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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

César Benjamin, Lula e a Folha de S. Paulo (II)


Li atentamente o noticiário sobre a acusação do editor César Benjamin ao presidente Lula inserida no artigo “Os filhos do Brasil”, publicado pela “Folha de S. Paulo”, segundo a qual o então sindicalista Lula teria tentado estuprar um jovem companheiro de cela. Conforme o relato de César Benjamin, o próprio Lula teria feito essa revelação estarrecedora numa conversa em um almoço durante uma de suas campanhas a presidente.
As primeiras respostas de assessores próximos do presidente consistiram em afirmar que a denúncia só podia ser fruto da “psicopatia” do denunciante, ou que não passava de puro “lixo”. O publicitário Paulo de Tarso da Cunha Santos, que já coordenou o marketing de várias campanhas de Lula e atualmente presta serviços ao governo federal, chegou a declarar que não se lembrava de que César Benjamin tivesse participado do almoço mencionado. Nos dois últimos dias, várias outras pessoas foram ouvidas sobre a denúncia de César Benjamin e as primeiras respostas de assessores e amigos do presidente Lula. De suas declarações, concluí o seguinte:

1) Houve o almoço;
2) César Benjamin participou do almoço;
3) Os demais participantes do almoço foram os indicados por César Benjamin em seu artigo, inclusive o cineasta e publicitário Sílvio Tendler, de cujo nome César Benjamin afirmava em seu artigo não recordar;
4) Houve o relato de Lula, confirmado por Sílvio Tendler, que o interpretou, porém, como uma “brincadeira”, evidentemente machista e de muito mau gosto mesmo como “brincadeira”;
5) O “menino do MEP” mencionado por Lula, segundo a reconstituição de César Benjamin, foi identificado como sendo o ex-metalúrgico e ex-militante sindical João Batista dos Santos, o qual, através de um amigo, teria afirmado: “Isso tudo é um mar de lama. Não vou falar com a imprensa. Quem fez a acusação que a comprove.”

Se a reportagem da revista “Veja” corresponde à verdade, a principal testemunha e suposta vítima da tentativa de estupro não confirmou, portanto, mas também não desmentiu a denúncia de César Benjamin.
A essa altura, portanto, as alternativas se resumem a saber se Lula fez apenas uma piada e uma bravata de fundo sexual, machista e de mau gosto, ou se ocorreu efetivamente uma tentativa de estupro, frustrada pela resistência do “menino do MEP”. Por que, em princípio, a interpretação de Sílvio Tendler vale mais do que a de César Benjamin, segundo a qual o sindicalista Lula estaria relatando um fato ocorrido e não apenas uma história inventada?
Alguns se perguntam por que César Benjamin demorou tanto tempo a divulgar esse episódio e por que resolveu desenterrá-lo justamente agora. Lembro as divergências e os ressentimentos indiscutíveis de César Benjamin com o PT e em especial com Lula, mágoas que devem ter renascido com o lançamento do filme “O filho do Brasil” sobre a trajetória do presidente, filme considerado por vários comentaristas como laudatório e acrítico. O artigo de César Benjamin está claramente vinculado a essa circunstância, até mesmo no título. Cabe, por outro lado, indagar por que o candidato Lula iria inventar uma história comprometedora de tentativa de estupro em plena campanha presidencial e na presença de um publicitário estadunidense?
Já escrevi que não disponho de elementos próprios de informação para confirmar ou desmentir as versões em choque. Mas, para mim, gostem ou não os amigos, o assunto continua grave e insuficientemente esclarecido. Será lamentável e perigoso para o futuro das correntes democráticas e socialistas do Brasil se mais este incidente político-moral for varrido para baixo do tapete.

Duarte Pacheco Pereira é jornalista, foi vice-presidente da UNE em 1964 e dirigente nacional da Ação Popular (AP) de 1965 a 1973, obrigado a viver e atuar clandestinamente durante 11 anos. Leia o primeiro artigo aqui.

2 comentários:

Murillo Cruz (19-01-1952) disse...

Conheci pessoalmente o Cesar Benjamin, em minha residência, no jardim botânico, Rio de Janeiro, no início dos anos 90, quando então, buscava ele, alguns documentos "secretos" e informações sobre as bandidagens de certos políticos e autoridades deste país. Lembro bem de mostrar-lhe alguns, e afirmei que não lhe entregava por motivos diversos ... Eu já conhecia bem o histórico de Cesar Benjamin, e sempre admirei-o; após a sua matéria na Folha de São Paulo (Os Filhos do Brasil), eu passo a respeitá-lo mais ainda. Gostaria de parabenizar o Cesar. Somente aqueles - como nós - que estão envolvidos plenamente na Política Social com P maiúsculo, são capazes de não relativizar ou "negociar" os acontecimentos, os fatos e a realidade (como a esquerdalha brasileira - em geral, oportunistica, gosta de fazer). Tenho lido matérias nojentas criticando o Cesar por esta matéria da Folha; e eu sei muito bem as razões das críticas. Normalmente são retardados que "acham" que a política pode e deve ser exercida aquém das fronteiras da dignidade, da decência, e da honestidade. Normalmente são pessoas que acreditam em Maquiavel et. al. e acham que política é a arte de "permanecer no poder" . Cesar Benjamin demonstra cabalmente que Política é ação e comportamento integral ... Mais uma vez, parabéns ao César ...
Murillo Cruz

P.S.1: A historia existiu e é verdadeira: Silvio Tendler admitiu há poucas horas atrás, apenas falou que foi brincadeira do lula. (!)
P.S.2: Lula deveria processar Cesar Benjamin.
P.S.3: chamar o César Benjamin de “direitista” ou conexos é um dos maiores absurdos que alguém que militou na “esquerda” (ou mesmo na “direita”) poderia ouvir. 99% das pessoas que estão criticando o César Benjamin, pergunto eu: aonde estavam, entre 1968 e 1985 ? Fazendo o que ?

Lina Cavalcante disse...

Há dias vejo manchetes sobre este assunto, mas resisti. Não queria ler mais uma sujeirada da Folha e era isso mesmo que parecia ser. Estou, de fato, muito cansada dos crimes da imprensa, dos jornais que mentem fingindo informar, das politicagens, das pessoas que decidem o que vamos ou não saber e, portanto, o que existe ou não para nós... Mas um texto no blog do Thiago é diferente porque nele eu confio.

Então, entrei no Nota de Rodapé para ler o post e depois corri para ler o tal artigo. Envolvente, confesso, com apelos poéticos. Quem não se encanta com a história do preso que cantava Beatles e queria ser rei de Senegal? Achei aquilo de uma beleza dolorosa. Mas jamais acreditei. Não tinha sentido. Por que não teriam usado isso antes? Por que Lula seria tão burro se é impressionante a sua inteligência e nós sabemos disso? Por que? Por que? Prefiro acreditar na imagem do Lula que eu fiz no que na que a Folha quer fazer. Fiquei apenas com a seguinte dúvida: houve ou não a tal piada?

Entrei logo no msn atrás do Thiago, que está sempre acompanhado de gente politizada e do bem e que poderia me ajudar a entender tudo isso. Na dúvida, em vez de confiar na imprensa, prefiro confiar nos amigos. O Thiago não estava online. Então, comecei a procurar na internet opinião de pessoas que têm a minha credibilidade, fui ler todas as entrevistas, notas, artigos. Toda a repercussão. Depois de tudo lido o que pensei: mais uma sujeirada da Folha. Dessa vez muito pior do que usar detalhes editoriais, como o número de vezes em que um ou outro candidato aparece no jornal, a foto que é escolhida para passar esta ou aquela imagem, as matérias tendenciosas. Dessa vez, esteve em jogo a literatura, o tom confessional, a emoção, relatos supostamente biográficos, personagens envolventes, e uma acusação das mais sérias: tentativa de estupro. Dessa vez, creio eu, a Folha morreu.

Como bem disse Duarte Pacheco Pereira, em seu primeiro post sobre o assunto (que gostei mto mais, por sinal), "Os leitores não podem ser induzidos a escolher uma das duas alternativas arbitrariamente, por afinidade política e pessoal com o denunciado ou com o denunciante". Ele estava certo ao exigir investigação do veículo. Pena que seja comum não acontecer, ou vir de forma duvidosa. Por isso, muitas vezes, é preciso procurar blog de amigos, e que bom que eles existem.
Agora o que queria pedir ao meu amigo Thiago é mais de Thiago no blog. Porque é tão difícil a gente achar textos de pessoas confiáveis. Este post, por exemplo, de uma pessoa respeitada, foi muito positivo porque me fez ir atrás de uma série de referências. No entanto, estou descrente até em veículos que sempre acreditei. Só para citar um exemplo. Pensar que eu rapidamente coloquei “César Benjamim” e “Caros Amigos” no google para saber a opinião da revista que sempre confiei para acabar descobrindo que o César trabalhou lá. Thiago, meu amigo, entro nesse blog por extrema confiança, respeito e admiração a você. Acho maravilhosa a idéia de reunir articulistas, sei que você é bom nas escolhas e entendo também que não queira intervir. O que peço é simples, que tal o blogueiro, que como todo blogueiro sempre pede comentários para os posts, seja sempre o primeiro a comentar? Hein? Eu ia adorar.
Bjos da Lina

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