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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 25 de março de 2009

Sorriso inesquecível

Era 01 de abril de 2008. Bairro de Higienópolis, São Paulo. Lá encontrei para um bate-papo o jornalista Juca Kfouri.

A missão: falar de Sérgio de Souza, nosso Serjão, uma semana exata após seu falecimento. Conversa cercada de emoção. Aqui, alguns trechos do que virou matéria no especial Sérgio de Souza, da revista Caros Amigos do ano passado.

Juca conheceu o Serjão em 1977, tinha 27 anos. Ao encontrá-lo para um jantar, já sabia da importância daquele homem de 43 anos e sorriso inesquecível. “Houve uma química imediata", disse.


Saiba mais:



Os filhos da gente entenderão tudo
Ao longo de quase 30 anos de amizade trabalharam na TV Tupi, em 1978, no programa Nossa Copa, em 1982 e na revista Placar, em 1984. Na Tupi, quase falida, início do governo Ernesto Geisel, Sérgio é convidado para ser o Diretor de Jornalismo. Juca está na editora Abril, era chefe de reportagem da revista Placar. Telefone toca:

- Juca, vem aqui pra comemorar com Whisky.

“Eu fui tomar um Whisky. Ele era simples, uma pessoa que não ligava pra dinheiro, muito despojado, a tal ponto que você sabia se as coisas estavam bem com ele quando tinha Whisky em casa. Era raro!”

- Juca, quero que você seja meu diretor de esportes...

“Eu falei, ‘como? Porque eu?´”

- Juca, jornalista pra mim tem que ter duas qualidades e pra mim você tem as duas: caráter e talento.
“E eu fui sem nunca ter feito televisão na vida”.

Três meses depois, sem pagamento, em condições precárias de trabalho, pediram as contas. “Não tinha redação. Foi divertido, fizemos coisas do arco da velha, na base da guerrilha”. Nos fechamentos que varavam as madrugadas, diante dos filhos e mulheres em casa, o país num momento político complicado, Juca ouviu do amigo.

- Os filhos da gente mais tarde entenderão tudo.

“Lembrei dessa frase agora ao ver todos com um imenso carinho diante da morte do pai.”

Sensibilidade em estado puro
“Ele nunca se impôs hierarquicamente, sempre se impôs pela inteligência, competência, criatividade e pela capacidade que tinha de melhorar as coisas que você fazia. Ele te alertava para um detalhezinho que fazia toda a diferença. Trabalhei como chefe dele na Placar mas nunca fui chefe, como é que se chefiava o Serjão? Deixei a revista com ele.

Duas ou três vezes entrou na minha sala para me criticar, nunca me esqueço de uma vez, o jovem Gui (Guilherme Cunha Pinto, também jornalista) entrou e disse: 'Acho que nisso aqui você exagerou´. Eu tinha elogiado a democracia corintiana. Falei: ´Não, deixa assim porque a guerra está feia, é proposital.´ Aí veio o Serjão: ´Juca, você falou com o Gui? Ele tem razão, isso aqui está exagerado’ Respondo: ´acho que é melhor deixar assim.´ ´Juca, mas tanto o Gui como eu achamos que não e você acha que deve manter?´ ´Sim, Serjão, deve manter, eu quero que mantenha!´ Aí ele soltou, ironicamente: ´Le Magazine c´est moi´ (´a revista sou eu´, como o monarca Luiz XIV um dia disse L´État c´est moi, que quer dizer, ‘O estado sou eu)´

Ou seja, demarcou a posição. Ele era capaz até de se distanciar de alguém sem que isso significasse mudança de avaliação positiva que fazia da pessoa. Não é aquele coisa maniqueísta de ‘ou está comigo ou está contra mim.’ O Serjão é a sensibilidade em estado puro, sempre foi.”

Um artesão do jornalismo
“Serjão tinha a absurda capacidade de ouvir. E a incrível facilidade de decidir o que vai ser feito ou não vai ser feito sem que aparentemente a decisão fosse dele. A impressão que me dá do Serjão é de um artesão do jornalismo, a coisa do lápis preto que sempre me impressionou muito. Cirúrgico.

Se o Serjão fosse escritor, o Serjão seria o Graciliano Ramos. Que os críticos em regra dizem ser o escritor seco, de poucos adjetivos. Mas se você for ler o Graciliano Ramos sem preconceito nenhum você verá que de seco não tem nada. Que ele é extremamente poético na dureza do sertanejo. Alguém disse que o Serjão era que nem abelha, as palavras dele tinham ferrão e mel”.

Ruptura com elegância
“Quando ele dirigiu o jornalismo do Fantástico (em 1981) em São Paulo, quando pediu demissão, virou para um repórter do qual não gostava e disse: ´eu estou indo embora, mas quero que você saiba que eu tenho absoluta percepção de que você é uma figura deletéria´. Você ser chamado de deletério? É pior que canalha! Quer dizer, uma palavra usada na sua precisão absoluta, mais doloroso do que isso impossível.”

Lições de jornalismo e solidariedade
“Eu não me lembro de ter visto ele perder a paciência na vida. Era de uma solidariedade irrestrita e silenciosa. Em 1984, fizemos uma matéria denunciando o doping do jogador Mário Sérgio, que estava no Palmeiras. A matéria envolveu muita gente da Placar. Sexta-feira de madrugada e decidimos que não íamos assinar a matéria.

Seria uma matéria da Placar, o diretor-responsável falou que não, a matéria tinha que ser assinada se não ia no rabo dele e ele não queria. Discute daqui, discute dali, de madrugada não tínhamos nem como acionar a direção da Abril para resolver. O Serjão vira e diz, ´assinemos assim, Juca Kfouri com Sérgio de Souza´ e mais trinta nomes. Aquilo causou um estupor dentro da Abril, uma matéria assinada por 30 pessoas. Quem poderia ser responsável pela matéria? A matéria gerou um ódio da torcida do Palmeiras contra mim. O Serjão soube que numa ida à Campinas, na volta, num posto, fui cercado por torcedores do Palmeiras e no domingo seguinte tinha um Palmeiras e Portuguesa no Pacaembu e eu comentaria pelo SBT.

Nos despedimos e ele: ‘no domingo que horas você vai pro jogo?’ Falei: ‘o carro do SBT deve passar em casa umas 14h 30, por que?’ ‘Não, só pra saber.’ Estou saindo da casa dos meus pais no domingo e estava lá o Serjão encostado no carro. ‘Que que é, Serjão?’ ‘Ah, vou com você.’ Foi para o Pacaembu comigo, a torcida do Palmeiras, na hora que entrei na cabine se virou gritando ‘Juca Kfouri filho...´ E o Serjão e outro amigo, Roberto Manera, na porta da cabine durante o jogo inteiro, puta leão de chácara, segurança, para o que desse e viesse. Outro episódio na Tupi: fizemos uma matéria achando que era do cacete, contando que depois que o Brasil voltasse da Copa da Argentina (1978) qual seria o destino de cada um dos jogadores e que o Rivelino iria para o futebol árabe. Ninguém botava fé e aconteceu. A matéria terminava: ´quem viver, verá!´ O Serjão deixou a gente a vontade pra fazer, só foi ver no jornal da Tupi, no ar.

E ele: ´Pô, mas ele vai mesmo? Vocês vão se danar se não for.´ Quando aparece o trecho ´quem viver, verá!´ Eu e o outro repórter, orgulhosíssimos, e ele: ´estava indo tão bem, precisava desse fecho? Isso é prova de que nem vocês acreditam na informação. Ela por si só é suficientemente forte sem que vocês precisem provocar ninguém, desafiar ninguém.´ Ele tinha toda razão. Não era preciso soltar rojão. É esse o Serjão, essa sensibilidade, é o cara da sintonia fina permanente.

Alegria de viver
Tirar o Serjão de casa nos últimos anos – ainda mais para uma viagem internacional – não era tarefa fácil. Final dos anos 90, depois de inúmeras combinações, enfim o destino planejado, Buenos Aires. Juca conta que o início da viagem foi um caos, mas que apesar dos pesares a viagem deu para ele a medida exata da alegria de viver do amigo, que nunca perdia a paciência e o bom humor. “A saída daqui foi um caos porque o aeroporto estava lotado e a minha mulher, esqueceu a carteira de identidade original e perdemos o vôo da meia noite. Ela teve que pegar a identidade em casa e fomos no vôo das duas da manhã.

O primeiro dia nós, mais ou menos, vamos perder por causa disso, mas o Serjão não se abala, achando graça de tudo, com aquele sorriso dele. Chegamos em Buenos Aires e confesso que estava contrariadíssimo, estressado! No aeroporto, passando pelo saguão para pegar as malas, vimos o free-shop aberto, umas garrafas de whisky e disse ‘pera aí, Serjão´. Era uma garrafa de Blue Label de 60 anos, uma nota.

Olhei pro Serjão e ele ‘Nós merecemos!’. Compramos. Veio o táxi, estamos guardando as malas, e quando vamos entrar a sacola escapa da minha mão, cai na quina da calçada e a gente vê o líquido, aquele líquido precioso, indo em direção do bueiro. Minha vontade foi abaixar e pegar com a mão. Nós entramos no carro e o Serjão caiu na gargalhada. Fomos rindo até o hotel e ele dizendo ‘Porra, realmente essa viagem vai ser do cacete!’ Perdemos o vôo, quebrou o whisky mais caro que ele já comprou na vida na porta do aeroporto e foi uma viagem deliciosa, inesquecível.”

As últimas conversas
“Nós falávamos de tudo e ele ainda mantinha, eu não, mais cético e decepcionado com o governo Lula, um certo otimismo. Estava mais preocupado em olhar para o que ainda tem de positivo. Nunca achei que eu conseguisse mostrar pro Serjão o tamanho do afeto que eu tinha por ele, a admiração.

Na semana dos 10 anos da Caros Amigos, em 2007, quando falei aquilo que depois eu escrevi no obituário dele para a Folhade S.Paulo, a frase do Brecht, sobre os homens imprescindíveis, olhando para ele, pela primeira vez achei que ele gostou de ter ouvido aquilo de mim na frente de todo mundo. Isso me dá a maior alegria de falar, pois falei uma coisa que ele gostou de ouvir, se sentiu confortável.

Porque toda e qualquer coisa que você dissesse pra ele vinha aquele sorriso como se dissesse `que bobagem, isso não tem a menor importância.`”

Um cara da história sem menção da grande mídia
“Essa é a miséria brasileira. Se nos Estados Unidos, na Inglaterra ou na França tivesse morrido um Sérgio de Souza, independentemente da concordância ou não dos demais veículos de imprensa, ele seria devidamente homenageado. Não é com o obituário dos amigos, ele seria primeira página dos jornais mais importantes do país, ‘ Morreu Sérgio de Souza - a essência da revista Realidade’.

Teria destaque em todas as revistas semanais nesse país. É o clima de Fla-Flu que virou a nossa imprensa. Você não precisa concordar com a linha, mas você não pode deixar de respeitar e admirar. Esse é um cara da história. Se esses homens de comunicação não têm essa sensibilidade com outros homens de comunicação, opa, opa! Pouquíssimas mortes na minha vida me abalaram tanto, me doem tanto. Todas as pessoas que conviveram com ele e de quem o Serjão gostou, todas, têm, no mínimo, um ou duas histórias muito fortes pra contar. Ninguém passou em branco.

O Serjão é uma marca na vida de todas as pessoas que o conheceram. Acho muito legal a última entrevista dele ser com uma estudante. Porque, no fundo, essa foi a missão dele: sempre preparar as novas gerações, ele sempre acreditou nisso.” (Thiago Domenici)

2 comentários:

Jucielle Leal disse...

os bons nao deveriam morrer...eu me lembro da materia sobre ele na Caros Amigos...

inte!

obs: desculpa a falta de acentos: problema ainda no teclado.

Thiago Domenici disse...

Oi, Jucielle. O especial sobre o Serjão é uma aula, né? Beijos, thiago

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