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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 22 de março de 2010

Os gênios do Oscar não conhecem Jorge Drexler, e você?

Em 2005, um doutor em otorrinolaringologia assistiu, sentado numa confortável poltrona e vestido de fraque, à tentativa de homicídio de uma canção sua praticada pelo ator espanhol Antonio Banderas e o guitarrista mexicano Carlos Santana. A vítima foi a música Al Outro lado del Rio, literalmente executada pela dupla durante a cerimônia do Oscar.

Atenção, tirem as crianças da sala.


A canção, tema do filme “Diários de Motocicleta”, concorreu e venceu (seguramente porque a votação já estava encerrada antes do desastroso dueto) na categoria melhor canção original. O médico uruguaio Jorge Drexler não pôde cantar sua música, porque para os organizadores da festa ele era uma figura desconhecida no mundo. (Walter Salles critica decisão)
Ao subir ao palco para receber sua estátua, Jorge Drexler tomou o pulso da vítima e viu que ainda havia sinais vitais. Aproximou-se do microfone e, em vez do tradicional discurso de agradecimento, devolveu a vida à sua criação, ao cantá-la.
(Aqui, em entrevista à Rádio Eldorado, o músico conta como foi o convite para fazer a trilha do filme e fala do discurso musicado).



O episódio do Oscar reflete a dificuldade que este uruguaio de 45 anos encontrou (e ainda encontra) para ser ouvido. Afinal, se a América do Sul é coadjuvante dentro do mercado financeiro da música, o Uruguai praticamente não existe.
Com a paciência e a destreza de um artesão, Drexler foi aos poucos traçando sua carreira, sem se importar muito com cifras e contratos. É músico desde sempre (aos quatro anos começou a tocar piano), mas antes de viver disso foi salva vidas e médico. Também se arriscou na literatura (ganhou um concurso na época de estudante e recebeu o prêmio das mãos de Eduardo Galeano) e no teatro – já como compositor.
Na metade dos anos 90, Drexler, já medianamente conhecido e respeitado no Rio da Prata, costumava abrir shows de gente graúda (entre elas, dois brasileiros: Caetano e João Bosco) quando se apresentavam no Uruguai. Foi graças a um empurrão de uma delas que a carreira do uruguaio decolou. Depois de abrir um show do espanhol Joaquim Sabina em Montevidéu, Drexler recebeu o convite para repetir a dose em Madri. Foi para fazer três shows, mas já está por lá faz 15 anos.

Aqui, No Pienses de Más, do álbum Llueve (de 1998)


Deixou Montevidéu, mas vira e mexe volta (inclusive para gravar seus discos) e aponta a distancia de sua terra como um dos elementos de inspiração.

Un País con el nombre de un Rio


Venho de um trago vazio
Um país com o nome de um rio
Um éden esquecido
Um campo ao lado do mar
Poucos caminhos abertos
Todos os olhos no aeroporto
Uns anos dourados
E um povo habituado a sentir saudade
Como me custa querer-te
Me custa perder-te
Me custa esquecer
O cheiro da terra molhada
A brisa do mar
Ao mesmo tempo é cada vez mais cidadão do mundo (“Meu último disco foi apresentado em 16 países. Eu antes tocava em Caracas, Lima, Estocolmo ou Florência. É estranho ir a Berlim e que venham falar com você estudantes de espanhol que conhecem suas músicas. Ou ir ao Brasil e encher um teatro com gente que conhece suas canções” – entrevista ao La Nación.
Jorge Drexler pode estar de volta à cerimônia do Oscar em 2011. O uruguaio fez a trilha sonora do filme The City Of Your Final Destination, do norte-americano James Ivory, que deve estrear no circuito comercial nos próximos meses. Até lá serão seis anos desde que o desconhecido médico ganhou o prêmio. Será que os gênios da organização do Oscar já conhecem o otorrinolaringologista?

Novo disco
Na semana passada, Drexler lançou em Madri seu novo disco: Amar la Trama (veja vídeo da canção Me trajo hasta em http://www.jorgedrexler.com/). O novo trabalho foi gravado quase ao vivo. Em um estúdio e com a presença de alguns convidados, todos os instrumentos foram gravados ao mesmo tempo (normalmente se grava voz, guitarra, bateria, sopros, em separado, e depois eles são unidos) e a maquiagem por computador praticamente não existiu. Ouvi pouca coisa, mas parece bem interessante – como praticamente tudo o que o cara faz.
Enquanto não há mais vídeos com os sons do novo álbum, me despeço com Sea, parceria com Mercedes Sosa (só isso). Até a semana que vem



Ricardo Viel
é jornalista e mantém a coluna Conexsom Latina neste Nota de Rodapé

2 comentários:

Pablo Solano disse...

A melhor definição é do comentarista de TV que disse que Antonio Bandeiras canta uma música e Carlos Santana toca outra, sendo que nenhuma delas é Al Otro Lado del Rio. É desesperador.

elis disse...

Acho que o único problema da coluna dessa semana é que é pouco provável que algum dia você escreva alguma que eu goste mais! rs
Fica o desafio!!! =P

Se eu ainda não disse, Un País con el nombre de un Rio está certamente entre as minhas Top 5 do cara! Você precisa assitir um documentário sobre ele que passou no festival de cinema aqui de SP. Vou ver se descubro o nome e te passo...
Tá, falei demais.
Beijos

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