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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 13 de outubro de 2011

Você já era

Ex é um prefixo de origem latina que possui um imã potente. Apesar dos gramáticos garantirem que palavras não podem possuir nada e menos ainda ter imãs, o Ex adora atrair pessoas para sua companhia. Cochilou no emprego, na relação amorosa, na rede social e você vira um Ex. Outra característica dessa palavrinha, quando indica status anterior, é sempre ligar-se com hífen à sua presa.

Não importa que, por muitos anos, você tenha sido alguma mesma coisa. Deixou de ser, é Ex. Passou a faixa presidencial, é ex-presidente. Parou de quebrar narizes, é ex-pugilista. Não roda mais bolsinha, é ex-garota de programa. Perdeu o campeonato, é ex-técnico de futebol. Usou batina e quer casar, é ex-padre. Esqueceu a pinça dentro do corpo do paciente, é ex-médico.

Outra definição, menos formal e mais real, do Ex é: aquilo que foi, não é mais, mas sempre lembra ou é lembrado que foi. Por exemplo, você se separou dela, rasgou os retratos com ela, tem raiva dela, não quer vê-la nem na imaginação. Seu chefe chega e diz: "Encontrei sua ex-mulher na ponte aérea. Parecia ótima com o novo marido." Mais uma característica do Ex, fazer você ficar antigo.

Ou aquele ex-namorado que era capaz de parar o globo terrestre por você e se transformou num bunda-mole. Ele que tinha o beijo mais delicioso da vizinhança e, agora, é de lembrança enjoativa. E uma amiga, candidata a ex, dispara: "Por que você não dá uma chance para o seu ex?" Vamos recordar: tem Ex que deixa de ser Ex. Mas em geral seguem Ex e geram outros. Daí, ex-sogro, ex-cunhado, ex-família da ex-noiva.

Há também os Ex sociais. São um capítulo divertido da comédia dos Ex. Os ex-comunistas que passam seus dias esbravejando contra sindicatos, Lênin e a luta de classes. Carlos Lacerda (1914 -1977), governador do então estado da Guanabara, aliás Carlos Frederico, em homenagem ao Karl Marx e Friedrich Engels, foi um típico ex-comunista. Ferreira Gullar idem. Hoje, há os ex-petistas. Dedicam suas horas a meter o pau, com razão ou não, em qualquer ação ou pensamento que tenham a ver com os ex-companheiros da Estrelinha, esta também ex-vermelha.

Bom não esquecer dos que tiveram uma glória momentânea e carregarão o carimbo Ex pela existência. Os ex-pracinhas passaram alguns meses lutando na Itália e o resto de suas vidas desfilando nos 7 de Setembro. As ex-misses, Universo ou não, mostraram bustos perfeitos e cinturinhas lindinhas por algumas noites na passarela, e vão fazer 40 anos com os outros cochichando: "Você viu como a ex-miss Brasil ficou velha?" Dureza.

Até o momento não tenho notícias de nenhum ex-ecologista, mas uma hora deve aparecer. Imagine o tipo! Só espero que não seja tão paranoico como os ex-fumantes. Gente que baforou a vida toda na sala, na cama, no banheiro e, de um dia para o outro, não pode avistar bituca, cinzeiro, fumantes. Gente que manda a visita tragar seu inocente cigarrinho no quintal longe dos vasos de plantas ou no corredor do prédio ao lado da lixeira.

Para terminar essa crônica, antes que ela vire Ex, é preciso escrever que tem uma categoria dos que nunca serão Ex. Assim, não existem ex-mãe, ex-pai, ex-irmãos, ex-filhos. Nem ex-cidade natal, ex-criança, ex-adulto, ex-velho. Como também é impossível existir uma ex-viúva ou um ex-morto.

Fernanda Pompeu, escritora e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé, escreve às quintas. Ilustração de Carvall, especial para o texto.

3 comentários:

julio disse...

Importante do Ex .., ontem eu e hoje sou Ex .

tabigg disse...

Fernanda,
Em Salvador tinha um bar que chamava Ex-Tudo, agora só existe o outro que se chama Pós-Tudo.

Anônimo disse...

Muito bom, Fe. To curtindo muito seus textos atuais, sem desmerecer os antigos que também estão na categoria dos nunca serão Ex. Beijos. Myriam

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