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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Os motoristas e a família negra de carroceiros

por Cidinha da Silva*

A eleição de 2014 me teletransportou para a de 1989 por motivos pessoais e pelo que vi nas ruas. No primeiro plano, me senti compelida a apresentar minha alma e armas petistas, mais do que dilmísticas apenas. Além de garantir direitos e conquistas fundamentais via reeleição da Presidenta Dilma, não admito que queiram me coagir com falácias e discursos marqueteiros de "mudança", contrários aos princípios e valores que me orientam. Assim, os mandatários de sempre tentaram pongar nas manifestações de junho 2013, mas deram com os burros n'água.

Tenho um lado, sempre tive. Esses discursos ufanistas e acríticos de "união de todos" (venham de quem vierem) nunca ecoaram em meus ouvidos. A mim não é possível o argumento semi-ingênuo de que a diferença entre Aécio e Dilma, é que o primeiro é mais sorridente e um pouco mais liberal. Não, não é possível. Aécio é a velha raposa mimada que nunca arrumou a própria cama, foi alimentada com os melhores iogurtes, filé mignon, ovas de peixe e muita coisa inominável nas baladas, protegido por carteira falsificada de policial civil. Não suporto disputa política sem argumentos. Eu os tinha, os tenho e me vi motivada a colocá-los para jogo.

No plano da ação coletiva, eu e tantos milhões de pessoas quisemos sair às ruas e engrossamos fileiras do batalhão que experienciou mudanças positivas concretas no país desde que o governo dos trabalhadores foi eleito. Mudanças pelas quais muita gente morreu, foi torturada, desapareceu, enlouqueceu e nós, de diferentes gerações, também lutamos, sobrevivemos e cá estamos vivendo num país menos desigual e vislumbramos o aprofundamento das mudanças necessárias, a principal delas, a concretização de uma política de estado de combate ao racismo. Quisemos mostrar que sonhamos, mas temos juízo!

Quem é pobre e nasceu em 1989, provavelmente está concluindo a universidade pelo PROUNI, pelas cotas raciais, em 2014. Teve pais preocupados em não perder o emprego, em comprar quantidades significativas (dentro do orçamento limitado) dos produtos que estivessem em oferta no supermercado. Hoje, a preocupação deles é com o desempenho dos filhos no vestibular. Preocupam-se também em voltar a estudar porque querem acompanhar os filhos universitários, querem continuar a aprender e o cotidiano da universidade tornou-se papo frequente das famílias isentas de declaração de imposto de renda.

Diferente de 1989, vejo em 2014 um mosaico de pessoas negras defendendo conquistas sociais, das quais são beneficiárias diretas. Não só as que estão nas universidades, cada vez mais, compostas por trabalhadoras-estudantes, mas também aquelas que estão defendendo as conquistas desfrutadas pelos filhos e netos. É tão bonito vê-los conscientes de que este país é deles, lhes pertence, lhes deve uma vida melhor e os primeiros passos nessa direção estão sendo dados.

As pessoas que estão em cena, desempenhando papel protagonista, são gente como o motorista negro que abandona o ônibus no trânsito engarrafado pela manifestação política pró-Dilma no Recife velho, escala as janelas do coletivo até o teto, veste uma bandeira vermelha sobre o uniforme da empresa de transporte urbano e grita: eu faço faculdade pelo PROUNI! E a multidão aplaude o super-homem. Na Cinelândia, outro motorista faz o mesmo. Na Faria Lima, em São Paulo, o terceiro motorista negro entro em ação. Enquanto observa a passeata do PSDB transcorrendo em um dos centros comerciais mais ricos e ostentatórios da América Latina, cruza os braços sobre o volante e perscruta as centenas de pessoas. Vê um jornalista tomando notas e puxa conversa com ele: boa noite jovem jornalista! Ainda não, amigo, responde o rapaz, sou estagiário. É isso mesmo, já está se preparando. Mas me diga uma coisa, jovem, tá vendo algum preto aí nessa passeata? Quase nenhum! E pobre, gente com cara de pobre, roupa de pobre, tá vendo? Quase nada também, dois ou três. Pois eles estão ali, moço (aponta com os lábios para o ponto de ônibus lotado), estão ali detonados pela exploração diária, esperando essa porcaria de ônibus enquanto os patrões desfilam de terno, chamam a Presidenta de vaca e dão vivas à polícia me mata a juventude negra na periferia das cidades. As patroas? Olha lá, ostentam joias cercadas por guarda-costas e carregam aqueles cachorrinhos-quase-gente no colo. É ridículo! Só falta a espuma do banho de champanhe para fechar a festa.

Mais à frente, ainda em São Paulo, no Largo da Batata, passa um carrão daqueles que não sei o nome com uma placa enorme "Fora Dilma!" Ao lado dele, uma carroça puxada por um cavalo esquálido carrega três pessoas negras, uma mulher, um homem e uma criança. São magros, não parecem ter muita comida disponível, mas não têm a cara da fome. Vestem-se de maneira simples, mas as roupas estão inteiras, devem ser catadores de material reciclável. São portadores de uma tristeza curtida, como couro velho que de tanto apanhar fica maleável à dor. Estão cansados, foram 115 anos da Lei Áurea ao Programa Bolsa-Família, mais dez anos para chegar à PEC das Domésticas, em 2013. Na parte de trás da carroça, bem discreto, vejo um adesivo, "Dilma 13!" A esperança deles me contagia. Seremos maioria política e eu que já vi tanta mudança, viverei para ver essa.

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escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

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