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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

O afeto que se emplaca

Sampa tem perto de cem mil ruas. Não incluindo as clandestinas, indocumentadas que brotam no google maps como marias-sem-vergonha. Ruas correspondem a frases no parágrafo-cidade. Elas vão e vêm transportando as histórias dos que moram, trabalham ou se divertem nos seus endereços. Ruas também são os carimbos da diversidade urbana.

ruas arborizadas e ruas que poderiam estar no deserto do Saara. Ruas planejadas e ruas tortas. Estreitinhas, largas, compridas, curtas. Ruas que são becos, ruas sem saída, ruas perigosas. Ruas que, de repente, mudam de nome. A avenida Sumaré, sem aviso, vira Paulo VI. Sem contar as que mudam de cara e classe social. A avenida Angélica, por exemplo, começa pobre e vai enricando.

O poeta Mario de Andrade, paulistano da gema, pediu que ao morrer: "Meus pés enterrem na rua Aurora / No Paissandu deixem meu sexo / Na Lopes Chaves a cabeça". Não à toa, a canção que traduziu a cidade de São Paulo para o Brasil, composta por um baiano, começa com os versos: "Alguma coisa acontece no meu coração / que só quando cruza a Ipiranga e a avenida São João."

Ruas mantêm uma misteriosa relação com seus nomes. Eu nasci na rua Bambina, no bairro de Botafogo, Rio de Janeiro. Sou tão antiga, que o Rio ainda era Capital Federal. Sempre acreditei haver alguma intencionalidade mágica no fato de eu ter nascido menina e a rua se chamar bambina. Verdade que tenho um amigo que nasceu na rua do Bom Jesus, antiga rua dos Judeus, no Recife, e é um ateu irreversível.

Acho errado essa prática de vereadores, para agradar seu eleitorado ou obsequiar famílias de banqueiros, mudarem o nome de ruas. A deliciosa Estrada das Boiadas, na zona oeste de Sampa, virou a insípida Diógenes Ribeiro de Lima. A charmosa Rodovia dos Trabalhadores, que homenageava um imenso coletivo, é hoje Ayrton Senna.

Nada contra o Diógenes que nem sei quem foi, ou o Senna de quem fui fã. É que mudar nome de caminhos é tão esquisito como trocar nome de pessoas. Imagine uma Marlene virar Patrícia depois dos cinquenta. Ou ser um Gabriel até os vinte, e tornar-se um Eduardo até morrer. Não conjumina. É claro que, às vezes, é o contrário. A rua tem um nome que não casa com seu espírito. A rua do Bosque, na Barra Funda, tem árvores contadas nos dedos.

Na favela do Madalena, em Sapopemba, na gloriosa zona leste, havia uma rua que desaguava em um córrego a vau. Lá, nos anos 1990, traficantes e policiais corruptos desovavam corpos para encobrir seus crimes. A comunidade se organizou, ergueu um centro de convivência, e a rua passou de maldita a bendita. Os moradores puseram o nome de rua Nova.

Outra curiosidade - creio que uma experiência bem comum - são as ruas de iniciação. Aquelas onde um grupo de amigos vivenciou primeiros amores, primeiras traições, bebedeiras, canções, identidades. No meu caso, essa rua foi a Cardoso de Almeida, em Perdizes. Até hoje, trinta anos depois, as amigas lembram da época da Cardoso, das festas da Cardoso, da turma da Cardoso. É uma metáfora, na qual Cardoso de Almeida toma o lugar de juventude.

Fernanda Pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

13 comentários:

celia.musilli disse...

Fernanda, adorei sua ideia e seu texto sobre os nomes de ruas...e vou linkar vc de novo ao meu blog. Apareça: www.sensivelldesafio.zip.net


Bjs

maíra disse...

Fernanda é sempre muito gostoso ler os seus textos, esse em especial. Lembrei da infância que passei na rua com os primos, amigos as brincadeiras, a ida pra escola... a rua que descia pra encontrar um namorado, o texto permeou minha mente e meu coração com deliciosas lembranças. Obrigada!

Anônimo disse...

Que boniteza, Fernanda! Obrigado! julio gaspar

Anônimo disse...

Parabéns Fernanda. Buliu com meus sentidos. Odeio o fato de a avenida São João estar tão desfigurada e mudar de nome pelo menos umas cinco vezes. E a Rua Augusta, quanto nomes tem? Nunca me conformei com esse tipo de imbecilidade. Beijos Paulo Cannabrava

Regina disse...

Fernanda, adorei seu texto. Tava pensando nisso outro dia e na tristeza de duas ruas, a Manuel Bandeira, na região do Ceasa, onde habitam desmanches de caixotes e esgoto a céu aberto, e a Guimarães Rosa, escondidinha entre a Caio Prado e a Pça Rossevelt. Sem falar na passagem Tom Jobim, na região da Luz, uma tristeza só. Beijim Reca

Anônimo disse...

Fernanda adorei a matéria! Ontem estava no mêtro, linha azul, e descobri que a estação Jardim São Paulo virou Airton Senna. Hoje leio estes parágrafos que tem tudo haver com o que senti ao escutar o novo nome. Beijos Adriana

Bel disse...

Fê querida
Obrigada por mais esta viagem.
Desta vez pelas ruas de São Paulo, passando pelo "nosso" Parque Santa Madalena, "antônimo" da Vila...
Lembrei das ruas da minha infância: Rua 34, Av. 05, Rua 26, Rua 28... e que um dia viraram Planalto dos Acantilados, Palmeira de Bacaba, Boleadeiras e tantos outros nomes de lugares que nunca tínhamos ouvido falar e a maioria não saberia escrever. O resultado é curruptela dos nomes, dando certo trabalho aos carteiros, quando o remetente esquece de colocar "antiga 34", "antiga Av. 5"...
Beijos

Voleta Rocha disse...

Fernanda querida,
Como sempre, seus textos me emocionam.
Beijos,
Voleta

Julio Wainer disse...

O tempo passa e a gente fica imaginando quantas histórias se acumulam a partir das ruas depois de anos de sua criação, décadas e séculos. As ruas acumulam vidas, episódios e pequenas vivências infinitas, sobretudo vindas das crianças que nelas crescem...
beijo,
Julio Wainer

Anônimo disse...

Cada texto seu que leio, penso: esse é o melhor! Dessa vez superou! Maravilhoso!
Parabéns!
Graça

anigram disse...

fe querida,
morri de rir. que delícia, rsrsrsrsr
vi você. contando. adorei.
e o último paragrafo então foi fulminante..
acho que vou ter que falar pessoalmente mesmo. é muita emoção.
viva a cardoso e os tempos da cardoso.
beijo terno,
fã forever
:)

Anônimo disse...

A Cardoso foi a rua que marcou minha terceira juventude;já separada,com 2 filhos,mas jovem e cheia de energia e amor prá dar. A primeira foi em Resende,a segunda foi no Rio que,por sinal,quando você e eu nascemos,no glorioso ano da cabra,era Distrito Federal,depois (entre 60 e 75) Estado da Guanabara e finalmente capital do Est. do Rio de Janeiro. As coisas sempre mudam. Beijão. Myriam

Redes disse...

FÊ querida,
É com afecto que partilho contigo o gosto de ter passeado contigo nas ruas de São Paulo a pensar nas ruas das nossas vidas.
Um abraço
Paula de Portugal

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