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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 2 de maio de 2014

Flores de abril


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Em 1974, íamos em meio a uma longa noite no Brasil. Bisbilhoteira e com uma fome de mundo que não tinha tamanho, eu fuçava tudo o que podia para obter informação do que acontecia fora dos limites da nossa vidinha pequenininha. A escola, coitada, patinava em métodos e conteúdos pré-históricos, enquanto eu cada dia odiava mais a tabela periódica e as identidades trigonométricas.

Comecei a frequentar o diretório acadêmico da faculdade de filosofia estadual que, felizmente, havia na cidade. Meus pais eram alunos do curso de letras, o que de certa forma facilitava a minha entrada ali. Sempre tinha alguém jogando ping-pong, truco e conversa fora. A atividade política estudantil estava amordaçada, sob a constante vigilância dos milicos e seus muitos apaniguados. E ninguém ali me dava muito papo. Mesmo assim, era um lugar onde tocava MPB o tempo todo e eu podia respirar um ar de pequenas transgressões. Lembro de um aluno de literatura, gay assumido, naqueles tempos tenebrosos, com um bustiê vestido sobre a camiseta mais curta do que deveria, sentado num sofá, fazendo tricô e cantarolando Drama 3o Ato, junto com Bethânia.

As revistas Manchete e O Cruzeiro, cheias de fotos, me traziam um pouco do mundo lá fora. Numa delas, soldados trocavam cravos vermelhos com as pessoas na rua, entre tanques de guerra e muita gente. A matéria era sobre um levante militar em Portugal, que havia encerrado uma ditadura de várias décadas. Então as ditaduras acabavam? E não existiam só aqui? Havia outros lugares no mundo onde as pessoas sentiam o mesmo que eu?

Chegou à cidade um show de Vinícius de Moraes, Toquinho e Marília Medalha, seguindo um “circuito universitário”. Como não havia teatros – o nosso belo Municipal havia sido recentemente demolido pra abrigar o novo arranha-céu da prefeitura, numa onda obscurantista que assolou o interior paulista –, o show aconteceu num cinema. O bilheteiro, penalizado com a minha cara grudada no vidro, do lado de fora, porque não tinha um tostão furado, me abriu um vão, quando o espetáculo estava começando, e eu voei pra dentro, incrédula da generosidade do cara, mas sem hesitar um segundo. “As cores de abril, os ares de anil, o mundo se abriu em flor” e tantas outras. O cinema lotado, todo mundo de pé, cantando junto e dançando, inesquecível.

Meses depois, conheci “Grândola, vila morena”, cantada por Nara Leão, numa coletânea da série “A arte de”. A batida das botas dos soldados, a voz ao mesmo tempo firme e delicada, o coro que a acompanha em algumas estrofes da canção que fala do povo dando as ordens na cidade, fiquei arrepiada, emocionada. Ouvi muitas vezes o disco de vinil, na vitrola portátil que comprei, já em Brasília. Mas ainda demorou um bom tempo, até que eu juntasse a Revolução dos Cravos com a canção do Vinícius e a gravação da Nara.

Acabei de ouvir a mesma gravação, via YouTube. De olhos fechados, o mesmo arrepio me sobe do dedão do pé até a raiz dos cabelos, celebrando a liberdade numa canção ao mesmo tempo tímida e poderosa. Faltam-nos cravos vermelhos, música e a vontade do povo, senhoras e senhores ocupados em “pacificar” o Rio de Janeiro e salvar o Brasil do vexame global que nos aguarda ali na virada da esquina.


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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

6 comentários:

Anônimo disse...

Alma e infinito - "grandezas imensuráveis". É nesse espaço que voeja a ânsia do saber, do conhecer, do viver da Júnia. Agora consigo compreender
um pouquinho sua eterna busca.
Com você, desejo que surjam senhores e senhoras em condições de levantar a bandeira brasileira e gritar ": Quem for brasileiro que me siga", num gesto de grandeza que extrapole as ninharias que rolam por aqui.
Ser grande de alma, desprendido, pronto para a busca do melhor a cada dia me parece algo que não está na agenda dos "líderes" que surgem a cada momento.
Deixe sua alma solta, livre, leve, voejante .Voar é preciso, não só navegar.
Beijos da Mummy Dircim

Anônimo disse...

"Grândola, vila morena, terra da fraternidade..." Sim, essa música arrepia... A de Toquinho e Vinícius eu não conhecia... Obrigada pela dica, tia! Um filme que mostra bem as 24h do 25 de abril, para quem se interessar, é o "Capitães de abril", de Maria de Medeiros. Assisti por ocasião dos 40 anos da Revolução este ano, e juntando com o seu texto de hoje, faz realmente pensar quantos "abrils" ainda são necessários, seja em Lisboa ou no Rio...
Um beijo da sobrinha, Martina.

Anônimo disse...

Querida Junia, gostei demais ...
cotando, desde Kiev.
...ontem como voce, meninos e meninas olham o passo das botas e os tambores, Hoje na Ukraina, no leste, sem eles saber, a lacra do odio avança fomentando a guerra cresce a cada amanhecer. A morte ronda os caminhos é,a tolerancia é um muito...
A situação neste lado do mundo é muito grave, o exército russo aguarda na fronteira a ordem do tirano pra avançar...Espero que não ocurra, caso contrario, a bestia do mal irrumpera com sua estela de sangue... "Deus nos acuda !"
Saudações,
Bernardo Carvajal

Júnia Puglia disse...

Obrigada, Bernardo! A Ucrânia é a triste "bola da vez", né? Espero que vocês fiquem bem.

disse...

UAU! FIQUEI SEM FÔLEGO! E MEUS OLHOS NADARAM... TÂ

Anônimo disse...

Arrepiada, emocionada,fiquei eu, também, ao ler o seu texto: contundente, visceral, verdadeiríssimo. Ju, vc se supera a cada novo trabalho.
Minha admiração ao Fernando pela bela e sensível ilustração.
Terê

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