncio recortado.

E assim o cidadão que acordou querendo só comer um pão foi obrigado a consumir, goela abaixo, a moqueca de anúncios de varejo que virou o saco de papel em que a padaria agora embala o pão nosso de cada dia.

Pois é, amigos: aqui na Bahia – e, pelo jeito, não só – saco de pão, aquele secular saco amarelo-pardo de pão, está com os dias contados: a padaria aqui perto de casa – aquela mesma de que já lhes falei certa feita - acaba de adotar as fantásticas embalagens da Pãopaganda (“sua publicidade no pão de cada dia!”), que já vai pela segunda edição, desta vez com dez mil exemplares. Dizem eles (eu duvido) que já distribuíram mais de 7 milhões de embalagens de papel nas panificadoras – com as quais (olha a sustentabilidade aí) retiraram 7 milhões de sacolas plásticas de circulação.

Sabem bem meus mais chegados que não sou homem de reagir com muito entusiasmo às maravilhas criativas da publicidade, do marketing, dessas coisas. Portanto, quem quiser discordar, pensar o contrário, abominar-me a condição de chato de uma figa e condenar-me a morrer pobre e cheio de ideologia, mais duro que pão dormido, que fique à vontade. Mas sou da seguinte opinião: acho de uma picaretagem sem tamanho essa história de vender publicidade em saco de pão.

Porque quem vende publicidade em saco de pão vende, a rigor, a alma de sua própria clientela. “Ô Freitas, aqui vêm por dia 5.000 pessoas comprar pão. Quanto você paga por isso?”, pergunta o dono da panificadora ao genial inventor das embalagens publicitosas. “Dou-lhe X por cabeça, Santos, mais as embalagens de graça, negócio fechado?”, retruca-lhe o publicitário. E arremata a padaria, de porteira fechada.

Quem vende publicidade em saco de pão nos vende sem nem nos perguntar se queremos ou não comer propaganda junto com o pão. Esses espertalhões vendem nossa paciência, nossa saúde mental, nossa paz de espírito dominical. Vendem a entrada sorrateira no sagrado espaço de nossos lares, faturam um trocado gordo e sem nos dar nem o direito de escolher, quanto menos o de pagar mais barato pelo pão – pois não seria o justo, já que a publicidade está custeando uma parte da farinha?

É tempo de unirmo-nos, amigos. Unamo-nos nós que damos duro diariamente, porque nós sabemos que ganhar o pão nos custa é muito caro para ainda termos de dar dinheiro a panificadores de segunda, a publicitários de quinta, a anunciantes de última, ao diabo que lhes carregue. Se querem que consumamos publicidade, que nos consultem, que nos paguem, ou que nos dêem um desconto no preço do pão. E mais: que paguem royalties a toda a cadeia milenar em torno do negócio do pão: aos mesopotâmios, por terem-no inventado; a Jesus Cristo, por tê-lo repartido na ceia, e ainda inventado a reza de que hoje a publicidade infame saca seus slognas chinfrins; e principalmente aos braços de quem amassa o pão, de quem o produz diariamente, às fornadas, suando naquele calor infernal há gerações.

Que seja isso ou nada, amigos. Isso ou nada.

E se for nada, não esqueçam que a LigueSite faz sites de 4 páginas por R$ 400 e entrega em três dias. Que a Porto de Biquini dá 10% de desconto e a Dryclean – que é muito mais que uma lavanderia – dá 15%, mais delivery grátis…

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

segunda-feira, 22 de julho de 2013

Afinal, quem são os Black Blocs?


por Vinícius Souza*

Para a Folha de São Paulo, os mais de dois mil manifestantes – na maior parte, jornalistas e ativistas pela democratização dos meios de comunicação – que estiveram no protesto na sede da Rede Globo em SP, no último dia 11 de julho, não somavam quinhentas pessoas. Ainda segundo o jornal, tal número seria adepto da ideia sem sentido de trazer o caos pela destruição do patrimônio público e privado, não propondo nada em troca. Para esclarecer a mídia e evitar erros como esse, convém dar algumas informações sobre os ditos “vândalos”.

Diferentemente de querer mudar o sistema pelo dano à propriedade (sempre privada e de preferência simbólica do grande capital), a tática Black Bloc pretende, entre outras coisas, dar visibilidade a lutas anti-capitalistas e anti-proibicionistas. Eles entendem que, independentemente da quantidade de gente, não adianta se manifestar pacificamente com cartazes seja qual for a causa.

No dia 8 de junho, mais de 12 mil pessoas fecharam a Avenida Paulista às 14h, percorreram a Augusta e a Consolação ocupando a Praça da República por cerca de quatro horas, com música, dança e discursos em prol da legalização da maconha. Como de praxe, nenhuma menção na TV e somente uma pequena nota interna nos jornais.

Na véspera, mais de cinco mil manifestantes pelo Passe Livre haviam sido reprimidos com gás lacrimogêneo na Marginal Pinheiros e perto de 500 conseguiram chegar ao vão do Masp, após negociarem com a PM. Essa dispersão pacífica na Paulista, sem incidentes, teve pouca repercussão.

Porém, nos três dias consecutivos de passeatas, apenas a destruição de vidros de estações do Metrô e fachadas de lojas, no dia 6, conquistaram manchetes. E quanto mais a polícia batia, mais gente se juntava no protesto seguinte, até o massacre de ativistas e jornalistas na noite de 13 de junho, que levou a mídia a mudar de posição, promover as manifestações “cívicas” e levantar bandeiras contra a corrupção, a PEC 37, a vinda de médicos estrangeiros, o Governo Federal etc.

De repente, os mascarados atacando a sede da Prefeitura, os vitrais do Theatro Municipal, saqueando lojas e ateando fogo em prédios ocupados por Movimentos de Sem Teto, não se vestem mais exclusivamente de preto e vermelho e nem trazem estandartes negros. Os skates e cabelos moicanos, tão comuns entre os Black Blocs, também desaparecem, dando lugar a cabeças raspadas, músculos definidos e, por vezes, roupas e relógios caros. Ainda há o grafiti (ou picho), mas não mais só de mensagens anarquistas e reivindicações pela tarifa zero. No lugar, palavrões e xingamentos contra o governo.

Só por má vontade ou desconhecimento da história recente das lutas mundiais é possível dizer que todos (e mais os ativistas contra os monopólios midiáticos) fazem parte do mesmo grupo.

Para quem não sabe, os Black Blocs apareceram pela primeira vez nos protestos anti-capitalistas do final do século passado nos encontros dos países ricos em Seattle, nos Estados Unidos, e Gênova, na Itália, com os principais embates contra a polícia, onde houve inclusive mortes entre os manifestantes. Eles reapareceram com força nos EUA, no Occupy Wall Street e, no Brasil, nas marchas anti-proibicionistas de 2010 e 2011.

A ação de pichação e, às vezes, destruição de filiais de grandes redes transnacionais, como McDonalds e Starbucks, além de agências bancárias, visa o ataque a símbolos de um sistema financeiro internacional que oprime populações em todo o mundo. De inspiração anarcopunk, amam as liberdades individuais, o faça-você-mesmo e as músicas pesadas. Compreendem a necessidade atual de um Estado que garanta os direitos e distribua as riquezas entre os mais pobres. O socialismo antes do anarquismo. Mas não são “patrióticos”, abominando associações a símbolos nacionais, como bandeira e o hino. Conectam-se por redes, coletivos e pequenos grupos, sem lideranças. Curiosamente, nenhum dos detidos por depredação de patrimônio se declarou Black Bloc.

*Texto e foto Vinícius Souza, jornalista do MediaQuatro, especial para o NR.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Incomode-se


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Há um incômodo novo me atazanando o juízo. Se estou lendo, dirigindo, cozinhando ou acordada no meio da noite, ela me aparece e demora para ir embora. Desde que tomei conhecimento do assunto, tem sido assim. Por qualquer coisa, Belén me vem à cabeça. A menina chilena de onze anos, que está grávida do padrasto, por quem foi seguidamente abusada, com a conivência de sua mãe. O aborto é radicalmente proibido lá, em qualquer circunstância. Portanto, apesar de algumas tentativas de argumentar que a gestação põe em risco a vida de Belén (ela tem onze anos!), e que caíram no vazio legal e na indiferença do Estado, ela terá o bebê. Ponto final. Belén que se dane.

São tantos elementos de hipocrisia, crueldade e cinismo, que fico imaginando a sensação de impotência e a frustração das várias pessoas sensatas e solidárias que, em diferentes níveis, tentaram interferir em favor da menina. A tragédia de Belén é completa, profunda e irreparável.

Não quero alimentar este incômodo, nem me ocupar de domá-lo até que se dissolva. Ele só me terá alguma serventia se puder contaminar você. E a hora é agora. Aqui no Brasil, os novos e velhos arautos da hipocrisia estão tentando se aproveitar de uma conjuntura aparentemente favorável para fazer aprovar uma nova legislação, que jogará o aborto na ilegalidade total, além de promover vários outros absurdos sobre o estupro e os direitos das mulheres. Incríveis absurdos, pelo que representam de obscurantismo e ignorância – sem falar do cinismo, onipresente quando se trata dos temas relacionados à sexualidade.

Conheço bem os argumentos de quem defende a manutenção de qualquer gestação em qualquer circunstância, quase todos de natureza religiosa. Não me cabe questionar crenças ou convicções, mas não posso deixar de observar que tais argumentos deliberadamente prescindem de dois elementos a meu ver essenciais para a defesa daquilo que entendemos como civilização humana: o respeito ao direito de decisão sobre temas de foro íntimo e a compaixão.

Incomode-se junto comigo e contamine. Precisamos mas é de andar para a frente, não para trás. O retrocesso não vai salvar nada nem ninguém. Quem diz que vai sabe que está mentindo.

Enquanto eu pensava e escrevia esse texto, nasceram, na mesma semana, os dois bebês que eu já havia mencionado aqui. Desejados, esperados e recebidos como celebrações da vida. A chegada deles só reforça ainda mais tudo o que eu disse acima.

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 18 de julho de 2013

Não existe amor em 3D


por Tomás Chiaverini*

Domingo passado fui assistir ao Homem de Aço. Cento e quarenta minutos de explosões, prédios desabando, destroços e rajadas de energia saltando sobre a plateia mastigadora de pipoca ensebada. Saí do cinema zonzo, cabeça doendo, com a nítida impressão de que, se continuar por esse rumo, o tão amado 3D vai acabar de vez com o cinema.

Meu primeiro contato com o Super-Homem foi numa telinha de 14 polegadas. Sessão da Tarde: Superman II – A Aventura Continua. Deve ter sido no final da década de 1980, eu estava então com meus sete ou oito anos.

Lembro que a coisa ia bem até que o Super-Homem, completamente apaixonado por Louis Lane resolve abrir mão dos poderes. Para amar uma mortal é obrigado a tornar-se mortal também. Entra num esquife de gelo que mantém na Fortaleza da Solidão (seu esconderijo no Polo Norte) e sai de lá um homem comum. Que ideia...

Na volta para Metrópolis, provavelmente em algum lugar próximo ao Alasca, o casal, agora obrigado a viajar de carro, para numa lanchonete de beira de estrada. Um valentão se mete a besta com Louis, Clark vai protegê-la e acaba vergonhosamente espancado. Apanha feio, sangra, é humilhado em público e diante da mulher que ama.

Aquilo foi demais pra mim. Saí correndo da sala aos prantos e me tranquei no banheiro, inconformado com a sova que os roteiristas tiveram coragem de aplicar no pobre do Super-Homem. Só concordei em ver o resto do filme depois que meu pai, gritando do outro lado da porta, garantiu que Kal-El voltaria a voar, ver através das coisas e derreter revólveres com sua visão de calor.

Outro dia vi esse filme de novo. Não é dos melhores. Mas a surra na parada de caminhoneiros é realmente muito forte. Christopher Reeve era um homenzarrão enorme e delicado, com uns olhos azuis que exalavam bondade e autoconfiança. Quando seu Super Homem levanta do chão, amparado por Louis, vendo o próprio sangue pela primeira vez, é como uma criança descobrindo toda a dor e perversidade do mundo.

No fim do filme, claro que Clark volta à mesma biboca, dá uns sopapos no valentão e aquilo nos enche de felicidade, e lá está a catarse que tantos espectadores fascinou ao longo dos séculos. E é isso que os roteiristas do 3D (e do cinema de ação em geral) estão perdendo. É impossível ter duas horas e meia de catarse.

General Zod derrubando um prédio com a cabeça do Super Homem é impactante. Dois prédios, ok. No terceiro prédio a gente já não aguenta mais, já ficou claro que aquilo vai longe e que não está surtindo efeito, e daí pra frente o barulho das explosões em Surround 5.1 só serve pra machucar os ouvidos.

Um exagero que talvez seja reflexo do nosso tempo. Precisamos de mais, cada vez mais. Mais dinheiro, mais carros, mais comida, mais bebida, mais mulheres, consumir e consumir, e mais efeitos especiais, mais explosões, mais vida, viver e viver para esquecer a morte.

A publicidade está o tempo todo lá, nos dizendo que tem de ser tudo agora, e muito, e rápido, porque a vida passa. E no Facebook, aquelas pessoas todas, todas lindas se fotografando com os beicinhos mais incríveis, e vivendo tanto, viajando, comendo e namorando, enquanto a você só resta um cineminha besta. Então se for cinema, tem de ser uma experiência, e se vai ter explosão tem de ser a explosão mais incrível da história.

E no meio de tudo isso as coisas delicadas – o olhar tão humano de Clark Kent depois da primeira surra – acabam se perdendo. Pode ser. Ou pode ser apenas que eu esteja velho demais para assistir a filmes de super-herói.

*Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha. 
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