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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cena I, relatos de uma megaprodução

Estou sempre contando as histórias do show business e dessa vez será um relato quase em tempo real... quase, porque enquanto tudo acontece não há tempo de escrever. Hoje, mais de 24 horas após o termino do show, eu começo a contar passo a passo o que esta penetra oficial viveu nos dias de produção do DVD Sergio Reis e Renato Teixeira, gravado no Teatro Bradesco, em 6 de fevereiro.

A primeira visita técnica
No final de outubro recebo o convite para participar da produção do DVD e sem saber muito bem o que seria, confirmo minha presença na visita técnica. Até então eu só sabia que seria um projeto que uniria dois grandes nomes da música regional brasileira: Renato Teixeira e Sergio Reis.
Uma super estrutura, um pé direito dos sonhos de qualquer produção, nove camarins lindos e novos em folha... Fantástico, estava tudo perfeito. Estava?
O DVD seria gravado em dezembro. Mas, tudo veio por água abaixo quando começamos a pensar na logística da situação. Para que conseguíssemos gravar o show no horário estabelecido teríamos que começar a montar todo o equipamento pelo menos uma noite antes, o que se tornou impossível, pois um musical estava em cartaz e não teríamos como montar nada um dia antes. Datas agendadas, convidados especiais agendados, tudo pronto... Não teve jeito, uma nova negociação de data se iniciou.

Antes do carnaval
Dezembro chegou e na semana anterior ao natal uma nova reunião foi feita. Dessa vez para confirmar a nova data e definir o que iria acontecer. Ufa! O DVD seria gravado em fevereiro, então, teríamos tempo suficiente para fazer toda a pré-produção com calma.
Mas veio natal, ano novo, viagens de férias, shows, e quando vimos já era metade de janeiro e o processo de produção ainda estava numa fase pré-natal. Os convidados não tinham data e um problema contratual começava a atrapalhar o processo de produção, os dias passavam e essas questões não se resolviam, pelo contrário, cada dia uma nova epopéia nascia. Para nós produtores, só restava aguardar pela resolução dos fatos.
Somente na última semana de janeiro é que realmente tivemos como colocar a mão na massa. Novamente reunimos toda a equipe para definir mil situações e colocar tudo pra funcionar.
O que parecia impossível teria que ser possível em uma semana.
Reunir dois escritórios, duas equipes de produção, dois artistas. Era trabalho em dobro e uma lição de vida para todos nós. Em tempo recorde teríamos que nos adaptar e montar um time novo para jogar um clássico, após uma semana.
Definir verbas, contratar fornecedores, fechar equipe, negociar valores, montar logística, confirmar convidados, fechar repertório e tudo mais.
Fotógrafo + Cenógrafo + Light Designer (responsável pelo projeto de luz) + Técnicos de som + Roadies (é o braço direito do músico. Aquele que afina instrumento, sabe todas as mudanças de instrumentos, monta o palco da maneira que precisa ser feito, enfim, sem ele o show não acontece) + Empresa de captação de áudio + Empresa de captação de imagem + Transporte para artistas e equipe + Hospedagem e passagens aéreas para convidados especiais + Figurino + Maquiagem + Camareira + Carregadores + Abastecimento de camarim + Catering (É como um buffet self service para todos da produção. Assim evita que diante de tantas horas de trabalho a gente coma mal) + Confecção de credenciais + Planejamento de mídia + Credenciamento de imprensa + Lista de Convidados + Lista de credenciamento de todos os envolvidos + Teleprompt + Rider de som + Rider de Luz + Definição de cachês + E por ai vai...
E quando a gente pensa que nada mais pode dar errado, alguns dias antes do evento recebo a ligação do Bruno Solino, produtor da Sunshine que solta: “Faby, tenho uma bomba para falar”.
A empresa que faria a captação de vídeo do DVD caiu fora da jogada. Desespero pouco é bobagem, parecia que estávamos na estaca zero novamente.
Acreditem ou não, mas, mesmo nessa correria houve um empenho incrível de todos e conseguimos fechar a produção a 72 horas do show e pudemos contar com grandes profissionais. Zé Carratu na cenografia, Danny Nolan no projeto de Luz, Polar Filmes na captação, entre outros mil colaboradores.

Terça, 2, credenciamento do mundo

Depois de fechar todos os fornecedores, tínhamos que cuidar do credenciamento de todos. Exatamente todas as pessoas que iriam entrar no teatro para trabalhar.
Em 48 horas tivemos que montar uma lista com mais de 160 nomes completos + funções + RG, mas isso não é nada quando você precisa alinhar todos os horários para que nenhuma montagem saia errada e comprometa o momento da gravação.
Para isso, conseguimos negociar com o teatro a nossa entrada para o dia 04 no final da tarde. Assim, seria montado o cenário do Zé Carratu, a afinação de luz fixa da casa e isso já ajudaria muito para que na sexta feira tudo estivesse ok para o restante do equipamento pesado.

Quinta
, 4, o roadie sumiu
O dia não poderia começar melhor, tínhamos recebido a notícia que seria um show SOLD OUT, ou seja, casa cheia, ingressos esgotados! Mesmo com tantas dificuldades e pouco tempo de divulgação, os fãs deram seu recado e iriam comparecer em massa ao show. Tínhamos o dever de fazer o melhor por eles.
Na tarde do dia 04, estava agendado um ensaio final para que toda a parte técnica pudesse entender a concepção do show, e principalmente para que os roadies pudessem se alinhar com a montagem de palco, que não era fácil. A quantidade de instrumentos era tanta e a bateria do Dudu Portes é tão grande, que se eu fosse roadie teria pensado: fazer ou não fazer, eis a questão.
Ao ler e-mail por e-mail da minha caixa de entrada vejo a seguinte mensagem:
“(...) Gostaria de uma reavaliação quanto ao valor do cachê devido responsabilidade dos profissionais para realização deste tipo de trabalho (...)”
Um dos roadies saiu do projeto por não concordar com os termos de contratação e o outro roadie simplesmente sumiu. Tudo isso no próprio dia 04. Bacana, não? Nós tínhamos apenas 3 horas para arranjar dois roadies que tivessem as datas disponíveis e pudessem correr para o estúdio. E conseguimos!
Deve ter por aí um santo padroeiro dos produtores. Não tenho dúvida.
Com roadies acertados, luz básica afinada e o cenário montado, tudo parecia estar perfeito. O que restava para sexta feira? Montar o piso em carpete preto, o mapa de palco da banda, iluminação extra, e claro que tudo isso depende do trabalho de uma equipe muito importante: os carregadores.

Sexta, 6, onde estão os carregadores?
O dia começou às 5h da manhã. Tempo para tomar banho, colocar a mochila nas costas, vestir a roupa preta básica, e seguir para o teatro.
Tudo estava dentro do combinado, mas minutos antes de chegar recebo uma ligação do Bruno avisando que os carregadores (que deveriam chegar às 7h 30) não estavam no teatro.
Quando finalmente consigo um retorno telefônico descubro que eles ainda estavam em Santo Amaro. Já era mais de 8h 30 e o caminhão com o equipamento de luz aguardava nas Docas do Teatro. Foi um Deus nos acuda, pois atrás do caminhão da luz extra, chegou o caminhão com os praticáveis, o carro do catering, a van com o maquinário de captação (trilhos, gruas, etc). Congestionamento geral e chilique geral da pessoa que vos escreve. Tivemos que apelar para contratação extra de carregadores para que o cronograma não atrasasse mais, além das duas horas em que já estava atrasado. Nossos carregadores chegaram às 10h. Que tal para começar o dia?
Piso montado, luz afinada, cenário lindo e iluminado, instrumentos prontos, aquele corre-corre que eu sinceramente adoro! A coisa parecia ter entrado nos eixos. A não ser pelo elevador que resolveu quebrar no meio do dia e assim fazer com que a gente tivesse que subir dois, três, quatro lances de escada toda vez que precisássemos sair do teatro ou ir até algum camarim. Mas, vida de produtor é assim: sempre pode piorar!
Teríamos uma gravação na sexta, às 21h, pois uma das convidadas do DVD não poderia estar no dia 06/02 e seria a única chance dela estar no DVD. Trata-se da jovem cantora e compositora da música sertaneja Paula Fernandes.
Seu horário de chegada estava combinado para 20h, mas ela e sua produtora chegaram até antes do horário.
Perfeito, o dia estava quase acabando, embora nosso cronograma estivesse com um pouco de atraso, mas até 23h 30 teríamos tempo suficiente. O violão da Paula já estava afinado, todos no palco estavam preparados, bastava apenas chamá-la.
Hora de chamar a Paula e...
Não é que o violão dela caiu da estante e ficou danificado? Como eu disse: sempre pode piorar!
Arranjar outro violão seria tarefa fácil se não fosse por um detalhe: Paula é canhota e naquele horário não haveria tempo hábil para arranjar outro violão que tivesse as cordas invertidas. Liga daqui, liga dali e quando uma solução apareceu já era mais de 22h.
A gravação começou a ser feita com ela após as 23h e teríamos apenas 30 minutos para encerrar a gravação. Claro que não deu certo e saímos de lá mais de meia noite. O que importa é que a Paula foi extremamente calma e teve muita paciência para aguardar a resolução do caos. Era o santo padroeiro em ação novamente
Terminávamos o dia com uma parte do processo pronto. Hora de dormir e acordar bem disposta para o dia da gravação.

Fabiana Cardoso é jornalista, produtora e colunista do Nota de Rodapé. Amanhã a cena final, o dia D(e) gravação.

3 comentários:

sofia amaral disse...

fabiana, ri muito com seu texto pq consigo imaginar direitinho as situações. minha área é outra, mas produção é sempre a mesma coisa, né? seja novela, corrida de carro, evento, show, cinema ou festa de casamento... cada área tem suas particularidades mas a vida do produtor é sempre a mesma loucura... e sempre pode piorar, como você disse!!

também concordo que é impressionante como muitas vezes somos salvos por golpes de sorte!! poderia ser muito pior, mas "no final sempre dá certo" (como todo mundo diz depois que o sufoco passa né?). na tv/vídeo às vezes eu apelo pra santa clara padroeira mas, afinal de contas, deve mesmo existir um santo dos produtores!!! temos que descobrir quem é pra prestar nossas oferendas!! e rezar, rezar muito, pra não chover, pro cenário não cair, pra ninguém atrasar, pro dono da locação não dar pra trás na última hora, pro motorista não ficar preso no trânsito...

mas é isso aí né gata? produção. não precisa falar mais nada. hehehe. beijos e boa sorte!!

** Fabiana disse...

Sofia,adorei ler seu comentário. Vc tbm passa por isso e sabe como é. A gente reclama, mas não consegue viver longe desse estress todo, não é?
Olha só, Santa Clara... boa dica. Eu não sabia.
Será que a gente já não se cruzou nessas produções?
Eu to achando bem provavél!!!!

Amanhã tema segunda parte e vem mais sofrimento... :)

Kauana disse...

Sorte sua que o criador da lei de murphy é hoteleiro, hahahahah......mas um dia vou trabalhar contigo e riremos juntas!!! bjossss

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