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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O artista x sensatez

A ideia da coluna demorou, mas surgiu “aquela” vontade de escrever antes de mais um pensamento morrer na praia. Teorizando, o “Artista”, definido pelo dicionário quer dizer:

“adj m+f (arte+ista) 1 Aplicador da arte. 2 Engenhoso. 3 Astucioso, manhoso. s m+f 1 Indivíduo que se dedica às belas-artes. 2 Aquele que faz da arte meio de vida. 3 O que revela sentimento artístico. 4 Artesão, artífice. 5 Dir trab Em face da lei, é o bailarino, músico, artista de teatro, circo e variedades e, mesmo, o atleta profissional, como o jogador de futebol. A. dramático: ator que representa em dramas. Col: elenco, grupo.”

Por volta de 11h da manhã voltando para casa, minha mãe e eu fomos abordadas por uma senhora que, sentada na esquina de uma rua, nos pediu ajuda. Algo nos fez parar e ouvir o que ela tinha a nos dizer. Com os olhos cheios d’água nos relatou que estava sem gás de cozinha e que estava tentando juntar um valor para que pudesse voltar para casa e dar de comer aos seus quatro filhos.
Com ela estava um dos filhos com sinais de problemas mentais. Segundo ela, com febre. Havia medido a temperatura numa farmácia, mas não tinha como levá-lo ao médico.
Coloquei a mão no bolso e lhe dei as moedas que tinham e minha mãe uma nota de cinco reais. Quem estendeu a mão para nos agradecer foi a criança. Num gesto de carinho, aquele garoto de roupas gastadas pelo tempo, chorando, teve a humildade de estender a mão para nos agradecer.
A mãe também nos agradeceu e disse que naquela manhã muitas pessoas passaram por ela com olhar de julgamento. Disse também que outro indivíduo passou e ao entregar a doação lhe disse: “Espero que seja para o gás mesmo.”
Aquela mulher precisava desabafar. Chorava copiosamente. Sinceramente, eu e minha mãe não sabíamos o que dizer. Ouvimos. Nos contou que pouco tempo antes de a gente passar por lá, uma senhora passou e disse: “você há de ficar pedindo e ninguém vai te ajudar.”

E o que isso tem a ver com o mundo do show business?
Fico pensando como um artista, ou seja, alguém que lida com algo tão engenhoso, com o sentimento de levar arte para as pessoas pode esquecer que do lado de fora de uma casa de shows existe um mundo que traz tanta injustiça e pobreza para grande parte da população?
Digo isso porque tantas vezes vi listas de abastecimentos de camarins enormes. Itens caros, lanches de diversos tipos, bebidas das mais caras, frutas, chocolates e o que mais você pensar. Essas mesmas listas não eram e ainda não são consumidas nem a metade. Boa parte do que sobra vai para o lixo. Nas outras vezes colocam dentro de suas bolsas de grife e levam para suas geladeiras caseiras já cheias.
Poucas vezes vi artista e suas equipes terem a atitude de ter um camarim enxuto, funcional e que tivessem a consciência de que esse alimento que é jogado fora poderia ter outro rumo mais solidário.
Uma única vez vi músicos e equipes técnicas recolhendo o que sobrou do camarim e dando para os funcionários da casa de shows para que pudessem levar para suas casas. Atitude louvável.
Já vi produtores que praticamente pediram cancelamento de um show porque não havia banheira no quarto da artista. Ela sequer iria dormir na cidade. Por sinal, a cidade tinha recebido um congresso e naquele final de semana toda a rede hoteleira estava ocupada, portanto, não haveria como conseguir uma banheira por apenas algumas horas de hospedagem.
A artista (ou seria a produção?) não aceitou e preferiu hospedar a cantora em outra cidade, longe do evento, longe de onde sua equipe estava hospedada, apenas para que ela pudesse desfrutar de sua banheira. Não há negociação? Onde está a humildade do artista? Onde está a humanidade do artista?

“É por que ele é artista.”
Cunhando esta expressão as coisas costumam se “explicar” no show business. Certa vez um contratante desabafou comigo: “Puxa Fabiana, tenho que bancar 100% da lista de camarim. Se desperdiça muito e não posso nem aproveitar para dar para outras pessoas?”
O que faz um artista pensar que ele está num nível tão acima de outros humanos? Desejo que esse mundo tão cheio de status e de credenciais penduradas no pescoço possa se tornar um pouco mais humano, afinal, esse tipo de atitude nada tem a ver com a arte, com o sentimento de emocionar o público.
Pisar no chão, tirar os óculos de grife e olhar o mundo a sua volta e usar da sua figura pública para melhorar - ao menos - a comunidade onde se vive é também a tarefa do artista.

Fabiana Cardoso é jornalista, produtora e colunista do Nota de Rodapé

3 comentários:

daise disse...

Belas, reflexão e crítica.
Bela também a imagem do dia.

Rafael Pompeu disse...

Realmente as pessoas ficam muito desvirtuadas com o "sucesso".

As vezes seria bom uma boa e velha dose de realidade pra todo mundo.

Parabéns pelo seu blog Fabi, é fantástico.

Beijos

Rafa

Kauana disse...

Pena que essa indiferença não seja exclusividade de artistas.....isso faz parte de todos, infelizmente de todos.....bjos amiga, excelente texto.

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