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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

A violência policial o cegou

Foto: Filipe Granado
por Moriti Neto e Robson Morais*

O clima na noite de quinta-feira, 13 de junho deste ano, como todos viram, foi quente para o fotógrafo Sérgio Silva, 31 anos. A trabalho pela agência Futura Press, Silva foi um dos milhares de brasileiros que captou a energia do “vem pra rua”, instalada no País nas chamadas “jornadas de junho”. E foi no meio da multidão, em São Paulo, enquanto trabalhava no protesto contra o aumento da tarifa de transporte coletivo, que o disparo de uma bala de borracha da Polícia Militar o feriu e cegou. Um professor o socorreu até o Hospital Nove de Julho.

O fotógrafo foi atingido no olho esquerdo pelo tiro da chamada “munição não letal”, na altura da rua da Consolação, na área central da cidade. “Ainda é difícil de olhar no espelho. Tem dias que acordo sem o tampão. A visão ainda choca. O abalo psicológico também foi grande”, explicou à reportagem do Nota de Rodapé, no último dia 12 de agosto, quando palestrou na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) sobre os riscos da cobertura jornalística.

No local da palestra, em destaque, um cartaz com a sua foto e o slogan: “Fotógrafo Sérgio Silva, vítima do Estado”. Sobre a falta de segurança para os profissionais e os manifestantes, ele disse que nada do que a polícia “fizer ou disser daqui para frente vai justificar ou amenizar” o que aconteceu. “A educação tem que partir da polícia. Eles são o exemplo, são pagos para isso. E não o contrário”.

Silva garante que, nos primeiros dias de cobertura, sentiu o clima ruim e uma certa predisposição da PM à truculência. “Fui para a rua com um pressentimento e sabia que a PM seria truculenta. Apontei a câmera para ela, para mostrar essa truculência. Ponto”. Ele acredita que “não importa” estar atrás de um cordão policial, que a PM vai continuar “atirando” e que casos como o dele “vão continuar ocorrendo.”

A reflexão do fotógrafo também tratou do receio de repórteres e jornalistas na cobertura de pautas em comunidades da periferia, locais onde as “balas são de verdade” e a “violência policial diária.” Nessas horas, “jornalista precisa ter coragem”, disse.

“Não tenho isenção”

Quanto ao mito da imparcialidade no jornalismo e o que leva os veículos da grande mídia a publicar ou não um fato, o fotógrafo explica que não tem isenção. “Faço meu trabalho e produzo sobre aquilo que penso. Se o veículo onde vou trabalhar não publicar, o problema não é meu”.

Silva não ignora que o jornalismo é cada dia mais digital, com processos de produção de conteúdo estimulando a participação de mais pessoas nas abordagens. “Cada um pode ser repórter do próprio cotidiano. Agentes comunitários e moradores de comunidades podem pautar a mídia. Os jornalistas vão ter que, cada vez mais, se especializar”.

O fenômeno da Mídia Ninja, por exemplo, junta pessoas que vão à rua com uma câmera ligada para fazer desde cobertura até ativismo. “Há repórteres que estão a trabalho e pessoas que não estão. O que será produzido parte da visão do produtor. Ninja caminha nesta direção. Não consigo ver, porém, se a grande imprensa vai entender direito isso ou que rumos os Ninjas vão tomar”, opina.

Luta por direitos

Sérgio, que já tem advogado, ainda não abriu processo contra o Estado. Eles aguardam os laudos sobre a perda da visão e outros resultados médicos, que serão incluídos na ação.

Silva optou em não usar os advogados da agência em que trabalhava. Nem as despesas do hospital que fez o primeiro atendimento, cerca de 3 mil reais, ele aceitou que pagassem. “Vou pôr na conta do Governo do Estado”. Além disso, ele está à frente de uma petição pública com o tema “Não à utilização de armas letais nas manifestações”. O documento está disponível no site www.change.org.

O coletivo Menos Letais fez uma entrevista em vídeo com o fotógrafo, que você pode assistir no link disponível no youtube.

*Moriti Neto, jornalista e colunista do NR. Robson Morais, jornalista, especial para o NR. [Foto cedida por Filipe Granado]

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Há que se ser grave

por Ricardo Sangiovanni*

É sábado de manhã e faz sol, estou de saída para um caruru, hoje estava só na intenção de contar aqui, rapidinho, o caso das meninas que semana passada fugiram de minha aula chata para ir tomar café e imaginar Gramado, a linda e cordial, a bucólica e pacífica e feliz Gramado do Rio Grande do Sul que não conheço.

Mas não, porque há que se ser grave na vida quando nem bem uma semana faz que mataram com um tiro na cabeça uma colega de trabalho, e atiraram seu corpo no asfalto imundo em troca de um carro, de trinta dinheiros, de sei lá o quê de rico e desimportante aqui, tão longe de Gramado, nesta Cidade da Bahia.

Há que se ser grave, amigos, com ternura que seja, mas há que se ser grave, porque não há válvula de escape, não há leveza pura, não há risada burra, não há recortar-se do mundo que valha se depois o sujeito tiver de voltar e enfrentar de novo o mesmo mundo, o mesmo ou até piorado mundo, quando acordar segunda-feira.br

Há que se ser grave diante da brutalidade, da expressão aparentemente pura e banal da maldade perpetrada por um, por dois bandidos de meia tigela, que não sabem por que mataram, mataram simplesmente porque mataram, incapazes que foram de tomar outra decisão para cumprir sua missão bandida daquela noite.

Há que se ser grave quando se sabe que não foi o primeiro nem será o último crime de semelhante natureza nesta cidade, neste país; quando se sabe que não-sei-quantos mil crimes bárbaros nunca foram nem serão suficientes para despertar uma reflexão sincera, severamente auto-crítica, sobre o porquê de haver gente no Brasil assim, ruim, cruel, incapaz de pensar, antes de puxar o gatilho, na barbaridade do ato que está prestes a cometer.

Há, amigos, que se ser grave, diante de nossa incapacidade de compreender que o ódio que em nós desperta a figura daqueles dois pobre diabos é absolutamente normal, legítimo, humano – e, provavelmente, os defina mesmo. Mas mais graves ainda é necessário sermos para ponderarmos que tal sentimento não nos autoriza, enquanto indivíduos, enquanto sociedade, a fazer nenhuma leitura apressada, que repute simplesmente à “crueldade”, à “banalidade”, ao “mal” puro e simples e exterior a nós, “probos”, o homicídio daquela noite.

Há que se ser grave, em contrapartida, também diante da armadilha da culpa cristã: será que somos todos igualmente responsáveis, na soma e média aritmética de nossos atos individuais, por vivermos em uma sociedade capaz de semelhantes atrocidades? Sim, mas também não. Sim porque, de fato, reproduzimos e praticamos diariamente a exclusão de quem nos é exterior, de quem nos parece dessemelhante, e assim contribuímos para que a alguns seja dada a condição de homens, a outros, a de feras. Mas veementemente não, se a partir daí pretendermos acreditar poder banir o mal do mundo à base de pequenos, de individuais, de homeopáticos gestos de cordialidade, respeito, de caridade, de alguma forma elitista de bondade quiçá.

Há que se ser grave para tentar entender a natureza da “crueldade”, da “banalidade”, do “mal” que cada vez mais, no Brasil, se nos apresenta como “puro e simples”, entendê-lo no que nele houver de mais humano, para talvez, com sorte, descobrir e assumir a parcela de responsabilidade por ele que couber a cada fração de nossa sociedade. Nesse sentido, inspirado pelo ótimo filme sobre Hannah Arendt que assisti ontem – e recordando o pouco de seu trabalho que já li – palpito, mal comparando, que é preciso abandonarmos radicalmente a hipocrisia que nos leva a, feito escritores de maus folhetins, colocarmo-nos a nós mesmos no cômodo lugar de “vítimas”, e a partir de tal sentirmo-nos autorizados a exigir medidas, respostas, punições – da Polícia, do Governo, dos Céus enfim. Há mais é que se escrutinar, tenaz e continuamente, sem auto-complacência, a brutalidade à qual acreditamos estar meramente “expostos”. Porque se dois seres humanos são capazes de puxar um gatilho de revólver diante da cabeça de uma pessoa qualquer em nome de qualquer coisa que lhes pareça ser uma “missão maior” (ainda que tal não seja o complexo nazismo, mas “só roubar e escapar”), é sinal, amigos, de que algo de muito pernicioso há na sociedade, na cultura em que eles (nós) vivem(os) e se (nos) formam(os). Nada disso atenua a monstruosidade deles hoje, nem do crime que cometeram, mas é isso ou acreditar, simplesmente, que se trata de um par de feras, de erros da espécie, de “não-seres humanos”.

Enfim, há que se ser grave, ou então passar a vida sendo obrigados a dar uma fugidinha de vez em quando, para tomar café e ser feliz, lá longe, na distante, na imaginária Gramado de nossos sonhos.

*Ricardo Sangiovanni, jornalista, coordena o blog O Purgatório e mantém no NR a coluna Mistério do Planeta. Escreve de Salvador.

domingo, 18 de agosto de 2013

10 anos de autonomia Zapatista

por Aleksander Aguilar*

Poucos questionaram o direito deles à indignação. A pobreza na região chegava a quase 60% da população, nas comunidades rurais cerca de 20% das crianças morriam antes de completarem cinco anos de idade e a maioria das famílias não tinha acesso a saúde básica e educação enquanto uma pequena elite controlava as terras agricultáveis em condições semi-feudais.

Nesse contexto, no primeiro dia de 1994 cerca de três mil indígenas, precariamente armados, deram inicio a uma rebelião e tomaram seis cidades em Chiapas, o estado mais ao sul do México. Nos dias seguintes, quase 100 mil pessoas marcharam na capital, Ciudad de Mexico, gritando “¡Somos todos zapatistas”!

[Foto: Moysés Zúñiga Santiago]
Eles fizeram a data da rebelião coincidir com a implementação do NAFTA, o Acordo de Livre Comércio da América do Norte, entre Canadá, Estados Unidos e México, chamado pelos Zapatistas de “uma sentença de morte”. A estridente oposição ao NAFTA deu aos rebeldes o apoio de organizações da sociedade civil, sindicatos e movimentos sociais de diversas partes do mundo.

São quase 20 anos desde que as marchas por terra e liberdade dos Zapatistas tomaram as montanhas de Chiapas, numa luta de um povo indígena longamente negligenciado na região. São dez anos, desde 2003, de construção de autonomia Zapatista, “sem pedir a permissão de ninguém”, quando os rebeldes cansaram do diálogo surdo com as autoridades mexicanas e abandonaram a política de demandas, e com isso todo o contato com o Estado. No lugar disso, eles preferiram concentrar-se na construção de formas horizontais de auto-governo dentro dos seus próprios territórios e com seus próprios meios, los Caracoles.

Esses dez anos de atividades emancipatórias do projeto Zapatista, que não ignoram o peso das críticas que tem recebido com essa experiência, foram celebrados neste mês de agosto na Escuelita para la Libertad según los Zapatista, em Chiapas.

ESCOLA PARA A LIBERDADE

No dia 9 de agosto de 2003, os Zapatistas anunciaram o nascimento dos seus Caracóis, em número de cinco, cada um com sua própria Junta de Buen Gobierno (JBG) e tendo, assim, responsabilidade pela sua própria Zona Municipal Rebelde de Autonomia Zapatista, que ao total englobam quase 100 mil pessoas. Cada Caracol possui seu próprio posto de saúde autônomo, escola primaria e secundária e envolve-se em pelo menos um dos cinco grandes projetos Zapatistas: saúde, educação, agroecologia, política, e tecnologia da informação.

No ano que a rebelião iniciou, em 1994, o jornal New York Times denominou-a como a “primeira revolução pós-moderna latino-americana”. Muito dessa ideia era marcada pela sua maneira de falar, particularmente nas palavras do rosto-público-fumando-cachimbo da organização, Subcomandante Marcos, que expressava uma postura nova e entusiasta para um grupo insurgente. Diferentemente dos marxistas revolucionários que os precederam, os Zapatistas não falavam com imposições e determinismos, suas mensagens eram mais poesia do que bravatas. Eles apresentavam uma imensa imaginação política e usam desde o inicio da rebelião a internet e as novas tecnologias da comunicação com satisfatório êxito.

Mas desde La Sexta Declaración de la Selva Lacandona, em junho de 2005 (La Sexta), e do começo da La otra campaña, em janeiro de 2006, os Zapatistas estiveram afastados da mídia, numa, denominada pela imprensa, “tática do silêncio” e interpretada por muitos como um enfraquecimento dos rebeldes. Ainda há muita pobreza nas comunidades zapatistas. No entanto, há também conquistas materiais, tangíveis, e não apenas avanços em dignidade e conceitos abstratos.

Os cerca de 1500 ativistas convidados para visitar Chiapas observaram o que foi dedicado neste tempo de distancia dos holofotes. Estudaram e receberam aulas dos próprios indígenas Zapatistas, de três equipes de professores e professoras que contaram com material didático, quatro livros e dois dvd´s, sobre Governo autônomo, participação de mulheres e liberdade, sobre sua experiência com autonomia. Os estudantes foram hospedados pelas próprias famílias nas suas terras e casas para aprenderem como é ser membro de uma base de apoio Zapatista.

Por quê tudo isso?

“¿Será porque acaso intuyen, saben, conocen, que la luz no viene de arriba, sino que nace y se crece desde abajo? ¿Que no es producto de un líder, jefe, caudillo, sabio, sino del común de la gente? ¿Será que en sus cuentas lo grande empieza pequeño y lo que sacude al mundo cada tanto, inicia con apenas un murmullo, quedo, bajo, casi imperceptible? O tal vez imaginan cómo es el estruendo de un mundo cuando se desmorona. Tal vez saben que los mundos nuevos se nacen con los más pequeños.”

Algumas críticas ao Zapatismo consideram os rebeldes uma força desgastada, com grande retórica, mas pequena capacidade, incapaz de projetar-se para alem de suas bases rurais: “O exemplo Zapatista não pode ser seguido em todos os lugares, nós não vivemos nas selvas de Chiapas para criar exércitos rebeldes e comunidades autônomas”. A resposta, porém, é simples: os Zapatistas nunca se projetaram como o modelo a ser copiado. Eles construíram um mundo no qual eles realizaram sua própria visão de liberdade e autonomia, e continuam lutando por um mundo onde outros mundos sejam possíveis, e na celebração de suas experiências convidam o mundo para vê-las.

*Aleksander Aguilar é jornalista, doutorando em Ciência Política e Relações Internacionais, candidato a escritor, e viajante à Ítaca, especial para o Nota de Rodapé

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Caçula


por Júnia Puglia ilustração Fernando Vianna*

Custo a acreditar, mas é isso mesmo. Meu irmão caçula está fazendo cinquenta anos.

Fui ao hospital conhecê-lo, com a minha irmã menor, nós duas em roupas de domingo, levadas pela nossa avó. Era grande a expectativa, pois eu havia desejado muito que o novo irmão fosse um menino. Entrei no quarto com o coração aos pulos. Minha mãe pareceu feliz de nos ver, o meu pai também estava lá, tudo bem esquisito. Ao lado da cama, um pequeno berço com um embrulho dentro.

Cheguei perto e olhei. Lá dentro, dormia uma criatura muito miúda, vermelha, enrugada e enrolada em muitos panos. Nada a ver com a minha fantasia do bebê rosado e sorridente como os que eu via pelo bairro, e que completei com os cabelos louros e olhos azuis das fotos das revistas. O impacto foi tremendo. Por mim, ele teria ficado no hospital. Como ninguém me perguntou nada, ele foi levado pra casa no dia seguinte. Eu, muito ressabiada, fui me aproximando aos poucos, enquanto ele se transformava no bebê encantador. Ficamos amigos. E agora se dá o desfrute de chegar aos cinquenta anos, minguando minhas últimas reservas de juventude. A do calendário, convém esclarecer. Pelos documentos, hoje sou, definitivamente, uma senhora de respeito. Ou um caso perdido.

Nesse meio-tempo, as décadas se empilharam, com pacotes completos, incluindo meus próprios bebês. No momento, o destaque é a multiplicação de recém-nascidos à minha volta, pelo menos seis, fora uma encomenda de gêmeos. Deve ser por conta de algum hormônio novo na carne de frango, oposto àquele que produz gays. Essa criançada multicolorida está chegando num momento muito louco, em que a internet joga uma pá de cal sobre o nosso jeito de conhecer e digerir o mundo.

Não há nada mais natural do que gente nascendo, morrendo, envelhecendo, indo pra escola, trabalhando, enfim, reciclando a vida. A novidade é uma revalorização do parto normal, que agora leva o sobrenome “humanizado”. Havia quase desaparecido na nossa classe média dos planos de saúde, por causa de um desses desvios muito estranhos que ocupam o lugar dos processos aperfeiçoados pela natureza ao longo de dezenas de milênios. Menos mal que o método de fazer filhos ainda não tenha sido substituído. Os meios programados e assépticos são exceções complementares, aliás, muito bem-vindas. Mas já pensou se viram regra? “Querido casal, a doutora fulana está de férias na Turquia; portanto, o fazimento de crianças de pele morena e olhos azuis está suspenso e será retomado em três semanas.” Valhamedeus.

Tudo conversa fiada. Mas o irmão caçula completar cinquenta anos é demais, né não?

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 15 de agosto de 2013

Quem escreve o Brasil?


por Fernanda Pompeu ilustração Fernando Carvall*

Não sou especialista em nada. Sou uma Pena de Aluguel. Passei os últimos trinta anos escrevendo roteiros, spots, slogans, textos para clientes variados. Aprendi a me apaixonar pela paixão dos outros.

Assim, já morri de amores por uma fábrica de parafusos, pontes estaiadas, bolos para festas, estatuto da criança e do adolescente, autoescola, biblioteca comunitária, casa de tintas, clube de campo, direitos humanos.

Também, é claro, escrevo crônicas dos meus temas. São as melhores de fazer, pois nelas tenho passe livre para escrevinhar o que penso e sinto. É o que hoje rabisco na coluna Mente Aberta do Yahoo e aqui neste delicioso Nota de Rodapé.

Mas mesmo não sendo doutora em nenhuma disciplina das humanas, quero dar alguns pitacos acerca do que andamos vivendo no mundo dos jornalistas e autores. Mundo em crise, acho que ninguém duvida.

O que eu mais vejo no meu Face são postagens, muitas delas desesperadas, alertando para a morte do jornalista profissional. Notícias de desrespeito social, demissões em massa, baixos salários, baixa autoestima.

No entanto, creio que não é a bonita, histórica, indispensável profissão de jornalista que está na UTI. Quem está terminal são os grandes veículos impressos de massa. Eles vão para a agonia por falência múltipla de visão.

Olha que não estou falando de modelo de negócio - esse papo não é de jornalista, é de dono de jornal. Estou falando de novos modelos de noticiar e ler notícias. Novos jeitos criados nas redes sociais e ignorados na maioria das redações.

Muitos seguem acreditando que o mundo é o mesmo do ano passado. Mas não é. Ele não é o mesmo nem da manhã de hoje. Pois tudo vai muito rápido. Corre na velocidade do curtir, comentar, compartilhar.

Mas a velocidade é uma das características da transformação. Existe outra mais acachapante: os leitores mudaram! São mais críticos e mais voláteis. Eles não cabem mais nas caixinhas de destinatários, público-alvo, consumidores.

Também são leitores sedentos de experiências e informações. Estão o tempo todo ligados. Usando seus notebooks, tablets, smartphones. Por ser tremenda a abundância de fontes e informações, são eles que escolhem o que, porque e quem ler.

Me parece que nesse ambiente, jornalistas e escribas em geral vão ter a oportunidade de florescer. Mais ainda, a oportunidade de brilhar com a matéria-prima do jornalismo - que faz algum tempo estava no limbo. Isto é, apuração correta e bom texto.

Não haverá mais a comodidade da mídia única. Nem o cargo, nem o título, nem o espaço da página, nem o compadrio darão ao jornalista a primazia de ser lido. Todo mundo vai ter que suar a caneta para conquistar o novo leitor.

*fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Fernando Carvall, especial para o texto.
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