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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 6 de março de 2015

Sem opção


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Ainda que eu preferisse me ocupar de lembrar das praças mais lindas que conheço - com destaque para a Tiradentes, em Ouro Preto - o calendário me empurra temas mais relevantes. E a cada março é preciso martelar nas iniquidades que afetam a vida das mulheres, pelo fato de serem mulheres. Um assunto para o ano todo, diga-se de passagem.

Faz poucos dias que Patricia Arquette, ao receber o Oscar de Atriz Coadjuvante de 2015, aproveitou seu palco global para reivindicar salários iguais para mulheres e homens. Cada vez que acontece algo assim, sinto uma vergonha danada da raça humana e suas renitentes negligências. Quinze anos passados da virada do milênio, e ainda é preciso que alguém use a cerimônia da entrega do Oscar para chamar a atenção dos senhores do mundo para causas que mereciam estar superadas há décadas. A da remuneração enviesada pelo gênero é apenas uma delas, e, por incrível que pareça, ainda suscita comentários saídos das cavernas pré-históricas.

Falando em trogloditas: um sujeitinho bem à toa como Alexandre Frota vai a um programa de TV noturno, do tipo baixaria explícita, e conta uma estória cabeluda sobre um suposto estupro que teria praticado contra uma mãe de santo. A plateia ri, o apresentador pede aplausos. A provocação é rasteira e violenta, com endereço certo, mas como ninguém que valha a pena assiste ao tal programa, menos ainda de madrugada, a repercussão é nula. Nova tentativa, em reprise, e nada. Passam-se vários meses e, numa segunda reprise, a provocação é captada, trazendo o dito cujo para o noticiário e as reações indignadas, finalmente! Ele vem, então, esclarecer que o relato é uma invenção, uma piada, para a qual se sente totalmente autorizado, no marco da liberdade de criação e expressão. Truculento e desafiador, em perfeita sintonia com este nosso estranho tempo de alminhas reviradas pelo avesso no despudorado strip tease planetário proporcionado pela internet.

Dá um cansaço profundo, que parece infinito. Mas é melhor respirar fundo e sacudir a poeira, porque desistir não é uma opção.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

4 comentários:

Anônimo disse...

Desistir? Jamais!!! Márcia Ester

Anônimo disse...

A luta continua desde que o mundo é mundo.Pelo visto, temos ainda tudo por fazer.Mudar conceitos e preconceitos é batalha permanente. Alerta,pois.
Mummy Dircim

Montanhas, mares e culturas disse...

A batalha deve continuar e devemos acreditar em alguma mudança.

Anônimo disse...

Pois é ...
Bjo Lalita

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