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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 25 de agosto de 2011

Brasília: uma sinfonia decadente ao excesso

Em uma sociedade, a ideologia dominante é a ideologia da classe dominante. Não sou eu quem está dizendo, e sim um tal de Carlo Marques, algo assim. Mas se a ideologia dominante é a da classe dominante, a vida das pessoas orbita, então, em torno do que as pessoas do centro consideram importante em sua vida.

Ex-BBB´s curtem o domingo ensolarado no lago Paranoá
Pois bem, vejo isso com uma clareza cruel em Brasília. Tenho certeza que não é um privilégio dessa cidade tão atípica, mas aqui percebo com uma crueza que me espanta genuinamente que o principal eixo em torno da qual gira a vida de muita gente é o excesso. Nada mais decadente.

Tem gente que considera que é um axioma da sofisticação aquele paradigma de que “menos é mais”. Ou seja, que os excessos são cafona. Que você usar um salto de 15 centímetros para ir à padaria, ostentar 25 carros de luxo na garagem, ou outras demonstrações ostensivas de poder econômico é, resumidamente, algo muito brega.

Em Brasília esse axioma não vale. A matemática por aqui é mais simples. “Mais é mais”. Novamente, imagino que isso não exclusividade da cidade. Mas em Brasília, isso é muito mais evidente, e é jogado na cara das pessoas de maneira muito mais aberta, do que eu já percebi em outros lugares.

Provavelmente fará mais sucesso aqui uma loja que venda snowboards da mais alta qualidade e do mais alto preço do que uma livraria que não tenha grandes atrativos além de um bom acervo de livros.

Não por acaso, um monte de gente considera Brasília uma “ilha da fantasia”. Ok, as coisas aqui são muito diferentes, a vida gira muito em torno da agenda política e do funcionalismo público. Isso acarretou que houvesse a criação de uma classe média forte e pujante. A cidade foi planejada para isso, tanto que era pras asas serem a moradia do grosso da população. E entre as quadras 400, consideradas as mais populares das asas, e os conjuntos mais caros, não deveria haver uma grande diferença. Algo meio social-democracia aplicada.

Mas isso não teria como dar certo na sociedade que se desenvolveu aqui. A camada de cima precisa, de forma muito expressiva, se destacar. Precisa mostrar com todo o esplendor que faz parte de uma elite muito elite.

É consenso que um bom investimento, para quem quer fazer dinheiro, é o mercado de alto luxo de Brasília. Provavelmente fará mais sucesso aqui uma loja que venda snowboards da mais alta qualidade e do mais alto preço do que uma livraria que não tenha grandes atrativos além de um bom acervo de livros.

Um tiro certo é abrir uma loja de lanchas e barcos de luxo. Pois, mesmo estando a centenas de quilômetros do mar, Brasília tem a segunda maior frota de barcos pessoais do país. Eles ficam circulando pelo Lago Paranoá, de preferência próximos às margens, com um monte de gente seminua. Parecem querer emular um clipe do Snoopy Doggy Dog, mas com todo mundo branco.

Claro, pois se quanto mais melhor, se ostentação é elegância e chique é sinônimo de caro, você pode perfeitamente presenciar cenas do tipo, em um almoço em casa, um garçom (porque aqui, quando alguém oferece um almoço, contrata serviços de garçom) oferece um uísque black label pro sujeito, que responde, em altos brados “não, black pra mim é merda. Black é o cara que cuida do meu garden”. Digamos que eu tenha inventado essa cena. Digamos, é melhor assim. Ah, é claro, black também era a colour do waiter que servia o scotch. Fora a grosseria com o suposto dono da casa.

É cara porque é
vemelha ou...


Li a notícia sobre a “perda” que a Louboutin sofreu. Resumidamente, a Louboutin é uma marca de sapato, desenhados pelo tal Louboutin, que são super exclusivos e caros. Muito, muito caros. Tipo, quanto você pagaria, no máximo, por um sapato? E se você tivesse muito, muito dinheiro? Quanto você pagaria? Pensou num número? Multiplica por dez. É por aí que custa um Louboutin.

E uma das “marcas” do Louboutin é a sola vermelha. Uma ideia simples, sola vermelha. Só que o tal Louboutin foi lá e patenteou os sapatos de sola vermelha, determinando assim que ninguém mais podia fazer sapato de sola vermelha. Veja bem, sola vermelha não é uma expressão para designar algum conceito inovador ou algo que dê uma nova funcionalidade ao sapato. É só uma sola de sapato, normal, mas da cor vermelha!

É pra isso que deveria servir a ideia de propriedade intelectual? Em princípio, para proteger autores de boas ideias. Mas patentear a cor de uma sola e dizer que só você pode usar, é meio o cúmulo. Agora, isso demonstra também o valor que os simbolismos têm numa sociedade de culto extremo ao excesso. Uma sola vermelha não tem, na prática, nenhuma vantagem ou diferença para uma azul, preta, amarela...

Ainda assim, a sola vermelha é cultuada. E ela só serve como forma de dizer que a pessoa não tem problemas em gastar, em dólares, uma quantia de cinco dígitos para comprar um sapato.

Ganha um doce quem adivinhar por qual cidade o senhor Louboutin resolveu desembarcar no Brasil... claro, a que ele seria mais bem recebido e teria a maior chance de ganhar dinheiro.

Rodrigo Mendes de Almeida é jornalista, especial para o Nota de Rodapé

Um comentário:

SÉRGIO KBÇA disse...

em bsb vive-se de aparência..
já percebi discriminação em shoppings mais luxuosos por conta de pessoas que olham de lado para a classe média empobrecida do plano-piloto que paga financiamento imobiliário alto, mas que vai sempre ao shopping para matar o tédio, numa cidade cujo investimento em lazer é praticamente nulo.
Bsb nem parece capital do Brasil....
Em Washinngton há o complexo de museus SMITHSONIAM, algo que falta por aqui, com exposições a todo vapor durante o ano....
Brasília é FITNESS, SHOPPING E ARROGÂNCIA !!!

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