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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

Grandes encontros



por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

A convivência nos espaços comuns e públicos implica um exercício constante de observação, respeito, tolerância e paciência. Dá trabalho, mas sem ela a vida fica muito sem graça. Se eu só convivo com gente conhecida, que vive uma vida parecida com a minha, ou com quem já estou de acordo, que pensa e age como eu, a conversa vai ficando aguada, a energia mingua. Afinidade a gente precisa ter, mas é com os amigos, os poucos escolhidos.

Talvez por isso me seja tão difícil seguir uma ideologia política, uma religião, ou frequentar grupos fechados de qualquer natureza, sejam de funcionários internacionais, gays, lésbicas, negros, arianos, feministas, evangélicos, católicos, veganos, petistas ou qualquer outro. Sempre me dão a sensação de que a mistureba lá fora é bem mais interessante e divertida. E apronta das suas. Todo mundo tem suas histórias de gente espaçosa ou inconveniente.

Viajando de São Paulo a Campinas de ônibus, meses atrás, eu e todos os outros poucos passageiros acompanhamos involuntariamente uma longa negociação sobre as obras de reforma de um escritório, cuja dona tratava ao celular, a viagem inteira, como se nada. Alguns anos antes, provando roupas numa loja, entreouvi uma mulher dizendo que poria o nome de Saddam Hussein no filho que esperava, por sua enorme admiração pelo dito cujo.

Esta me aconteceu em Cuernavaca, no México. Havíamos chegado, um grupo de mulheres de diferentes países, para uma reunião de trabalho, que começaria na manhã seguinte. Era domingo à noite, e todas nos encontramos no restaurante do hotel para jantar. Muitas já nos conhecíamos, umas doze pessoas, e acabamos sentando todas juntas. O papo rolava solto, até que começou uma conversa de criticar e ridicularizar os homens, algo que as pessoas em geral associam facilmente às feministas. Havia várias ali, mas posso assegurar, com conhecimento de causa, que falar mal dos homens não é uma prática frequente nem apreciada nesse meio. Isso é coisa de gente ressentida e mal resolvida, feminista ou não, e se aplica também a homens que se juntam para desqualificar as mulheres.

Fui ficando, na expectativa de que o assunto mudasse logo. Como isso não aconteceu, me mandei dali. O caminho até o meu quarto era ao ar livre, entre jardins bem cuidados. Logo notei outra pessoa andando na mesma direção e me dei conta de que era uma mulher do grupo, desconhecida para mim. Ela me alcançou e nos apresentamos. Constatei que se tratava de uma nova colega, mexicana, recém-chegada à minha organização. Comentei do meu incômodo com o assunto do grupo, e ela me disse que havia saído pelo mesmo motivo. Começamos a conversar uma conversa que dura até hoje, mais de dez anos depois, sobre tudo quanto há, salpicada de encontros em diferentes lugares, visitas mútuas, incrível cumplicidade e muitas garrafas de vinho tinto. Amigas de infância.

Então, enquanto andamos por aí, vivendo e convivendo no trabalho, na rua, no supermercado, aguentando malas sem alça, ouvindo comentários banais ou babacas e conversas às vezes divertidas, eventualmente atravessadas, podem acontecer grandes encontros, que tornam tudo mais fácil e gratificante. E fazem toda a diferença. Aposto que já aconteceu com você.

* * * * *

*Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

2 comentários:

Anônimo disse...

Como è bom ter amigos .E eles surgem, na maioria das vezes, do nada, vindos do alèm ao nosso encontro. Tenho amigas e amigos de 30,40 anos cujas presencas alegram o passar do tempo.
Boa ideia,Junia.Mais um momento de leitura agradavel.
Beijos da Mummy Dircim

leila disse...

Bom demais o texto como sempre, Junia! Quer coisa melhor do que essas amizades cultivadas ao longo dos dias, meses e anos? Nos deliciamos com elas e a leveza que trazem às nossas vidas. Não sei qual a magia que elas encerram, mas sei que posso ficar meses e até anos sem ver uma amiga, mas quando a reencontra, parece que a vi ontem ... bom demais! Beijos pra ti e pra Mummy Dircim, uma amiga mais do que especial!

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