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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 31 de março de 2010

À margem, a Atibaia que não sai no slogan de "melhor clima do mundo"

Entro nas ruas estreitas de terra batida da Vila São José. As casas são erguidas com tábuas, lâminas de metal, placas e faixas de publicidade que servem de suporte para paredes e telhados. A sensação é sufocante. O barro abundante e a sujeira não incomodam as crianças que brincam ao risco de contaminação. O saneamento básico inexiste.Ali moram 540 famílias, aproximadamente 2.500 pessoas numa área de “ocupação irregular”, que não tem iluminação pública e sem CEP, o que dificulta a chegada dos correios e a obtenção de outros serviços básicos.
Outrora conhecida como lixão, a Vila São José fica ao lado esquerdo da rodovia Fernão Dias, sentido São Paulo/Belo Horizonte, a aproximadamente 60 quilômetros da capital paulista.
Próximo da entrada avista-se a usina de reciclagem, onde catadores trabalham em cooperativa. Atibaia, segundo melhor clima do mundo, segundo a UNESCO, é conhecida pela expressão de “paraíso quase possível na terra”, mas oculta por trás de slogans da prefeitura – “vivendo o melhor clima” – seu quinhão menos badalado.

Quem vive o melhor clima?
No local, segundo dados da prefeitura, 65,8% das instalações de água são regulares, 6,2% são empréstimo e 14,1% de uso coletivo. Dos serviços essenciais, o tratamento de esgoto é o ponto mais crítico com 34% das moradias utilizando fossa, 14% com ligações irregulares, os chamados “gatos”, e 12,7% com córrego a céu aberto.
O cheiro desagradável, a presença de ratos constante e o lixo espalhado confundem a vista. O resultado, considerada a forte enchente que começou em dezembro, é dramático: 900 famílias atingidas num total de sete bairros. Cento e uma ainda sem lar.
Historicamente, as famílias começaram a chegar à região logo após a desativação da Rede Ferroviária Federal Sociedade Anônima (RFFSA), que depois de extinta, teve os bens e imóveis transferidos para a União.Segundo o Departamento de Habitação da Secretaria de Assistência e Desenvolvimento Social do município, há mais de nove anos administrado pelo Partido Verde (PV), em 2001 iniciou-se o levantamento do trecho da ferrovia e, no ano de 2004, foi feito o cadastramento de todas as famílias que ali residiam. Ainda de acordo com o poder público, os dados permitiram a criação de planos “para promover a melhoria nas condições de habitabilidade e a recuperação urbana do local”. No núcleo da Vila São José, a área seria urbanizada e dez prédios seriam erguidos com 240 apartamentos. O projeto, entretanto, ainda não vingou.O motivo alegado pelas administrações para não mexer nas áreas da extinta RFFSA são imbróglios jurídicos e administrativos que impediriam a chegada de benefícios ao bairro.

Vivem em contêineres
Após as enchentes, algumas famílias desabrigadas da Vila São José foram “alojadas” em contêineres. O local escolhido foi o popular “Campo Santa Clara” (na imagem), terreno que também pertencia à ferrovia.
E não só os “módulos metálicos habitacionais” foram instalados. Agora, frágeis e minúsculas estruturas à base de madeira são erguidas para que o povo more por dois anos até que apartamentos sejam entregues. Ou seja, os que vivem em caixas de metal passarão às caixas de madeira. “A prefeitura sempre afirmou que não podia construir nada aqui. Que não podia fazer melhorias porque era área irregular. Depois da enchente estão construindo no campo e prometendo até apartamentos por perto”, aponta José Lopes de Lima, presidente da Associação dos Moradores da Vila São José.
Caminho e lembro de Sandra dos Santos, que conheci em 2008, numa reportagem. De Guarulhos, ela e o marido, Roberto, trabalhavam como catadores de sucata. Os filhos mais velhos ajudavam. Uma delas, com 20 anos, grávida. Entre os menores, a menina Sandrinha, nome da mãe, de 12 anos, tinha o corpo paralisado parcialmente e, mesmo com as dificuldades de locomoção, todos os dias ia à escola caminhando. “Ela volta sempre com os pés inchados e com dores no corpo”, contou a mãe à época.

A água subiu, correria
As expressões sofridas e desconfiadas pedem atenção. Querem falar. Ao menos, como forma de aliviar as aflições. José Carlos da Silva mora há 20 anos no pedaço. Idoso, convive com uma deficiência nas pernas e com a constante ameaça de inundação. “Não foi só neste ano. Quando a água sobe é uma correria. Um pouquinho de chuva basta para ter que colocar os móveis para o alto e sair da casa”, desabafa.
Embora José observe que o problema é recorrente, o potencial destrutivo da última enchente causou danos maiores que os habituais. “Aqui, chuva sempre foi certeza de prejuízo. Não existe estrutura que faça a água correr. O rio transborda e não tem escoamento”, explica Pedro Camargo, outro morador, há dez anos no local.
Pedro e José são solícitos com a reportagem do Nota de Rodapé e decidem mostrar o rio Atibaia, que corta o fim de uma das ruas. A visão é chocante e não precisa ser especialista para perceber que a água pode subir facilmente.
Na outra margem, o imponente Hotel Resort Bourbon (ao fundo, na imagem) nos observa, impoluto. Em dias de chuva, enquanto a água suja e fria desalenta os moradores, os hóspedes podem se deliciar com uma piscina aquecida pela bagatela, “em promoção”, de 1.556 reais por um final de semana.
Penso na estrutura dada ao resort e nas concessões feitas pelo município para a instalação do complexo que abriga convenções de grandes empresas, encontros políticos e concentrações de times de futebol, público que, geralmente, não sai das luxuosas dependências para conhecer a cidade.
Ao que parece, o lado esquecido de Atibaia só desperta a lembrança dos administradores públicos depois da ocorrência de tragédias. Como num passe de mágica, as amarras burocráticas para tomada de providências nas “áreas irregulares” da Vila São José foram desatadas quando a cidade virou notícia nacional por causa das inundações. Aos moradores não resta opção, morar em contêineres ou casas de madeira não é o ideal, mas a migalha provisória que não se pode recusar.
Observo a garoa fina fechando o dia e torço para que não chova mais forte na vila da Sandra, do José e do Pedro, brasileiros à espera do que é básico e constitucional: moradia digna e ambiente saudável.

Moriti Neto é jornalista, paulistano de nascença, atibaiense de coração e colunista do Nota de Rodapé. (Imagens: Moriti Neto/NotadeRodapé)

4 comentários:

Jornal Atibaia Hoje disse...

Recebi de um leitor sua matéria a espeito de Atibaia e gostaria de publicá-la com os devidos créditos e solicito autorização. Jornal Atibaia Hoje
e-mail:atibaiahoje@uol.com.br
Grato
Maria Clara T. Gonçalves

Renato Andrade " Hyena" disse...

Já trabalhei nesta área, era instrutor de skate para crianças no Projeto Curumim.
Acho triste que isto aconteça na nossa cidade, o governo deveria dar mais atenção a essas pessoas...
Porém em contra-partida isto não é previlégio de Atibaia, muito munícipios brasileiros tem estes problemas.
Falta mesmo são programas sociais mais eficazes no combate a desigualdade social.
Quando puderem visitem o meu blog támbem sobre skate:
http://renatohyena.blogspot.com/

com versador disse...

Assim como o Renato, por dois anos trabalhei no Projeto Curumim, que fica no Caetetuba.

Caetetuba é um universo paralelo, grande e esquecido, que só é
lembrado em ações eleitoreiras, vide as pessoas vítimas das enchentes que ainda estão amontoadas em latões.

Anônimo disse...

Clima e ar mais puro que Atibaia? A cidade ao lado dela, Piracaia! Piracaia fica bem próximo de Atibaia, mas.. Piracaia tem poucos carros, polui menos, e outra.. Piracaia é cercada de represas e de muita, mas muita árvore.. Por isso acho que o clima é melhor do que o de Atibaia.......

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