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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Estilista

por Carlos Conte*

Conheci o estilista quando era criança. Estilista. Assim gostava de ser chamado por achar, talvez, uma designação mais nobre para sua profissão de confeccionar chapéus. Seria, então, chapeleiro. “Não! Estilista!”, ele repetia. E me passava a tarefa de desfazer um nó entre duas pecinhas retorcidas de metal. Já viram isso? É um jogo de paciência cujo objetivo é desenganchar duas barrinhas de ferro torcidas, emaranhadas, entrelaçadas, como se fossem peça única. Mas não são. Joguinho malandro, ladrão. Como ficava aflito! Sempre travava. Minhas mãos fedendo a ferro. Nada do nó se desfazer. “Calma, meu! Não é na força. É no jeito”. Vendo minha angústia, o velho largava sua máquina de costura. “É assim: passa essa pra cá, gira a outra pra esquerda, hein?, pra esquerda! e depois é fácil... tá vendo?...”. Pronto, o passe de mágica: as pecinhas se desligavam naturalmente. A cara dele, nessa hora, parecia a de um mágico no momento em que conclui com êxito sua apresentação. Um rosto meio safado, do tipo: “Mas é tão fácil!...”. Que porcaria! Saía dali emburrado, detestando o italiano. E as mãos fedendo a ferro.

Sem tirar os olhos miúdos da máquina, ia costurando os tecidos, dobrando, cortando, com suas mãozinhas brancas. Às vezes me pedia um carretel de linha ou um pedaço de pano na estante de madeira que ia do chão até o teto. Difícil ver o velho parar a máquina. Era rápido. Num só dia, fazia dezenas de chapéus, que ele expunha num pequeno móvel de vidro. Uma obsessão pelo ofício, que só vendo. Enquanto conversávamos, ia cosendo, unindo com pontos firmes o tecido na aba, à medida que o pé, embaixo da máquina, fazendo força, a perna magra, pedalava, pedalava, movimentando rapidamente a correia, que, por sua vez, ditava o ritmo da agulha, que traçava seu caminho, sempre no mesmo sentido, subindo e descendo.

Falávamos, quase sempre, de futebol. Ele, palmeirense roxo; ou melhor, palestrino, da velha guarda. Eu, corintiano, não menos fanático. Era época do casamento entre o Palmeiras e a Parmalat. Época sombria para a torcida mosqueteira. Só dava Palmeiras. Também, com aquele dinheiro! Aprendi com o meu pai que a Parmalat comprava todos os juízes, e sempre que a discussão engrossava eu recorria a esse argumento. Até hoje a final do Campeonato Paulista de 1993 está engasgada. Como não expulsar o Edmundo? E depois mandar pra rua três dos nossos, inclusive o goleiro Ronaldo! Juizinho desgraçado, esse José Aparecido! Jogamos com raça. O Viola estava na melhor fase. Mas o Neto, pra variar, fora de forma... Fiquei duas semanas desviando de bike pela rua Luís Martins, para não ter que encarar o Pezzutti.

Quando me mudei para o sobrado da City, perto do cemitério, as visitas ao “estilista” se tornaram menos frequentes. Comecei a trabalhar. A faculdade me tomava bastante tempo. E talvez influenciado pelos ares fefelechianos, comprei, aos 18, minha primeira boina. Que pose! Preta, marrom, azul, fui comprando. Umas de pano leve, outras mais grossas, pra segurar o sereno. Cheguei a levar amigos pra olhar as boinas no Pezzutti, que se orgulhava das reportagens de jornal sobre sua oficina expostas na parede, e dizia que em São Paulo só ele e uma outro conhecido na rua Augusta continuavam fazendo chapéus e boinas de modo totalmente artesanal. A maioria já vem pronta da fábrica, ou praticamente pronta, faltando só juntar as partes.

No forro, a etiqueta: “Estilista Pezzutti – alfaiate – S. Paulo”.

Não fez nenhum discípulo. Uma vez, ele me disse, tentou ensinar o irmão, mas foi uma desgraça. Não tinha mão pro negócio. Errava em coisas bobas, fáceis. Além do mais, tem que ter paciência, o que o irmão nunca teve. Nem eu, para desembaraçar as pecinhas de ferro.

Por excesso de generosidade, dei uma boina para o Vini, de aniversário. Outra emprestei para o Dan, e caiu tão bem nele que deixei de lembrança. Um primo meu, do interior, ficou gamado na marrom, mas a marrom eu não dava! Presenteei com a azul. E a marrom, depois de uma viagem à Ilha do Cardoso, sumiu. Só ficaram as fotos da pescaria em que eu usei a boina marrom, minha preferida. E minha última. Precisava comprar uma boina.

Fazia meses que não passava na oficina do velho. Quando desci no ponto, vi o Pezzutti de costas, mexendo no armário; o de sempre: baixo, ombros caídos, magro, camisa branca, calça social. Mas a máquina estava parada. Atravessei e chamei: “Ei, seu Lourenço!”. Ele se virou. À meia-luz, porque a lâmpada estava desligada, demorei para perceber que não era o Pezzutti. “Não, sou o irmão dele, Alberto. Vai fazer dois meses que o Lourenço morreu, você não sabia?”. Não tinha reparado na placa fixada na parte de cima do sobrado. Expliquei que era cliente, às vezes ajudava; na verdade, amigo, e que meu avô também o conhecia. A máquina estava no lugar de sempre, repleta de tiras de pano, como se alguém ainda fosse trabalhar. Nada do joguinho das peças de ferro, que eu nunca consegui separar. Nada de boina. Ao redor, caixas de papelão empilhadas.

* Carlos Conte, sociólogo e cronista, mantém a coluna mensal Casa de Loucos, uma homenagem aos mestres João Antônio e Lima Barreto.

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