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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

domingo, 30 de maio de 2010

Fredo, esgotado, vai a Quick Therapy

Uma ligação definitiva ao irmão: “de hoje não passa” Pipipipi... Poeta esgotado, Fredo Sidarta, colunista deste NR, decidira ao ligar para o único parente que já não cabia mais saborear os poucos prazeres mundanos. A caminho do destino final - um viaduto próximo a sua casa alugada - se jogaria entre os carros da avenida movimentada. Com certeza, às redes de televisão chegariam antes do resgate, que nada poderia fazer. No entanto, um cartaz grudado ao poste próximo ao maior shopping da cidade cruzou seu caminho e mudou sua decisão.
Cure a alma com o método revolucionário
A Quick Therapy, também conhecida como terapia expressa, é indicada para quem procura um atendimento rápido, principalmente para pessoas que possuem pouco tempo e dinheiro e sofrem com as consequências da agitada vida urbana. Com a correta aplicação da técnica psicológica, o paciente sentirá alívio imediato e reconforto mental. Ao cabo de cada sessão (com duração de 15 minutos) o paciente ganha um sache da pomada medicinal a base de tâmara da índia que cura a insônia. O método, uma vertente da popular quick massage, já tirou milhares da depressão ao redor do mundo e agora está no Brasil. Faça uma consulta cortesia no terceiro piso!
Já adianto que estou aqui por força maior que não a minha vontade real. Ou era isso ou ia dar cabo agorinha mesmo da vida vazia que levo. Aos 30 anos a depressão arrebatou-me o pensamento. Sempre tive medo de estar aqui. Mais do que medo nunca me imaginei num shopping com o senhor atrás da minha orelha a me ouvir lamentar por 15 minutos. Quem inventou essa técnica deve estar enchendo o rabo de dinheiro. É o capitalismo a serviço da psicologia ou vice-versa. Se essa porra vai dar certo não tenho a mínima ideia. Você vai me ouvir e dar um parecer que pode não me servir de merda nenhuma. É o risco que corro. Sem contar que meu dinheiro não banca mais do que esses míseros 10 reais. Mas quem tá na merda não tem muito a perder, não é?
Ah, esqueci, você não vai falar nada. A atendente gostosa me disse que minhas informações estarão no sistema computadorizado. Só acho estranho desabafar para você hoje e não te ver na próxima consulta. O lance aqui é rotativo. Disse ainda que posso marcar hora caso você esteja perdido em alguma dessas salinhas brancas com cortinas amarelas com outro imbecil. Mas nem sei se vou gostar de você. Pelo menos eu desabafo aleatoriamente um pouco e me refugio do estresse lá de fora. Minha amiga mais antiga e confiável falou que me faria bem tentar entender melhor os dilemas psicológicos que me afetam com tanta força atualmente. Ela só não deve imaginar que viria me tratar neste shopping de bacana e usar esse novo método baseado em terapia expressa. Foda-se, é o que dá.
Já fiz terapia uma vez, sabia? Não me serviu de nada. O psicólogo concordava com tudo e não acrescentava nada que um amigo na mesa do bar não pudesse fazer com mais entusiasmo. Ali, no entanto, além de eu pagar a conta sozinho não tinha cerveja e nem porção de frango a passarinho. Desisti.
Olha, eu fumo maconha, bebo cerveja todos os dias, só duas latas, e gosto de cachaça às sextas. Mando um vinho volta e meia, mas me dá uma ressaca dos diabos. Todo dia tomo duas doses de café preto sem açúcar. Uma de manhã e outra depois do almoço. Como uma fatia de bolo de chocolate depois do café. Gosto de ter rotina metódica. Tomava três, quatro cafés. Cheguei a beber um litro e quase morri de úlcera. Aí parei de abusar. Autocontrole, hem? Anota isso. Você está anotando, certo? Bom, o café em excesso fodia meu sono completamente. Ficava um zumbi dentro do meu quarto, fritando no abafado sem janelas que é meu mundim. Cigarro, por exemplo, já não gosto, ou melhor, preciso estar com muitas latas na cabeça, chapadão mesmo, para dar um trago de alguém. Mas não consigo ir até o fim. Me dá náusea. E como tenho saído para poucas festas faz tempo que não sinto a nicotina me ligar na madrugada.
Tem nego que fuma dois, três maços num único dia. Caralho, como pode? Pior são as propagandas nos cigarros, fala aí? Quem elabora aquilo? Uma bosta, marketing positivo do cigarro na minha opinião. Minha mãe, por exemplo, precisou ter uma infecção pulmonar para se ligar que ia morrer de tanto fumar Camel quebra peito. Fumou mais de 30 anos a fio. Até acho que meu pequeno problema no pulmão tem a ver com isso. Vem do cordão umbilical, será possível? E tem mais, ela sempre comprou o maço com o mesma imagem para colecionar. Sabe aquela do cara que vai brochar? Essa daí. Sempre achei isso bizarro só que nunca falei nada. Minha mãe é brava e acha, veja só, que ainda sou o Fredinho que tira catota do nariz e limpa no travesseiro da sala. Toda vez que a visito diz. “Fredinhôôô, não vai sujar meu sofá com suas nojeiras”. Eu fico puto!
Olha Dr., ou posso te chamar de você? Tanto faz, é que o papo hoje será meio baixo astral mesmo porque estou chateado com o mundo medíocre que me rodeia.
Como é? Já foram os quinze minutos? Que merda, Dr.! Justo agora que estava me aquecendo... Ok, volto amanhã, agora preciso contar mais da minha vida pro senhor. Aliás, gostei de você viu!?

Fredo Sidarta, poeta e um quase suicida escreverá sobre suas sessões de quick therapy para o Nota de Rodapé

3 comentários:

Anônimo disse...

Passa o endereço dessa QUICK

Pedrão disse...

hauhauhauahua!!!! Muito bom!

Pedrão disse...

hauahuahuah!!!! Muito bom!

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