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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 8 de março de 2012

vermelhos

Tenho para mim que a filha de um pastor evangélico, por mais ateia que se torne, nunca se sentirá confortável na profissão de stripper. Da mesma forma a filha de uma cozinheira, por mais apressada que esteja, nunca engolirá o slogan dos alimentos de caixinha: "Aqueça e Pronto". A filha de um pedreiro jamais dormirá segura dentro de uma barraca de camping.

É claro, quando adultos, vamos nos desprendendo dessas heranças fundamentais. Muitas vezes até nos insurgimos. Um caso é o do político Carlos Lacerda (1914-1977). Filho de um entusiasta do socialismo, seu nome é Carlos em homenagem ao Karl Marx e Frederico em homenagem ao Friedrich Engels. O Carlos Frederico Lacerda acabou entrando para a eternidade como um feroz anticomunista.

Cito o Lacerda por conta de uma lembrança anedótica da minha infância carioca. O ano era o fatídico 1964. Numa rádio, Lacerda fazia um discurso lambisgoio e laudatório ao golpe militar. Meu tio, sindicalista da cabeça aos pés, ouvia raivoso. Eu sempre gostei do nome Carlos e também para desafiar o tio Walter, gritei: "Viva o Carlos Lacerda!"

Então meu tio correu atrás de mim com um chinelão em punho. O alvo era o meu traseiro. Eu me safei daquela. Neta de tenentista, filha e sobrinha de comunistas, o que eu esperava? Ainda tem gente que pergunta se eu sou comunista. Respondo: só de família. Passadas tantas ideologias debaixo do meu nariz, o único ista de que não abro mão é o de flamenguista. Por enquanto.

Mas tal como a filha do pastor, a filha da cozinheira e a do pedreiro, sempre serei filha de um comunista. Sempre desconfiarei dos bancos e dos patrões. Agora se me perguntassem qual o sistema ideal, eu não titubearia: capitalismo para todos! Sonho que cada habitante da Terra, além de moradia, saúde, educação e de quatro refeições por dia, tenha direito a um iPad.

Ser filha de um comunista me trouxe muitas vantagens. Por exemplo, ter lido na adolescência os melhores escribas do século XIX. A brilhante literatura de Dostoiévski, Tolstói, Gogól, Tchecov. Tudo pela casualidade deles serem russos. Soviéticos, segundo meu pai. E desvantagens: só fui ler Borges e Nelson Rodrigues nos anos da faculdade. Meu pai e meu tio os vetavam por reacionários.

Na Escola de Comunicações e Artes da Usp, em 1977, me tornei ativista da Liberdade e Luta – tendência estudantil monitorada por uma organização trotskista. Entre as tendências, a Liberdade e Luta, Libelu, era a mais aguerrida e determinada no combate à camarilha militar. Porém, o mesmo ódio que dedicava à ditadura, dedicava aos militantes do Partidão – apelido histórico do Partido Comunista Brasileiro.

O PCB, através do meu pai e do meu tio, havia sido na minha casa tão reverenciado quanto é o Papa nas famílias católicas. Nunca me esqueço do dia que meu pai, com uma imensa mágoa, me mostrou um panfleto assinado pela Liberdade e Luta descendo o cassete nos velhos comunistas, acusando todos eles de stalinistas e traidores da classe operária.

Eu até que aguentei firme o embate entre a tradição familiar e a minha descoberta de juventude. Acho que o que eu queria, e ainda quero, era pensar livremente. Não demorei para perceber o sectarismo e autoritarismo dos dirigentes da Liberdade e Luta. Um belo dia, a direção decretou que marihuaneros e delirantes seriam expulsos da tendência estudantil.

Quem me salvou, naquela altura, foi o feminismo. Na época, deliciosamente libertário. Feminismo desprezado tanto pelo Partidão quanto pela Libelu, que insistiam que as reivindicações das mulheres eram blablablá burguês. A filósofa e ativista do movimento negro Sueli Carneiro uma vez me disse uma frase inesquecível: "Entre a esquerda e a direita, eu sou negra".

Daí parafraseei: Entre Josef Stalin e Leon Trotsky, eu sou mulher.
Hoje admiro as vidas de lutas do meu pai e do meu tio, ambos fiéis ao socialismo. Também trago boas lembranças da minha juventude libelu que, ao menos, me fez gostar de rock and roll e de certa irreverência.

fernanda pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas a coluna Observatório da Esquina. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

15 comentários:

Anônimo disse...

Minha querida Fernanda,
Eu gostei de suas reflexos; para mim também o feminismo foi o que me salvou, Parabéns!!!
kelva

Paulo Baroukh disse...

Que delícia de leitura, Fernanda!
Como é importante o resgate das raízes e das memórias. Tem um ditado africano que escutei certa vez de um estudante da USP de origem moçambicana que diz assim: "quem não sabe de onde veio, não pode saber pra onde vai". beijo. Paulo Baroukh

julio disse...

Então fui parar no segundo andar e não tem graça alguma, admiro meu pai por ser meu pai, não quero uma ideolgia para viver .

Anônimo disse...

Fernanda,
Poderia assinar essa sua trajetória como minha, incluindo o nascimento carioca, a família pecezão, o universitário libelu e o pensar por minha cabeça.
Minha paráfrase da Sueli Carneiro: Entre Stalin e Trotsky, sou gay.
Pode crer que em 77 devemos ter saído pelas ruas de Sampa juntos, pedindo democracia. Beijos,
Rogério

Fernando Evangelista disse...

Texto maravilhoso!

Anônimo disse...

ainda bem q vc citou em paragrafo abaixo q alem do seu sonho p/ todos e todas, vc quer pensar livremente... ainda bem!
maria angelica (postei como anonimo pq é + facil/rapido)

Marisa Ferraz disse...

Delicioso e perfeito post para este dia!
Parabéns!
Beijo.

CLinck disse...

Histórias...
Histórias são coisas p/ se desfrutar (sempre! - e pro diabo as contemporaneidades!). A genealogia da construção do que entendemos por realidade; coisa tão complexa, mas tão bem escrita e descrita desse jeito é... + 1 Gol de Letras!
Nas e-crônicas: sou FernandISTA. Valeu (de novo) Fê. Bj.

Anônimo disse...

É muito legal, Fernanda, você ter essa clareza sobre as coisas de tanto tempo atrás. Acho que minha cabeça de pós-adolescente ou adultescente era bem mais encaraminholada; os pensamentos saiam feito roupa quando sai de lavadora, enrolando-se uns nos outros, desde sempre amarrotados e sem o cheiro de amaciante. Parabéns prá você hoje e todos os dias. jsavio

Anônimo disse...

me fez lembrar o que cantávamos para a "turma" da libelu: "me bate....me chuta...sou liberdade e luta" heheh, saudades...apareça em Antonina. bjs. tania

Anônimo disse...

é isso ai, fernanda o que nos dá conforto e confiança é saber de que lado estamos, o que é legitimo nosso, é nosso o que construimos,pois isso ninguem nos rouba.Ser e estar mulher no mundo é revolucionario, contemporâneo,acho que o feminismo salvou e salva muitas mulheres, inclusive nós. dinalva tavares

Anônimo disse...

Oi, Fernanda.

Humberto Werneck, num prefácio ao livro Farewell, conta que Carlos Drummond de Andrade carregou até a morte, na carteira, um papelzinho com a seguinte inscrição: "Recordações da Mamãe 1. Não guardes ódio de ninguém; 2. Compadece-te dos pobres;
3. Cala os defeitos dos outros." Quer exemplo mais eloquente do que você diz nesta crônica?
Abraço, Carlos Machado

Anônimo disse...

Eu nunca havia pensado em ser stripper... valhamedeus!
Júnia

Anônimo disse...

AMEI Nanda !! SEMPRE PENSO NISSO TAMBEM .CRESCENDO DURANTE A DITADURA COM COMUNNISTAS SEMPRE DESCONFIO DE BANQUEIROS ,BURGUESES ,RELIGIOSOS E RAPIDISSIMO SENSO UM REACIONARIO !

Anônimo disse...

Brilhante texto! Você é ótima. Fredo Sidarta, SP

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