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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

As águas confusas de Atibaia

Não sabia bem como entrar nesta história. Na verdade, planejava a estreia no Nota de Rodapé de outra maneira. Foi quando o amigo Thiago Domenici lembrou: “Robert Fisk, meu caro, Robert Fisk”.
Fisk, uma grande referência do jornalismo mundial, realmente tem momentos marcantes na carreira e uma frase sua, emblemática, sintetiza a forma de trabalhar a informação com honestidade intelectual: “como jornalista, você tem de estar do lado da justiça, do equilíbrio, da decência, tem de se posicionar”. Além disso, o correspondente internacional, de larga experiência em coberturas de conflitos, como no Oriente Médio, diz que é “impossível não se envolver no desenrolar dos acontecimentos”. Assim, recuso-me a ser um jornalista robô, preso aos manuais de redação que defendem o distanciamento. Passo, a partir deste texto, a produzir uma série sobre a terra que me acolheu sem medo de vivenciar cada instante apurado ou reportado.
Pois bem. Sou paulistano de nascença, trabalho na megalópole, mas apesar das idas e vindas, minha família fixou residência em Atibaia, quando tinha oito anos de idade, em 1981. Fundada em 1665, a cidade fica a 65 km de distância de São Paulo e tem, aproximadamente, 120 mil habitantes. Fora a capital, está próxima de outros municípios e regiões importantes, como Campinas e Vale do Paraíba. Teoricamente, uma posição estratégica. Teoricamente.
Pouco comentada pela mídia, Atibaia é noticiada, parcas vezes, como a cidade do vôo livre – com a Pedra Grande e seus 1.450 metros de altitude – pelas plantações de flores e morangos ou por receber times de futebol para pré-temporadas e concentrações, principalmente Corinthians e Palmeiras.
Contudo, nos últimos dias, foi mostrada insistentemente por diversos veículos da grande mídia. Era mais um território invadido pelas enchentes. As reportagens, exibidas repetidamente, captavam tragédias familiares, os desabrigados, choros convulsivos, com pontas e mais pontas de sensacionalismo e, na maioria das vezes, vinham cheias de informações superficiais, que não buscavam as causas e menos ainda as consequências dos alagamentos.
Nas matérias aqui no Rodapé, a ideia é apresentar a cidade de maneira realista e abordar questões pouco ou nada exploradas pelo noticiário, como a expansão imobiliária desenfreada, o loteamento indiscriminado, as invasões de áreas de várzea, de preservação ambiental, o déficit habitacional, a história de uma das maiores favelas do interior de São Paulo e desmistificar algumas “lendas” que cercam o município, casos dos slogans/chamarizes de "paraíso quase possível na terra" e "segundo melhor clima do mundo", apenas factóides criados por interesses políticos/econômicos que geraram a falsa imagem de cidade turística, inflacionaram os preços para os moradores e trouxeram, sim, o turismo, mas meramente imobiliário.

Terra retaliada

É só circular pela cidade para notar que ela pode ser considerada uma verdadeira colcha de retalhos. Por dois motivos. Primeiro, duas grandes rodovias a entrecortam, a Dom Pedro e a Fernão Dias, sendo que a última se encarrega (a impressão é de que calculadamente) de dividir o município em dois. Para quem sai de São Paulo em direção a Minas Gerais, do lado direito, o olhar encontra os bairros “mais nobres” com construções opulentas e as chamadas áreas turísticas. Já do lado esquerdo, para onde os visitantes não vão, a visão é encoberta. A pobreza, as grandes deficiências estruturais e a consequente desigualdade ficam oportunamente camufladas.
Outro aspecto é que as terras atibaienses vêm sendo loteadas, fatiadas como um bolo de aniversário, em que cada “convidado”, ao final da “festa”, leva sua parte. Isso ocorre desde a década de 60 e poucas foram as medidas adotadas pelas administrações locais para conter o avanço indiscriminado dos “empreendedores” do ramo imobiliário que promoveram, com a concordância do poder público, a expansão desordenada da construção civil.
Nesse contexto, dois resultados são destacáveis: a dificuldade de levar infraestrutura adequada aos bairros e a edificação de moradias em pontos inapropriados, exemplo das áreas de várzea, margeando os rios.

Natureza culpada?
Não há dúvida de que as tais causas naturais, as chuvas que caíram sobre a região desde dezembro do ano passado, constantemente, contribuíram para que 900 famílias, quase quatro mil pessoas, fossem desalojadas pelas enchentes. Porém há bastante a ser contado e refletido sobre Atibaia, uma cidade maquiada e que, curiosamente, entre as possíveis origens do seu nome, traduzidas do tupi para o português, tem como opção “águas confusas”, que agora parecem querer retomar o que antes lhes pertencia.

Moriti Neto é jornalista, paulistano de nascença, atibaiense de coração e estreia a coluna Escarafunchar neste Nota de Rodapé.

8 comentários:

Marília disse...

Moro em Atibaia, ainda bem não em uma área atingida, mas concordo em muito com o texto. Nossa cidade, que tem paisagens lindas, e está situada num local privilegiado, é uma fingimento total, uma máscara só!
Espero que essa série possa mostrar o que realmente há de "podre neste reino" e que não fique falando só de enchentes, alagamentos, mas dos motivos, como a falta de estrutura da cidade!

Jair disse...

Olá Thiago, parabéns pelo blog.
Gostaríamos de publicar esse texto no site Atibaia News (o site de maior audiência em Atibaia). Caso seja autorizado, divulgaremos o autor e faremos link para o seu blog. Abraços, Jair

Thiago Domenici disse...

Alô, Jair, está autorizado. O blog é Creative Commons, pode divulgar o que quiser, desde que seja citada a fonte original e autor, com o endereço. Obrigado pela visita. Thiago Domenici

Fabio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fabio disse...

Concordo com o texto, acredito que ele resume bem para quem não conhece, a verdadeira realidade do município e como ele é infelizmente. Duas cidades distintas em uma única Atibaia e que deveria ser única mesmo, em desenvolvimento. Curioso, não sou daqueles que defenderam com unhas e dentes a realização do carnaval neste ano, falando de diversão, algo não tão importante como outras coisas, mas nota-se que o povo mais humilde é quem mais participa do carnaval das escolas de samba e não deste carnaval de bonecões. Também não sou contra os bonecões, pelo contrário, aprovo sim, porém, não é só as classes sociais mais bem sucedidas e os turistas que merecem um bom carnaval. O povão precisa ser mais respeitado, pois ''nem só de pão vive o homem'', lazer e entretenimento também é preciso. E outra coisa, verba de carnaval que eu saiba vem da cultura e não poderia ser usada na ajuda de quem sofreu com a enchente. Só esclarecendo aos desinformados.

Texto certo, podem apagar o primeiro

Fabio disse...

Pois é, quem cometeu essas irregularidades de autorizar esses loteamentos em área de risco, se ainda estão vivos alguns deles, o que pensam? Lamento mesmo que nossa querida Atibaia sofre também com esse tipo de coisa, mais uma dentre tantas. Espero que as pessoas que tanto falaram, gritaram e alardearam os problemas das enchentes e com razão, em certos momentos, agora leiam essas matérias e tomem atitude. E a primeira a se fazer é repassar o link do site e divulgar as matérias acima. Novamente parabéns pelo trabalho.

Fabio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
elibel disse...

É uma pena que Atibaia tenha um potencial tão grande mas a visão daqueles que a dirigem é muito pequena.Temos sofrido com as multas de transito em nossa cidade com placas de velocidade de 30 e 40 km po hora em avenidas que é impossível essa velocidade.E para onde está indo esse dinheiro das multas que são milhares...?Ruas centrais estão sem asfalto. pouco policiamento.Conheço uma pessoa que foi asssaltado por 2 fatores velocidade baixa e falta de policiamento nas ruas.

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