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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Curtas Banais #2


do trabalho


seis horas da manhã, travessa da heitor penteado. dirijo sonada em direção à produtora. como profissional responsável que sou, chegarei meia hora antes da equipe pra garantir que está tudo certo. como maconheira véia que sou, lembro que esqueci de pedir três-tabelas e de checar se o kit de luz vem completinho, com uns acessórios de nomes estranhos pra vocês mas que não passam de coisas que os seres humanos normais chamam de tomadas e extensões (ou algo muito parecido com isso). tudo bem, a diária caiu no meu colo ontem às dez horas da noite – diria que não tive muito tempo pra pensar em tudo – mas que sei que o eletricista (ou, pior, o fotógrafo) irá me xingar se não estiver tudo lá. afinal as pessoas me pagam para, entre outras coisas, conseguir fechar eficientemente diárias às dez horas da noite da véspera.

me desespero momentaneamente e disco o número da locadora de equipamentos. tudo ok. respiro aliviada. minha reputação profissional está a salvo por meia dúzia de cabos e uns caixotes de madeira.

estou distraída ainda pensando em acessórios de luz, olhando pra fora da janela com o carro parado num farol vermelho e vazio. sem perceber, estava observando um gari que trabalha varrendo a calçada. ele me desperta do transe:

- essa aqui não dá não!

- oi?

- a vassoura. olha só! - ele mostra a vassoura careca, rindo - não dá pra trabalhar assim não!

- nossa, é verdade.

- o fiscal disse que vai trazer outra ainda hoje. mas vai saber né? ruim é ter que depender dos outros pra poder trabalhar.

ruim mesmo é depender de objetos que os outros nos provém, eu penso.

- pois é. também acho.

- dá não, fia! ó, o farol abriu! tchau!

- tchau.

Sofia Amaral é roteirista, produtora, colunista do blog Rodapé e até jornalista se faltar trampo.

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