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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 28 de março de 2014

Redemoinho


por Junia Púglia    ilustração Fernando Vianna*

No final dos anos setenta, morei uns tempos no Rio, trabalhando no apoio à produção de um programa de TV evangélico. Sair de casa e encarar a vida adulta, um sonho acalentado fazia tempo, foi a confirmação do meu pendor por desafiar o previamente definido e as expectativas sobre mim. Ao desembarcar no Rio, eu era uma pirralha de vinte anos metida a gente grande, que tomava e executava decisões radicais.

Tempos complicados aqueles, com coisas demais pra aprender, absorver e rearrumar. O redemoinho interno girava, parava alguns segundos, girava mais, desorganizava mais, girava mais um tanto, invertia o sentido e me apertava. Foram muitas horas sentada num banco de frente para o mar em Ipanema, nas tardes de sábado, vestida da cabeça aos pés, olhando o movimento das ondas e tentando dar nome ao que sentia. Eu não era, aliás, não sou, dada a rompantes emotivos. Sou das que viajam doze horas de carro, com muito gosto, mas não encaram vinte minutos numa montanha russa, nem mesmo ao lado do George Clooney.

Passados alguns meses, comecei a participar de um grupo de conversação em inglês, uma vez por semana, no horário do almoço. De maneira simples e eficaz, um artigo de revista lido em voz alta dava o mote para a conversa, facilitada por uma norte-americana. Foram poucas reuniões, porém, apesar de breve, aquela foi para mim uma experiência singular.

Na primeira vez que, motivada pela conversa, comentei referências e fatos da minha vida, ainda que de maneira superficial, tive a nítida sensação de estar falando de outra pessoa. Como se ao mudar o idioma eu tomasse distância de mim e assim pudesse me ver de forma mais objetiva e generosa, daquele jeito que nos veem as pessoas a quem damos acesso ao nosso lado de dentro. Como se, em pleno giro, se abrisse uma fresta no redemoinho e eu pudesse vislumbrar o que estava lá bem no centro dele, mas que só se revelou claramente muito depois.

Sem saber, sem nem desconfiar, eu embarcava no trem do autoconhecimento e iniciava uma viagem só de ida, às vezes trágica, às vezes cômica, sempre intensa, inescapável, que transforma tudo, inclusive os redemoinhos e as lembranças.

* * * * * * 

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

4 comentários:

Anônimo disse...

Gosto muito qdo vc nos apresenta, de modo interessante e despretensioso, uma "porção" de Júnia. Além do valor das palavras q tão bem articula e rege, há esse lado q vc desvela como só mesmo gente transparente como vc pode fazer. Ah, quer saber? Vou escancarar: sou mesmo sua FÃ!
Terê

Derrel Homer Santee, disse...

Foi bom caminhar com você num pequeno trecho desta viagem do auto conhecimento.

Anônimo disse...

Descoberta preciosa,generosa, que nos tem mostrado uma Júnia resistente ao furor do próprio furacão que no-la revelou. Bendito redemoinho !!
Kisses from Mummy Dircim

Montanhas, mares e culturas disse...

Aaah! Rio de janeiro e Junia juntos! Claro que é uma viagem!

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