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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Curtas Banais # 9


da vontade


vida de frila não é fácil. pra começar, enquanto todo mundo reclama de trabalhar muito, ou eventualmente de estar desempregado, você reclama de ambas as coisas. porque quando o trabalho vem, vem mesmo. às vezes, dois ou mais ao mesmo tempo – e você se desdobrando em trinta. e a seca, quando vem (toc, toc toc), também é dura: dias olhando pro vento, cozinhando, fazendo academia e tentando não pirar. isso sem falar na negociação de grana, sempre estressante: sempre algum cachê pra tentar melhorar, uma argumentação meio constrangedora (imagine ter que negociar seu salário com seu chefe todo mês – pro frila é toda semana, com vários “chefes” diferentes). e aí é uma nota pra enviar, um imposto pra pagar, um cachê atrasado e a sua conta no vermelho.

como se não bastasse, tem o lado “social” da coisa: sempre tendo que fazer uma média, meio com medo se queimar ou de mandar alguém ir praquele lugar (pra quem é bocuda que nem eu isso é foda), ou aguentando gente chata e incompetente… pelo menos no mercado de vídeo-cinema-tevê é bastante assim. mas acho que em qualquer área rola isso.

bom, eu tava meio que nessa aí. dois trabalhos ao mesmo tempo, produção e roteiro. cada coisa numa produtora, claro. correndo pra caramba – tipo de manhã reunião com cliente na zona sul, de tarde visitando locação na zona norte, de salto e blusinha de manga-morcego. aí beleza, gravei minhas duas diárias, terminei o job (o de produção – falta fechar, mas a gente se vira…) e no domingo acordo em casa, aquele solzinho, dez da manhã, o corpo todo dolorido depois da primeira noite de sono completa em quatro dias. tomo meu café e sento no quintal, mentalizando que teria que me concentrar e - sem nem o sagrado domingo de descanso – sentar pra escrever.

de repente, vem a inspiração:

-baby, sabe o que eu queria ser?
-o quê?
-um ovo frito.
-?
-pensa bem: ele tá sempre deitadinho, com aquela geminha mole, balançando… em paz…

um ovo frito. taí.

Sofia Amaral é roteirista e produtora, e tá cansada até pra escrever mais nesse crédito. Ufa!

2 comentários:

Lina disse...

Adorei, Sofia. Fiquei com inveja de tu ter um quintal. É uma coisa mto importante na vida ter um quintal. bjos e vou te ler mais.

** Fabiana disse...

Eu poderia facilmente dizer que esse texto é uma imagem e semelhança da minha pessoa. Cara, ser freela é uma dor de cabeça constante... amanhã é dia de pagar o aluguel e nada dos cachês cairem na conta! hahaha.

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