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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 8 de abril de 2014

Ser jornalista é massa sim, pessoal

por Luiza Bodenmüller*

Um monte de gente comemorando o dia do jornalista (ontem, 7 de abril), que é meu também.

Jornalista é como gremlin: você conhece um e vai conhecendo outro, outro, outro... e quando percebe, boa parte dos seus melhores amigos e seus vínculos mais profundos, são do mesmo círculo. Esse povo que insiste em querer saber de (quase) tudo; em maior ou menor grau, "mulheres de malandro", que passam a semana reclamando das agruras da profissão e, lá pelas tantas, pelas linhas de um texto qualquer, fala sozinho "que puta texto" e se empolga de novo e de novo e esquece de toda a birra, toda a decepção.

Ser jornalista é massa sim, pessoal. Acho que são poucas as profissões que permitem o contato com tanto assunto, tantas histórias, tanta gente: jornalista entende (temporariamente) de mecânica de aviões num dia e dos efeitos do princípio ativo da maconha no outro. Entende ou finge que entende. Se interessa ou finge que se interessa. Porque, convenhamos, nem tudo são flores.

Então, colegas, pergunto: tá todo mundo ganhando bem? (Não "o que merece", mas o que é justo). Tá todo mundo sendo respeitado no local de trabalho? (Não tô falando de bajulação, tô falando de respeito mesmo, o bom e velho). Tá todo mundo indo pras manifestações com equipamento de proteção? (Não tô falando de máscara cirúrgica, tô falando do mínimo de condição de trabalho em situação de risco). Tá todo mundo apurando direitinho? (Não tô falando do nome do entrevistado soletrado corretamente, tô falando de precisão na informação, de cuidado, de responsabilidade). Tá todo mundo trabalhando com aquilo que gosta dentro do jornalismo? (Não tô falando de escolha, tô falando de acomodação, do "não posso ir além, então tá bom"). Tá todo mundo tendo folga, tempo livre e férias? (Não tô falando daquela cerveja acidental numa segunda-feira, tô falando de descanso, de contato humano, de aconchego, de gastar o tempo do jeito que você quiser, sem o celular vibrar com algo pretensamente urgente). Tá todo mundo saudável? (Não tô falando daquele almoço-salada porque o tempo não deixa comer mais que isso, tô falando de colesterol, horas de sono, check-ups, estômago sem gastrite por causa de estresse-café-cerveja).

Ser jornalista é massa sim, pessoal. Mas deixemos, só por hoje, os eufemismos de lado: não somos super-heróis (ainda que muitos cultivem essa pretensão), somos peões.

Muita gente diz que jornalismo é cachaça. Concordo. E o meu desejo pra hoje é que ninguém se entregue de cabeça ao vício.

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Luiza Bodenmüller, jornalista, editora online da Pública - Agência de Jornalismo Investigativo

segunda-feira, 7 de abril de 2014

Uma bisnaga de lança-perfume por uma britadeira? Vai aê?


por Cidinha da Silva*

Acocorada entre três pedreiras estava a moça. Entra no ônibus um vendedor de doces que faz ruir todas as certezas dela sobre a leveza soteropolitana dos ambulantes em coletivos, e certa dureza dos paulistanos.

Senhoras e senhores, ele dizia, não estou aqui para vender nada. Papai do céu me enviou do fundão da zona Leste para adoçar a vida de vocês. Vou dar uma balinha para cada um (começa a distribuí-las), podem pegar sem medo, não é de Cosme e Damião, não. A moça das pedreiras olha-o com expressão repreensiva, qual é o problema dele com Cosme e Damião? O artista parece compreender e conserta: também não é de Jesus, porque eu não sou religioso. Minha clientela é vip, como a do Complexo do Alemão. Todo mundo leva bala, de graça. Lá, de calibre 12, na minha mão, de calibre doce.

O senhor ali da esquerda, pode pegar a bala sem medo, não dói, nem tá envenenada. Você aí, senhora, pode me olhar com essa cara de vaso, não faz mal. Meu pai é jardineiro, adoro flores.

Assim que termina a distribuição gratuita, o rapaz desenvolve a segunda parte da cena. Agora, pessoal, vou colocar na mão de vocês, sem nenhum compromisso, um chocolate delicioso. Para as mulheres na TPM é um bálsamo; para a criançada, lambuzação garantida; para os homens, uma compensação para o futebol que não vai bem das pernas, mas também uma comemoração para quem, como eu, é do Bando de Loucos.

Pode pegar, sem compromisso. A data de validade está na frente, do lado direito. Tudo isso, senhoras e senhores, por apenas um real. Quem comprar um chocolate desses me ajudará muito com as minhas coisas.

Que lindo! A moça pensa. Ele deve juntar esse dinheiro para pagar a faculdade. Mas ele completa: vocês me ajudarão a pagar a prestação do meu Scort. Scort de água, Scort de luz. Também do meu Astra, que miséria pouca é bobagem. O Astra das minhas contas astrasadas.

Todo mundo compra, sorrindo. Alguém comenta de lado que no trem são dois por um, o baleiro tá tirando dinheiro dos tontos.

Ele finaliza: vamos, vamos pessoal, só um real! No outro ônibus a galera gostou tanto que comprou de quilo e comeu chocolate até com papel. Vocês não vão querer ficar para trás, não é?

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 escritora, Cidinha da Silva mantém a coluna semanal Dublê de Ogum.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

Desarranjos

por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna*

Essa vida de cronista é feita de um material curioso, pronto para ser preenchido, dobrado, apagado, espichado, encurtado, com um quê de imprevisível. Você começa a pensar num tema, passa dias matutando sobre como vai desenvolvê-lo, alinhava algumas frases e aí um outro assunto pula na frente e começa a te atormentar e não te larga, até que você desiste do que estava escrevendo e o acolhe. Como os sobrinhos-netos fizeram várias vezes, subindo para o meu colo enquanto eu tentava escrever, na casa deles, lá em Steinhausen. Como resistir? Eles subiam, bisbilhotavam um pouco, mexiam no computador e nas canetas e depois iam procurar uma atração mais interessante que os cacarecos da mesa da tia. Deliciosos.

Remédios que curam provocam doenças. Enquanto controlam ataques epilépticos ou batimentos cardíacos, enquanto compensam a insuficiência de insulina ou impedem a proliferação de células cancerosas, ou mesmo quando se dedicam a debelar uma reles dor de cabeça, enfraquecem os dentes, liquidam abundantes cabeleiras, causam gastrite, taquicardia, insônia e tantas outras coisas.

O brilhantismo daquela pessoa que acabou de entrar na sua equipe de trabalho, atraindo tanta admiração e dando a sensação de ter sido uma ótima escolha, será uma bela encrenca em alguns meses, quando ela insistir em brilhar de qualquer jeito, mesmo depois de constatada sua dificuldade para lidar com tarefas concretas e coletivas, interagir e compartilhar. A facilidade com que aquele amigo te diverte com suas tiradas geniais e seu olho inclemente se tornará um peso difícil de manejar quando a precisão de serenidade se impuser, ou quando o silêncio e o recolhimento forem vitais.

O que tanto te encantou e atraiu no seu amor eventualmente poderá ser motivo de amargura, distanciamento e até mesmo rompimento. Aquilo que te seduziu numa ideologia política ou num estilo de vida, te acenando com a possibilidade de viver num mundo mais compatível com suas crenças e expectativas, em algum momento se mostrará incoerente, vazio ou até repulsivo.

Por que? Porque somos imprevisíveis, equivocados, imperfeitos, mutantes, desarrumáveis. Porque as coisas que nos cercam e fazem a nossa vida também são. Ainda bem.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Escolha sua data

1964 + 50
Histórias de pessoas de carne e osso - e também de personagens de papel - que viveram na roda viva da ditadura militar.Novos episódios toda quinta-feira.

(Episódio 1)

por Fernanda Pompeu  ilustração Fernando Carvall

Todo mundo conhece a brincadeira do primeiro de abril. O mais verdadeiro dos dias, pois homenageia a mentira. Essa nossa companheira por toda a vida. A questão não é se a gente mente, mas quantas vezes e em que situações faltamos com a verdade. Por que mentimos? As respostas ocupariam uma internet inteira. A lembrança é que, na minha infância, eu adorava o primeiro de abril. Oportunidade de pregar uma peça em alguém e dizer em júbilo: "Caiu, primeiro de abril!"

Os militares e civis golpistas de 1964 também se preocuparam com a data. Eles pensaram: Não pode uma revolução aniversariar num primeiro de abril. É dar muita vantagem para a oposição. Daí, pelos vinte e quatro anos seguintes, se fixaram no 31 de março. Junto apelidaram o golpe de revolução, acrescida do adjetivo redentora. Qual o argumento? Os primeiros tanques de guerra começam a sair dos quartéis ainda na noite do 31 de março. Golpe é palavra feia. Melhor usar o substantivo revolução. Esta remete à mudança, novidade, esperança.

Até hoje estamos pagando a conta do Golpe do dia da mentira. Minha geração – eu tinha oito anos em 1964 – mergulhou numa adolescência e primeira juventude sem liberdade política. Leia-se sem direito ao voto, sem direito de se expressar com vigor e sinceridade. Submergimos num Brasil de uma única versão – a dos militares no poder. Eles diziam que queriam segurança, ordem, progresso. Conseguiram tudo isso para eles e seus amigos. Para a maioria das brasileiras e brasileiros, promoveram mordaça e eterno outono.

Os mais apressados dizem: "Já passou, já passou." Os mais jovens reclamam dos paradoxos da democracia e da caduquice do nosso sistema de representação. O slogan "Isso não me representa" ganha muros e postagens no Facebook. Muito lindo, muito bom. Pois, democracia a gente inventa todos os dias. Mas também temos que vigiá-la! O jeito fascista e truculento de tentar resolver os conflitos segue vivíssimo. Você tem alguma dúvida? O discurso de empregar a violência para derrotar a violência não é uma pegadinha de primeiro de abril.

A frase é batida, quase um clichê. Mas também é verdadeira: "O passado quando não conhecido é ameaça de volta". Mesmo que quando chega com outra máscara, outra roupa, outro corpo. A legítima lição da ditadura é uma só: nunca mais vivê-la!

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Fernanda Pompeu é escritora e redatora. Fernando Carvall é o homem da arte.

terça-feira, 1 de abril de 2014

O fetiche Moleskine


por Tomás Chiaverini*

O Moleskine é um caderninho simples, originalmente preto, com páginas creme, marcador de tecido e um elástico, geralmente também preto, que o mantém fechado. Por sua simplicidade clássica, é um objeto bonito de se olhar. O Moleskine é também muito mais do que isso. É um fetiche. Carrega em si algo além da matéria que o constitui. O fetiche do Moleskine está intimamente ligado ao fato de ele ter sido o caderno de anotações de estrelas da intelectualidade como Van Gogh e Hemingway. Um Moleskine pequeno custa cerca de sessenta reais. Um caderninho idêntico, mas sem a marca do fetiche, custa cerca de vinte. Durante anos, tomei nota numa imitação de Moleskine pela qual não paguei nada, ganhei de brinde de um fábrica de móveis.

O nome da fábrica vinha escrito na capa, mas eu risquei com uma caneta preta e ficou quase imperceptível. Quase. Apesar da forma similar, apesar de cumprir os propósitos de guardar minhas ideias, meu caderninho carecia de fetiche. Ao longo do tempo, lutei com todas as minhas forças racionais para ignorar essa deficiência e segui tomando notas no brinde da fábrica de móveis. Considero ter juntado algumas ideias valiosas lá dentro.

Até que outro dia, flanando pela livraria Cultura, topei com uma estante só de Moleskines, e imediatamente o sorriso do capital se abriu para mim. Ele sempre dá um jeito, isso é certo. Os homens poderiam muito bem ser separados entre aqueles que vivem mergulhados na miséria e aqueles que, cedo ou tarde, se verão seduzidos pelo sorriso perolado do capital.

Contas pagas, poucas dívidas, cartão de crédito em níveis aceitáveis, e aquele caderninho ali, exalando seu fetiche esculpido através dos séculos... E o que, afinal, são sessenta reais diluídos em anos, o que são sessenta reais diante da possibilidade de ter a criatividade anabolizada por páginas dotadas de tanto charme e história? Comprei o tal Moleskine. Vermelho, só pra ser diferente. Sentei num canto, tirei o plástico e dei uma folheada. Bom papel, boa encadernação, bom formato. Nada que valha sessenta reais, mas o que importa é que o fetiche está lá. E funciona. Enquanto folheava meu primeiro Moleskine, senti uma imediata urgência de anotar algo.

Desgraçadamente, não tive nenhuma ideia que valesse a honra de inaugurar a sequência de genialidades que certamente preencheriam meu futuro companheiro de glórias literárias.

Sem mais a fazer, dei uma última folheada e notei que por dentro da contracapa há um charmoso bolso de papel com laterais de tecido. Lá de dentro puxei um folhetinho dobrado em sanfona. O mesmo texto se repetia em várias línguas. Li o primeiro, em inglês. Contava a história do caderno, que tinha nascido numa lojinha em Paris há mais de duzentos anos, falava dos intelectuais que o utilizaram para criar coisas tão fantásticas, e de como aquele objeto estava fadado a encerrar as mais luminares ideias da espécie Homo sapiens.

Enfim, estavam lá, preto no branco, todos os componentes do fetiche Moleskine. Uma explicação que se pretendia poética e afetuosa mas que me causou o efeito contrário. De alguma forma, ao gabar-se das próprias conquistas, meu caderninho inanimado destruía sua própria aura, como um correspondente de guerra que vai tomar chopp com os amigos usando botas de combate e colete cáqui.

Ao evidenciar de forma tão despudorada que vendia fetiche, que vendia o sonho de um dia ser Hemingway ou de que ao escrever ali as pessoas misteriosamente se aproximavam daquelas figuras míticas, o Moleskine moderno deixa claro que você é apenas mais um mortal em meio a centenas de milhões de aspirantes a intelectuais. E que caderninho nenhum vai te transformar no gênio que você não é.

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Tomás Chiaverini é autor do romance Avesso (Global), e dos livros reportagem Cama de Cimento e Festa Infinita (ambos pela Ediouro). Mantém a coluna mensal Abelha na Orelha.
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