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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Humor em pílulas # 2


Catarrinho na garganta


É muito comum no dia-a-dia médico as chamadas “consultas múltiplas”. São famílias impulsionadas por um único ente querido doente que resolve passar em consulta médica mesmo saudáveis.
-Ah, Dr.! Já aproveitamos que o Pedrinho está doente e resolvemos passar também!
Acham isso o máximo: uma consulta médica sem queixas às 23h de um domingo, no pronto-socorro! A mais pura falta de bom-senso, reprovada ferrenhamente por nós, médicos.
O paciente tem todo o direito a quantas consultas médicas preventivas quiser, desde que num ambiente adequado, com consulta agendada, e não em um pronto-socorro; o próprio nome já define os propósitos do atendimento médico nesses locais: urgências e emergências, não consultinhas de rotina. Prá não citar o famoso check-up, exemplos:
- Então Dr., viemos eu, minha esposa e meus três filhos fazer um check-up antes de ir prá praia. Estamos com as malas no carro, vamos descer agora. Vai que ficamos doentes bem no meio do feriadão, né?! Sabe como é...
- Sei... igual revisão de carro antes de pegar a estrada, né?!
E eles acham graça...
As tais consultas múltiplas variam desde um acompanhante saudável até quantos imaginarmos. Já atendi seis em uma tacada só! Vieram pai, mãe, filho, filha, avó, cunhado e vizinha. Só faltou o mascote da casa. Até perguntei por ele, se chamava Dolly, uma cadelinha vira-latas de 2 anos, a qual não pôde comparecer à consulta, uma pena... Porém, as mais comuns são as duplas, ou de irmãos, ou casais.
Certa madrugada de plantão, 4h da manhã, uma consulta tripla me acorda (sim, pasmem: médico também dorme!). Duas irmãs gêmeas e a avó. Como, do nada, no meio da madrugada, duas irmãs gêmeas e a avó ficam doentes ao mesmo tempo, necessitando de pronto atendimento médico? Nem gripe A, nem varíola, nem ebola tem uma transmissibilidade tão alta!!!
Ao levantar, sonolento, me arrastar até o elevador que me levaria ao consultório tinha uma certeza: ou descobriria uma nova doença ou perderia completamente minha paciência.
Chamo as três “doentes”, que na verdade são quatro, a mãe das gêmeas acompanhava o trio. As gêmeas vestidas cafonamente com a mesma roupa. A primeira, Gaby, 6 anos. A mãe inicia o relato dramático dos sintomas da criança:
- Ameaça de febre, Dr.!
- Ameaça de febre, senhora? O que é uma ameaça de febre?
- Então, ela parece que está com frio...
- Senhora, são 4h da manhã, está uns 10°C aí fora, eu também estaria com frio.
Examino. Obviamente normal. Receito dipirona caso a ameaça se torne realidade. A segunda do trio, Paty, 6 anos.
- E a outra, o que sente, senhora?
- Então Dr... por elas serem gêmas, tudo que faço prá uma, tenho que fazer prá outra igual, senão ficam tristes... Então como a Gaby ia passar aqui, resolvi trazer a Paty.
- Quer dizer então que a senhora acordou e trouxe sua filha ao hospital à essa hora para que não fique triste de não ter passado no médico também?
- Isso mesmo.
Minha paciência havia ficado no 3° andar, embaixo do meu travesseiro. Levanto da minha cadeira puto, muito puto, e examino a segunda mimada da prole.
- Ela está normal senhora, mas se quiser gastar dinheiro posso lhe fazer uma receita.
- Não Dr., melhor não...
É a vez da avó:
- E a senhora, dona Idalina? Veio também porque ia ficar triste se as netas passassem e a senhora não?
- Não Dr., meu caso é outro. Tenho um catarrinho na garganta que não desgruda nunca.
- Há quanto tempo?
- Uns cinco anos...
- Então a senhora tem um “catarrinho na garganta há cinco anos” e decidiu, no meio da madrugada e no pronto-socorro, resolvê-lo?
A velha notou minha impaciência e ficou muda. Apontei a cadeira de exames.
- Tudo normal senhora, como esperado. Vai fazer alguns exames em horário comercial e, com os resultados, agendará uma consulta, fora do pronto-socorro.
Rabisco a papelada e a mãe recomeça:
- Dr., qual a diferença entre Novalgina e Tylenol?
Xingá-la era o caso, mas não fiz, as frações de segundo me recordaram os sacrifícios para obter meu CRM; jogá-lo pela janela em uma situação ridícula como essa seria imperdoável. Respirei fundo.
- Senhora, Novalgina é dipirona, Tylenol é paracetamol.
- Mas e o efeito deles, são...
Sobressaltei da cadeira, interrompi a lorota e abri a porta. Entreguei os pedidos e disse rispidamente:
- São semelhantes. Boa noite.
Levantaram das cadeiras simultaneamente, as crianças zonzas de sono, sem entender, assim como eu, o que foram fazer lá. A avó desorientada e a mãe resmungando, após uma consulta médica proporcional às queixas do pacientes.

Dr. Rino é medico e colunista do Blog Rodapé; fica puto com paciente sem noção que acha que pronto-socorro é passeio no shopping.

5 comentários:

Bia disse...

Será que eu não sou normal? Minha família nunca fez isso! Agora, levar a outra ao médico porque ela ficaria chateada é demais. Definitivamente, mais uma criança mimada no mundo. Tudo o que a gente não precisa.

Sofia disse...

muito, muito bom! também nunca entendi essa história de ficar indo pra pronto socorro qdo esta com alguma coisinha... aliás, pronto socorro é bom mesmo pra pegar doença né? levar criança lá (sem urgência) é expor a criança a um monte de bactérias e virus sem necessidade! o governo deveria gastar o dinheiro q tem pra publicidade pra fazer umas campanhas úteis como essa: explicar pra que serve um pronto-socorro! hehehe! parabéns pelo texto!

** Fabiana disse...

Caraca. Realmenté ua novidade pra mim a tal "Consultas múltiplas". Mas adorei a "ameaça de febre". Muito bom!

Dr. Alessandro Loiola disse...

Congratulações pelo blog ! :)

Marcelle disse...

Caramba rsrsrs... sou enfermeira trabalhando nos dept de emergencia e UTI de um hospital aqui em British Columbia, no Canada. Na nossa emergencia, temos o sistema de triagem, e nao sei se o mesmo eh usado no Brasil, mas enfim, aqui nao eh diferente, e fico p da vida qdo as 3h da manha tambem temos que lidar com consultas multiplas cujos casos, sao pra la de banais. Como educar a populacao a ter mais bom senso? Adorei o post... congrats!

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