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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 7 de março de 2014

Estranha Brasília


por Júnia Puglia     ilustração Fernando Vianna*

Nesse Carnaval manso aqui de casa, o enredo é ficar à toa, ver filmes, levar um papo com quem aparecer, mandar boas energias para as pessoas queridas que estão se recuperando de abalos na saúde, corujar os bebês próximos, curtir os distantes nas fotos, essas coisas.

Rola uma folia animadora lá fora. Nos últimos anos, os blocos ganharam fôlego aqui em Brasília, que tem fama de ser fraca de samba, pura intriga da oposição. É certo que o traçado da cidade não favorece muito, mas querendo se encontra bom Carnaval para todos os gostos. Eu é que sou mais da preguiça.

Minhas quatro décadas de brasiliense há muito me ensinaram que não se vive aqui impunemente. Sobre nós se acumulam erros de interpretação, alguns já clássicos. Meses atrás, eu perambulava pela avenida Paulista e entrei numa ótica para me informar sobre determinada armação. Como forasteiros sempre trazem um carimbo na testa, o senhor que me atendeu fez a inevitável pergunta sobre de onde eu era. Foi só ouvir a palavra Brasília, disparou: é, lá se rouba muito, né? Respondi: sim, e aqui também. Desconcertado, ele voltou para as armações. O clássico comentário de que “Brasília é cheia de políticos corruptos” merece a boa resposta de que “todos foram eleitos pelo país inteiro, ou nos seus lugares de origem”.

A capital reflete o país, e nem podia ser diferente. Nos últimos tempos, com ruas abarrotadas de carros, contaminada pela insegurança urbana em suas formas mais agressivas e pela caretice mais tosca. Tempos muito estranhos, esses que estamos vivendo, com o perdão do clichê.

Como o lugar novo que era, para mim esta cidade significou, quando aqui desembarquei, na efervescência dos dezessete anos, uma lufada de ar fresco, cujos efeitos duraram muito tempo. Apesar do isolamento geográfico de então, da ditadura militar e da estratificação característica dos lugares previamente planejados, havia aqui um cosmopolitismo em terra vermelha, feito do impulso de se lançar no mundo, origens embaralhadas e gosto pelo novo. Não se preocupar com a vida alheia e conviver bem com ela era uma premissa básica da cidade, pois o velho, o tradicional, o familiar tinham ficado na província. Como desperdiçar tamanha oportunidade de auto-reinvenção? Eu e mais um monte de gente nos jogamos com muito gosto na tarefa.

Antes de escorregar na casca de banana da apologia vazia, que aqui se ouve com certa frequência, ou das críticas oriundas das comparações de contextos urbanos, sempre problemáticas quando se trata de Brasília, quero deixar claro o que me motiva neste momento, que é a formação de uma onda sinistra. Temos tido agressões homofóbicas violentas e gratuitas em sequência, racismo exacerbado e anunciado na base do grito, um crescente puritanismo religioso de conveniência, que tem reforçado um conservadorismo político primário baseado em confrontos, violência escabrosa de cidade grande, ufa! A rigor, nenhuma novidade, mas é a onda que me intriga. Não por acaso, ela coincide com a ressaca dos protestos de junho passado e com este ano maluco de Copa do Mundo e eleições nacionais.

Brasília, lembre-se de si mesma, de como éramos mais inteligentes, mais generosos e menos tolos, de como sabíamos lidar muito melhor com o novo e com o diferente. Pensando bem, acho que os brasileiros todos éramos, e não posso aceitar passivamente que estejamos andando para trás.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

6 comentários:

leila disse...

Como sempre, um excelente texto reflexivo e inteligente! Ah se soubéssemos todos acolher a sabedoria como nossa conselheira! Parabéns, Júnia! Sou tua fã! bjks

Anônimo disse...

Ah! Nossa Brasília de 40,50 anos atrás! Não pense que é saudosismo barato nem conversa à toa das mulheres menos ocupadas de então. É, antes, a reflexão penosa ,ora mostrada, dos efeitos da ganância de uns em detrimento, é claro, dos outros. Ninguém mais pensa no vizinho desconhecido ou no político "exemplar ? " que trabalhava com afinco, como vi, por um Brasil maior e melhor. A violência trazida pelos recentíssimos meios de comunicação, essa que dá 15 minutos de glória ao nome do bandido mais recente, invadiu o senso comum; a velocidade nas ruas e estradas levam ao desespero, ao cemitério ; a corrida atrás do ganhar mais e sair no jornal do dia enchem de torpeza o coração dos que para cá vieram em busca do nada. Nós, os primeiros a chegar, somos vítimas da discriminação da Brasília dos mensaleiros, dos anões nunca punidos, do triste campeonato da morte de inocentes e das mil mazelas daqueles que o povo brasileiro manda para cá. Será que nesse ano de Copa e eleições o povo vai ter tempo para pensar em nobreza de sentimentos e atitudes? Duvido, infelizmente.
Parabéns, Junia, pelo enfoque tão real e dolorido de nossa amada Brasília.
Beijos da Mummy Dircim

Raquel Teixeira disse...

Não podemos aceitar, Júnia, esse retrocesso que acontece visivelmente! Mas o que fazer para mudar em uma época em que se tem um país alienado e exausto de injustiça? É meio difícil ser otimista hoje.
Obrigada pelo artigo! Abraço!

Anônimo disse...

Ontem, diante de tudo isto que você tão bem comenta, estava me perguntado o que fazer - além, é claro, de cumprir a minha parte como cidadã, uma vez que as pessoas têm realmente a reação mais fácil: nos chamar de saudosistas, se trazemos essas "memórias" à tona... Beijão e obrigada por externar tão bem o sentimento de tantos! FF

Montanhas, mares e culturas disse...

É isso ai! É o país todo que vota e não somente Brasília! Se tem roubalheira é falta de consciência em votar! Aliás, de onde saiu Tiririca mesmo? (risos)

Anônimo disse...

Substituo o nome da cidade, até do pais, ajusto a idade em que cheguei aqui - fica tudo igual: o traçado das ruas, o trânsito entupido de automóveis, as gentes que passam invisíveis, apenas si mesmas! Que cidade é essa? Oque mudou? Seria a cidade ou quem sabe sou eu...

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