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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 9 de março de 2012

Em silêncio

Tomando o café da manhã num hotel, durante um evento de trabalho, compartilhei a mesa com uma ex-jogadora da seleção brasileira feminina de basquete. Enquanto rolava uma conversa de praxe entre pessoas que não se conhecem, ela fez um comentário que me incomodou muito.

Disse que na noite anterior, enquanto jantava num restaurante, observou um casal de uma mesa próxima, que “era um daqueles casais cujo casamento já acabou há muito tempo”. Esperaram a comida calados, comeram em silêncio.

Não foi a primeira vez que ouvi um comentário desses sobre situações semelhantes. Às vezes, acontece mesmo de vermos por aí casais ou famílias inteiras comendo juntas sem que se observe qualquer conversa ou outra expressão de que alguém está curtindo o momento.

É bom que se diga que os restaurantes não são necessariamente lugares de intensa conversa ou troca afetiva. No entanto, é muito comum e normal que sejam usados pra isto.

Mas o que me chamou a atenção no comentário foi concluir que se tratava de uma relação acabada, um caso perdido, porque as pessoas não conversavam. Talvez esta pessoa não saiba que, em relações muito antigas, conversar já não seja tão necessário, pois estar junto pode ser suficientemente bom, confortável e prazeroso.

Ter que conversar sempre pode ser tão chato e forçado quanto qualquer outra coisa que se faça apenas para preencher o silêncio, que pode ser um vazio insuportável pra muita gente.

Trocar ideias, comentários, impressões, fofocas, opiniões, confidências, contrariedades, sentimentos também deve ser um exercício prazeroso e, sobretudo, espontâneo.

Não conversar, de maneira nenhuma significa que tudo acabou.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.

11 comentários:

fernandapompeu disse...

É verdade. Aliás, compartilhar em silêncio é uma conquista que só a intimidade oferece.

Lipuglia disse...

Concordo, muitas vezes o silêncio pode dizer muito mais que uma conversa, principalmente num relacionamento onde as palavras já nāo são tão necessárias. Bastando apenas um olhar!
Beijos

Anônimo disse...

Há que se dizer que nós, seres humanos, estamos desaprendendo a ler a fala gestual das pessoas que estão em silêncio. Palavras são apenas uma parte da nossa comunicação, e nem são as principais.
Márcia Ester

leila disse...

Interessantíssimo o seu ponto de vista, Júnia... Enquanto a maioria das pessoas pensa que o amor só se expressa através de palavras, gestos e toques lá vem você com um novo olhar para uma situação corriqueira.
A paz e a calmaria do silêncio falam tantas coisas na vida a dois onde a cumplicidade e o companheirismo estão sedimentados pelos dias, meses e anos de convívio.
Parabéns pelo texto mais uma vez! bjus

Anônimo disse...

ó que me incomoda muito são as pessoas que estãojuntas, casais ou não, em locais públicos estarem constantemente falando no celular!!! Me obrigando, inclusive, a ouvir o que não estou afins de. Transformaram os restaurantes, bares,consultórios médicos em escritórios particulares.Saudades de quando era possível ler,nos locais públicos, sem incomodar nem ser incomodada por outros.

Montanhas, mares e culturas disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Montanhas, mares e culturas disse...

Realmente, o silêncio não pode estar associado ao julgamento de algo acabado ou de falta de intimidade. Muitas pessoas se incomodam com ele. Inclusive quando estão sozinhas em casa, a ponto de ligar a TV ou o rádio como forma de companhia. Ao mesmo tempo, não podemos afirmar de que o silêncio não seja um indício de que algo vai mal. Beijossssssssssssssssssssss! Marina Ribeiro

Melina Savi disse...

Apoiada, bela reflexão.

Rodilon Teixeira Photographer disse...

"Falar é prata, calar é ouro". Realmente a vida em nossa sociedade ocidental é muito influenciada pelas aparências, quando é considerado como "normal" estar sempre falando, alegre e feliz, ou seja, tudo perfeito como em um conto de fadas ou nas novelas da tv. Parabéns pelo texto, um tanto "incomum" neste mar de mesmice padronizada.

Cristina Ávila disse...

muito bom. acho interessante o olhar que vai além da primeira impressão, do padrão, do que apenas parece.

Elezer Jr. disse...

Poucas coisas podem ser mais eloquentes, entre pessoas que se amam, do que o silêncio, mesmo prolongado, que sublinha a desnecessidade de conversa entre quem se conhece e entende por olhares e gestos. Tem gente (inclusive jogadoras de basquete) que precisa aprender muito sobre relacionamento e amor...

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