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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Você tem um amigo

Carole King
Dentre as canções que moldaram a minha juventude, há uma que se destaca. É “You’ve got a friend”, de Carole King. Foi lançada no final dos anos setenta e tão repetida na vitrola portátil do meu quarto que provavelmente até as paredes e roupas do armário ficaram saturadas. Sem falar na minha irmã, que tampouco tinha escolha.

Acho que sou da primeira geração para quem os amigos assumiram importância afetiva equivalente à da família. Até então, éramos tribais, vivíamos em clãs, não tínhamos tanto contato com o mundo externo que nos permitisse estabelecer vínculos profundos. Aliás, nem existia esse papo de vínculo, família era família, e ponto. Era o que tínhamos, não havia do que reclamar, nem muito o que esperar.

Afinidade, acolhimento, aceitação incondicional foram as ideias novas que mais me impressionaram no final da adolescência, sendo eu uma pirralha transgressora, profundamente solitária, deslocada num mundo em que recebíamos tudo pronto e resolvido, coisa que me dava uma agonia profunda.

A canção me oferecia um amigo, algo que eu ainda não sabia muito bem o que era. Compartilhei-a com as pessoas que sentia mais próximas, que vieram a se tornar grandes amizades – algumas até hoje. Pessoas que também estavam tentando driblar as decisões tomadas pelas famílias e ganhar mundo.

Foi o que fiz, e foi muito duro. Sofri essa dureza na carne e no coração, mas tive a sorte de ser amparada pelos amigos – mais ainda pelas amigas – que encontrei, com quem estabeleci cumplicidades e reciprocidades difíceis de descrever. Como disse a escritora portuguesa Inês Pedrosa numa entrevista, “tenho amigos por quem atravessaria um quarto em chamas”.

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo no NR.

11 comentários:

Anônimo disse...

Junia, estou perplexa.Agora penso que vou entender aquela pirralha transgressora que morava no seu coração adolescente e saltou com toda a luz para o sentido do viver em toda sua plenitude conceitual.
BJS da Mummy Dircim

Anônimo disse...

Juniótide,
Há mais afinidades entre nós do que imaginamos!!! Você não vai acreditar, mas essa música também é muito importante na minha vida. Os velhos amigos, quando chego na minha cidade e fazemos a rodinha com o violão, sempre pedem que eu a cante; as crianças (!!!) em casa todas a conhecem por causa dessa coisa de a ouvirem continuamente (KKK). É muito bom ter você como amiga!!!

Shirley disse...

Junia, os comentarios da Mummy Dircim são os melhores. Agora, enquanto lia sua crônica, mal podia me conter para chegar ao final e ver o que ela diria. Pois não deu outra: ela arrasou. A perplexidade da mãe ao ir decifrando a filha. Sinto isso todos os dias com Bel e Tande, descobrindo seus desejos e defeitos e segredos aos pouquinhos. E muitas vezes me sinto perplexa, para o bem e para o mal... Lindinha demais a Mummy Dircim. Beijo pra você e pra ela.

Anônimo disse...

Minha querida, que coisa bonita! Você me emocionou demais! Acompanho sempre sua coluna e me deleito com suas histórias. Esta me comoveu especialmente, pois hoje em dia tenho absoluta certeza de que a nossa família de verdade não nos é "imposta". Ela é encontrada, ela é construída. E para isso é preciso coragem.
Um beijo muito grande pra você, com saudades de amiga,
Marcia

Márcia Cassis disse...

Bom lembrar do tempo em que nos descobrimos amigas.... cúmplices, em que tomamos os nossos rumos, fizemos as nossas escolhas, nos apoiamos.... e lá se vão mais de 30 anos (nossa!)
Bom, muito bom te ter como uma amiga/irmã eterna, que apesar da distância, do tempo enorme de ausência, está sempre presente de alguma forma.
Sua amiga Márcia...

Anônimo disse...

Júnia Puglia! Viajei no tempo...já se foram uns 35 anos...longos passeios pelas "ELES" ouvindo Carol King, mas também Simon e Garfunkel, assistindo o show da lua no Lago Paranoá. E assim a gente foi desvendado os mistérios da vida, dentre eles, esse chamado amizade. Sucederam tempos de ausências, outros de reencontros. E aqui estamos! Amigas! Obrigada pela presença na minha vida! Bj, Olga Ronchi

Anônimo disse...

Olga, testemunha ocular da mania "You've got a friend", e as outras que vieram depois; minha querida mãe, tendo que lidar com essa filha nada fácil: obrigada, obrigada. Júnia

leila disse...

RASGA CORAÇÃO! FICO SEMPRE À ESPERA DAS TUAS CRONICAS TÃO DELICIOSAS. PERCEBER ATRAVÉS DAS PALAVRAS ESCRITAS QUE A MENINA QUE FAZIA PERGUNTAS DIFÍCEIS ACABOU ENCONTRANDO RESPOSTAS PARA A MAIORIA DELAS, ME LEVA A REFLETIR SOBRE A BELEZA DA VIDA, DAS PESSOAS QUE PASSAM POR NÓS DEIXANDO ALGO DE BOM. BEIJOKAS LINDA MULHER! amamos essa família preciosa...

Anônimo disse...

Não se preocupe, curti muito You've got a friend. Essa música acalmou meu coração quando ouvi a frase: "família a gente não escolhe, os amigos, sim!" Tenho a sorte, de hoje, entender e concordar com essa frase, mas levou muito tempo. Márcia Ester

Anônimo disse...

Junia, emocionante o seu relato. Essa música também marcou a minha adolescência. Apenas uma diferença: Criada igualmente dentro dos rígidos padrões familiares da época, quando escutava essa música, imaginava " get a friend" como sendo algo impossível. Impossível pois, havia incorporado aqueles valores que para mim eram verdade absoluta. Só com o passar dos anos, percebi que era órfã de amigos. Dura verdade! Hoje, mãe, não permiti que minhas filhas se tornassem órfãs, como eu. Parabéns por levantar uma questão, aparentemente simples nos dias atuais mas, relevante no contexto social, no que se refere ao papel da família. R.Almeida

Anônimo disse...

Júnia querida, que lindo! Obrigada! Bjs Carla

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