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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 8 de março de 2010

Na Argentina, a música nas arquibancadas é tão importante quanto o futebol

Assistir a um jogo na Bombonera, mítico estádio do Boca Juniors, da Argentina, é uma experiência inesquecível. Se você não liga muito para futebol tudo bem, porque tão espetacular como o jogo em si (na verdade, ultimamente a equipe de Riquelme tem deixado a desejar) é a festa que se faz nas arquibancadas.
No país hermano, a torcida do Boca pode ser a mais conhecida, mas não é a única a dar show nos estádios – e talvez nem seja a mais fanática. As hinchadas (torcidas) são um orgulho à parte no país de Maradona e Gardel. Além de cantarem os noventa minutos de jogo, cada uma delas têm dezenas de músicas (os cantitos), muitas delas feitas especialmente para quando a equipe enfrenta um determinado adversário.

Aqui um vídeo com boa parte das músicas cantadas pela torcida do boquense:



Juan Cruz, jornalista argentino e torcedor fanático do Belgrano (de Córdoba), conta ao Nota de Rodapé sobre essa tradição em seu país.
“As músicas das torcidas são, para os torcedores, tão ou mais importantes do que os resultados dos jogos. No campo se pode perder, mas nas arquibancadas não. E a forma de não perder nas arquibancadas e incentivar seu time o tempo todo. Por isso, é muito comum que o duelo entre torcidas se faça na base do quem canta mais.”
A grande maioria das músicas cantadas pelas torcidas argentinas são adaptações de canções que fazem ou fizeram sucesso no país. Portanto, como explica o colega Juan Cruz, o sonho de qualquer cantor é ter uma música sua adaptada por uma hinchada.
“Na Argentina, grande parte dos cantores e músicos têm uma missão, um objetivo, um desejo confesso e irremediável: que as torcidas de futebol utilizem suas melodias. Isso acontece desde que eu tenho memória, há pelo menos 20 anos.”

Aqui, uma música dos Fabulosos Cadillacs (de Vicentico) e a adaptação feita pela torcida do Boca:






Fabulosos dizem:
Por que será que você fica aí dentro/não fique, porque aqui fora é carnaval/carnaval a vida toda e uma noite com você/ se não há galope nos para o coraçã0
A torcida diz:
Por que será que eu te sigo em todos as partes campeão/ por que será que não sei viver sem você/carnaval a vida toda, é xeneize (apelido do time) a paixão/ se não te vejo, se parte meu coração
Torcedor do pequeno Belgrano, Juan Cruz tem um orgulho tão grande da sua torcida (apelidada de piratas) do que de seu time. “Meu time tem poucos méritos esportivos e poucas vezes os vi jogando realmente bem. Mas dão o sangue e a torcida os acompanha. A torcida não comemora uma linda jogada, mas sim quando o jogador se joga de cabeça para salvar uma bola.”
O fato de gritar mais alto em um estádio é marcar território, explica Juan. Deixar claro que os adversários são ‘todos putos’ (veados) e que a torcida é fiel com ou sem derrota do time. Juan se despede cantando uma linda canção que os piratas adaptaram de uma música do uruguaio Rúben.



Quando eu morrer quero que meu caixão seja da cor celeste, como meu coração
Os piratas nunca vão te abandonar, seja onde for, sempre vai te empurrar
Pela camiseta, pelo carnaval, vamos Belgrano, você tem que ganhar
Somos cachorros, comemos o Matador (Talleres, maior rival), nem como a Gloria (outro adversário local), que é um ‘puto cagón’ (nem precisa traduzir)
No Brasil
Algumas torcidas, em especial do Sul do país, copiam abertamente o estilo e as músicas das torcidas argentinas. O Grêmio, por exemplo, tem uma torcida que se intitula “alma castelhana”, e que aportuguesa os cantitos. Nem precisa dizer a porcaria que fica. Para terem uma ideia, a canção que diz somos borrachos (bêbados, em espanhol) fica para os gremistas “somos borrachos” (sim, assim mesmo), o que faz tanto sentido como tentar cantar um tango de Gardel em português.
Só uma notinha triste: as torcidas argentinas são, em grande parte, muito violentas. Nisso a semelhança com o Brasil é total. Os ‘Barra bravas’, como são chamados lá, vivem se matando (e muitas vezes matando gente que nada tem a ver com o futebol) pelas cidades argentinas. Só podemos lamentar.

Ricardo Viel é jornalista e mantém a coluna Conexsom Latina neste Nota de Rodapé

6 comentários:

elis disse...

Vamos precisar de mais algumas horas de boteco pra discutir essa parte do borrachos... (e isso não é um jogo de palavras!).
Por enquanto, escuta isso com carinho: http://www.youtube.com/watch?v=u7eEYVLCE3I

Adoro essa coluna!!!
Beijos

conexsom disse...

Sabia que ia dar polêmica isso, mas achei que o primeiro a se manifestar seria Gustavo Zepka, o gaúcho baiano. A palavra borracho existe, mas dai dizer que é usual vai uma distância, hein? Faz sentido em Porto Alegre dizer: você é um borracho?

Gustavo disse...

Rapaz, eu te mandei uma redação no teu e-mail.

Tu precisas entender que vai além de copiar nossos hermanos (vide camisa do Grêmio na libertadores do ano passado, cópia da do Los Pumas), nossa cultura está ligada a cultura hispanica.

Se faz sentido em Porto Alegre dizer que é borracho? Não sei. Mas em qualquer cidade de fronteira, e não são poucas, vais escutar:

- Sim, vamos tomar um trago?

Abração

Guga

elis disse...

arrasou, guga!! era bem por aí que ia a minha linha de raciocínio... Talvez borracho não seja um palavra de uso corrente, mas certamente é entendida no Rio Grande do Sul muito mais que em qualquer outro estado.
Sem falar nas tantas outras palavras do castelhano que já foram totalmente incorporadas à fala gaúcha...
Mas continuo afirmando que precisamos de mais horas de boteco pra discutir isso... rs
Beijos nos dois!

Lucas Maciel[SCI] disse...

é inegável que o Rio Grande tem muita semelhança com a argentinas( carne, chimarrão , vestimentos de inverno(vcs do norte nem imaginam doq tamos falando hehe) , entre outras coisas) e no jeito de torcer ñ é diferente, as barras do inter e do gremio calam qualquer outra torcida até argentinas.

Vide Inter na libertadores!!

Anônimo disse...

De fato, moro no sul e sei plenamente o que é "borracho", nunca tinha parado para prestar atenção que se tratava de um termo "castelhano".

Além disso, prestem atenção nas músicas da torcida do inter.
Muitas foram copiadas/utilizadas por outras torcidas do Brasil. Ex.: Flamengo (tema da vitória, senna e outras).

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