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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Cruz Credo!

No mar quase infinito de imagens, algumas de tão vistas viram marcas nas nossas mentes. Uma espécie de segunda pele. O sorriso da Monalisa, o bigodinho de Hitler, o cogumelo de Hiroshima, os aviões atravessando as Torres Gêmeas, o gol do uruguaio Alcides Ghiggia na final da Copa de 1950.

Mesmo os que estavam longe de encarnar, já viram o pé, o chute; a bola estufando a rede, o goleiro Barbosa curvando-se. Ouviram o Maracanã silenciar incrédulo e chorar crédulo. Em Sampa, o imperdível Museu do Futebol tem uma sala exclusiva para passar o filme dessa derrota. Assustador. A sala parece uma morgue.

Como o Brasil precisava apenas empatar, a euforia era tremenda. Governo, imprensa, população embarcaram na canoinha furada de cantar a vitória antes dela mesma. O roteiro do jogo é conhecido: o brasileiro Friaça abriu o placar. Schiaffino empatou para a Celeste. Aos 34 minutos do segundo tempo, Ghiggia liquidou o riso. Uruguai 2 x Brasil 1.

O Maracanã, erguido especialmente para Copa de 50, sendo na época o maior do mundo, tremeu. Não de alegria. Tremelicou de decepção. Meu pai, então com 20 anos, estava lá. Tornou-se, junto com mais de 190 mil pessoas, testemunha ocular e sonora do pior desastre futebolístico do país.

Naturalmente, os uruguaios deliraram. Apelidaram o acontecido de Maracanazo e jamais esqueceram o 16 de julho em que, contra todos os prognósticos, se tornaram bicampeões do mundo. Pouco importa que depois não tenham repetido o feito. No país vizinho, a história dessa vitória é repetida de pais para filhos. Toda vez que as duas seleções duelam, a palavra Maracanazo é evocada como um mantra.

Mas tudo isso é passado, água rolada, ponte derrubada, fósforo queimado. O que significa dizer, aquilo que não é possível mudar. Aquilo que só pode ser contado e contado. Melhor é focar no futuro. O novo, o bem-feito, o brilhante. Futuro que só pode ser imaginado e imaginado.

No caso do futebol, o futuro é a Copa de 2014. Até lá, o Brasil tem uma caprichosa lição de casa: construir os novos estádios, melhorar a infra dos aeroportos e estradas, resolver a equação do trânsito, aparelhar a rede hoteleira, ficar de olho na segurança, concluir a reforma do Maracanã. Este mais uma vez será a arena da grande final.

Porém não é o bastante. Precisa muito além de cimento, argamassa, ferro. Precisa de uma seleção que nos faça sonhar. Para disputar a Final, ela terá que melhorar muitíssimo seu presente. Pois até agora o que vimos é um time sem jogadas, sem ímpeto, sem inspiração. E, principalmente, sem gols!

Já a Celeste traz a memória fresca do quarto lugar na última Copa do Mundo, a taça da Copa América 2011, e anda liderando as eliminatórias sul-americanas. Tremam corações ao imaginar o Uruguai levantando o caneco no mesmo Maracanã, com o detalhe de 64 anos depois.

Segurem-se corações ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, daqueles que choraram em 1950, chorando novamente. Ao imaginar os netos, bisnetos e até tataranetos, dos que festejaram em 1950, refestejando um Maracanazo 2.

Fernanda Pompeu, escritora e redatora freelancer,colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

5 comentários:

Anônimo disse...

VIRA ESSA BOCA PRA LA ! ACABEI DE SER "SUBSTITUIDA POR UMA URUGUAIA NO MEU EMPREGO ,POR QUE PRECISEI VIAJAR PRO PARTO DA MINHA FILHA NA HOLANDA.BJA LY

Edson Parisotto disse...

Hoje, arrumando meus alfarrábios, achei uma preciosidade de 2006: 64 de Fernanda Pompeu, com sua dedicatória para minha filha mais velha, a Tamires, feita no lançamento do livro aqui no clube Satélite. Tamires tinha apenas 9 anos. Quanta coisa aconteceu desde então. Tenho um profundo carinho e respeito pelo seu pai, e sinto muito a falta de nossas longas conversas políticas. Desejo, sinceramente, que ele esteja bem. Agora com licença pois vou reler 64. Saudações PeTistas, companheira.

Anônimo disse...

Ahhh Maracanã 1950! Nasci em 60, mas ouço esta história a muito e muito tempo. Chega arrepia pensar numa final no Maracanã novamente. Adorei o texto. Amo futebol. Espero um dia ver as nossas Meninas vencendo um Mundial aqui no Brasil, e porque não no Maracanã. beijos Eugenia

Sergio Farias de Olieira RG M-6.648.158 disse...

Olá Fernanda sou de 67 não estava lá mas este fato aconpanhei nos meios de comunicação.
Mas o fato que me chama a atenção!É que na minha região do Pontal do Paranapanema tem milhares de terras devolutas com o cana de açucar com o ETANOL a CR$2,03 o litro!

Anônimo disse...

Ué, mas Deus não é brasileiro?

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