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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Querida Bety


por Carlos Conte      ilustração Marcelo Martins Ferreira*

Querida Bety, conheci você há alguns anos, dentro de um sebo no bairro de Pinheiros. Seu nome está na folha de rosto do livro que eu comprei, “6 propostas para o próximo milênio”, do Italo Calvino: “Bety, espero que me perdoe. Feliz 92. Te amo demais! Alfredo. 31/12/91”, diz a dedicatória. Livro especial, sem dúvida. O Alfredo, além do bom gosto, tinha ótimas intenções ao lhe ofertar esses valores literários que o Calvino transmitiu para as gerações do novo milênio. O que o Alfredo te fez, Bety? Alguma mancada grave? Para o livro ter ido parar na estante do sebo, acredito que sim. Com certeza quis apagá-lo da lembrança. Você não o perdoou.

Confirma minha hipótese o fato do livro estar praticamente novo. Mais de 20 anos depois, Bety, e nenhuma folha amassada, nenhuma orelhinha sequer... Você não leu esse livro, tenho certeza. Tivesse lido, teria deixado algum sinal. E olha que eu sou atento! Consigo divisar um vestígio em livro como poucos. Aliás, confesso, tenho mania por livros usados. Dizem que cada qual tem a sua. Ou até mais de uma. No meu caso, livros usados. E por isso não ligo para rasuras, como a maioria. Para mim, é interessante saber como um desconhecido leu as mesmas palavras que eu estou lendo. Comentários marginais, exclamações, interrogações – ah, como pode esse cara não entender esse parágrafo!... Me divirto.

Só me deixam angustiados os trechos grifados, alguns marcados com asteriscos, que eu leio, releio, e não entendo. Como pode alguém ter encontrado tanto sentido nessa parte tão difícil?... Nessas horas, Bety, tendo a me considerar um mau leitor. Desatento. Limitado. Meio burrinho, se é que você me entende.

Tudo bem. Quem sabe um dia, pegando de novo o bicho, eu entendo. Vou passar pelas mesmas linhas, pelas mesmas frases, e me deparar com as interrogações aflitas que eu mesmo rabisquei anos atrás. Dois Carlos, enfim, se encontrando, separados por um intervalo de cinco, dez anos. E aí, Bety, nesse encontro inusitado, vou olhar com indulgência para as minhas garatujas preocupadas de outros tempos, minhas antigas marcas da adolescência.

Já ganhei trevos de quatro folhas, recortes de jornal, fotos pessoais. Objetos esquecidos no meio de livros. Livros que foram parar em sebos, não se sabe por quais circunstâncias da vida: desinteresse pela leitura, falta de grana (caso de quem vende parte de sua biblioteca para levantar algum), falta de espaço, mudança de endereço, falecimento.

No seu caso, Bety, deduzo que tenha se livrado do livro por falta de amor. Mas também pode ter sido por excesso. Sim, excesso de amor é uma hipótese plausível. Isso já aconteceu comigo mais de uma vez. Para me livrar completamente de uma pessoa que eu amo demais, mas que preciso esquecer de qualquer maneira, já que esquecê-la é a única maneira de tornar a existência suportável, preciso jogar fora todos os seus vestígios materiais: chinelos, presilhas de cabelo, cartas, calcinhas, presentes... Livros, dentre os presentes, têm importância especial. Afora as pessoas que escolhem livros como quem escolhe meias numa gôndola de supermercado, presentear com um livro geralmente requer sensibilidade, sofisticação. Não é um presente qualquer. Acertar na escolha de um livro significa que se está em sintonia com a pessoa presenteada. Quase telepatia. E há livros que, de tão especiais, acabam se tornando marcos de um relacionamento: positiva ou negativamente. Exemplifico. Num momento de fogo, de grande libertação, inclusive sexual, quando viajávamos e nos descobríamos, comprei para uma ex-namorada On the Road, do Jack Kerouac (que ela não leu). No final do namoro, simbolizando a lápide fria da inércia típica do final de um relacionamento, ela me deu de presente de aniversário um dicionário (extremamente útil, um Houaiss tamanho grande, completo, atualizado com a nova grafia), mas um dicionário.

Sabe, Bety, no seu lugar não teria me livrado do livro, como você fez. Apagar o Alfredo da memória talvez fosse mesmo inadiável, mas não em troca de um ótimo livro, como esse do Calvino. Poderia, em vez disso, ter rabiscado a dedicatória, ou arrancado a folha de rosto. Por causa do Alfredo? Não deve valer grande coisa... Ao menos deveria ter ficado com a literatura. Mas aí eu nem te conheceria. De qualquer maneira, espero que tenha passado um feliz 92, querida Bety.

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Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto. Ilustração de Marcelo Martins Ferreira, design e músico, especial para o texto

3 comentários:

Maurício Seabra disse...

O olhar que você passa no texto é íntimo e honesto. Adorei a crônica!

Betty Boguchwal disse...

Como sempre, excelente e tema originalíssimo.
Parabéns!

disse...

Adorei! Muito delicado.

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