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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 26 de maio de 2015

O tempo que nos resta


por Fernando Evangelista* 

Minha crise existencial começou numa longínqua manhã de agosto de 2012, exatamente às 15h58min, quando a norte-americana Katie Ledecky tocou sua mão direita na borda da piscina do Parque Aquático de Londres e sagrou-se campeã olímpica de natação. Katie tinha 15 anos de idade.

“Ultimamente têm passado muitos anos”, percebeu Rubem Braga décadas atrás. E eles, os anos, parecem mais velozes e fugidios do que a adolescente americana, nascida em 17 de março de 1997. Valha-me Deus, 1997 foi logo ali, quase um piscar de olhos, quase anteontem. Certo? Errado – faz um tempão.

Em março de 1997, o Brasil mal conhecia o tenista Guga Kuerten – passou a conhecê-lo depois da vitória em Roland Garros, em junho daquele ano. Logo em seguida, outro cabeludo surpreenderia o mundo, sendo anunciado – com pompa e capim – como o primeiro mamífero clonado da história. Muita água poluída correu sob a ponte: Guga está aposentado e a ovelha Dolly já passou desta para a melhor.  

Foi o ano do Guga, da Dolly e do escândalo da compra de votos no Congresso, para aprovação da emenda da reeleição do Fernando Henrique Cardoso, que na época não gostava de maconha. Lula e o PT eram baluartes da ética e denunciaram a falcatrua.

Quando a campeã olímpica nasceu, ninguém conhecia a inglesa J. K. Rowling, porque a saga Harry Porter ainda não havia sido lançada. A Princesa Diana não havia morrido, Titanic era uma famosa tragédia marítima (e não um estrondoso sucesso cinematográfico) e a seleção francesa de futebol havia derrotado o Brasil apenas uma vez, na Copa de 1986.

Alhos e bugalhos à parte, há algo em comum entre navios, ex-presidentes, bruxos ingleses, uma princesa samaritana e a seleção brasileira. Todos prometeram fantasia e um final redentor, bateram recordes de popularidade e, em certos momentos, nos deram a sensação de invulnerabilidade.

Entretanto, a história ensina e a morte confirma, essas promessas só funcionam na literatura de ficção, porque na ficção da política ou mesmo na vida real, elas frequentemente acabam em retumbantes quebrações de cara, em naufrágios irremediáveis, como aquele (já faz tanto tempo) jogo entre Brasil e Alemanha na Copa de 2014.

Voltando ao passado remotíssimo, Neymar tinha 5 anos em 1997 e o maior medalhista olímpico da história, o anfíbio Michael Phelps, 12. Em 1997, a internet engatinhava e o bate-papo virtual mais conhecido era um troço chamado mirc – que a gurizada só usava depois da meia-noite por causa da conta telefônica. Não existia tela-plana, televisão HD, iPads, iPods, Android ou Michel Teló.

Para não pensar na rapidez do tempo, resolvi desperdiçá-lo na internet. E passei a vasculhar nas gavetas virtuais a identidade do esportista mais velho a conquistar uma medalha olímpica. Este deveria ser a minha referência e exemplo. Tremi de emoção ao descobrir que o mais velho atleta olímpico a ganhar uma medalha tinha 72 anos.

O sueco Oscar Swahn – este é o nome do vovô – conquistou medalha de bronze nos jogos olímpicos da Antuérpia em 1920. Tudo perfeito, não fosse um detalhe: ele ganhou medalha e fama mundial praticando “Tiro Duplo ao Veado”. Sendo eu vegetariano e a favor da diversidade, este sueco foi uma baita decepção.

Depois da descoberta deste vovô, até alegrei-me com o ouro conquistado pela adolescente Katie Ledecky, que poderia estar por aí matando bichos, mas vive de superar limites e bater recordes, numa luta constante contra o tempo.

E esta parece ser a grande ironia porque quanto mais os homens e as mulheres superam cronômetros e limitações, o tempo se defende correndo mais e mais, para que ninguém o alcance, nem mesmo o jamaicano Usain Bolt.

A nós, pobres mortais, medalhistas ou não, cabe a tarefa de lembrar o tempo que passou e, a partir daí, sem pressa e sem preguiça, usufruir o tempo que nos resta.  

Fernando Evangelista, jornalista, mantém a coluna semanal Desacato.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

Caixa de surpresas


por Júnia Puglia   ilustração Fernando Vianna*

Na área de embarque do aeroporto de Quito, entramos numa livraria e procuramos a estante de Rosa Montero, à época bem menos conhecida e traduzida no Brasil. Faz uns doze anos. Cada uma de nós três comprou um livro diferente, com o acordo de fazermos um rodízio deles. Não lembro qual era o meu. Sentamos à espera do nosso embarque, folheando os livros novos. O título do que a colega ao meu lado havia comprado me chamou a atenção e pedi para vê-lo. Era "A louca da casa", que começa com uma instigante e divertida reflexão sobre a memória, tanto a individual como a compartilhada entre pessoas, por exemplo, da mesma família. Fala da construção que cada um faz dos fatos e situações vividas, tornando-as únicas, e das enormes discrepâncias entre os registros que individualmente fazemos de um mesmo episódio. Não consegui largar o livro e nunca o devolvi à sua dona.

Dado que a memória não é absoluta, muito menos objetiva, sendo, portanto, inútil buscar nela a verdade dos fatos, fica fácil entender a diferença entre o que sempre lembraremos e o que nunca esqueceremos, nuances sujeitas, em larga medida, aos sentimentos que associamos ao que nos acontece. E lembranças não pedem licença.

Durante as férias na fazenda, que eu detestava mas nunca consegui driblar, a solidão era a minha melhor amiga. Se fosse no meio do ano, a colheita do milho verde me dava algumas alegrias, como o curau, um dos doces preferidos, e o dia de pamonha, que era um acontecimento. Sacos enormes de espigas eram colocados na varanda de trás da casa e um grupo de umas dez mulheres se organizava para a trabalheira. Descascar e limpar as espigas cuidadosamente, de maneira a preservar a palha o mais inteira possível, ralar o milho em grandes ralos feitos de folhas de latas de óleo de vinte litros furadas com pregos, costurar à máquina bolsas com as folhas de palha, que receberiam a massa de milho verde, amarrar as bolsas cheias com finas tiras da mesma palha, ferver panelões de água e neles cozinhar as pamonhas. E eu ali no meio, ralando milho verde horas a fio e aprendendo o mundo daquelas matutas no conversê que nunca parava e era pura diversão. Era muito transparente o ar nos dias de inverno na roça.

Assim, passou-me voando pela cabeça a cena do grupo ralando o milho verde, enquanto eu escrevia o primeiro parágrafo. Que emendei, por razões insondáveis, com o relato do escritor chileno Antonio Skármeta sobre sua paixão adolescente pela Dalva de Oliveira. Nossa grande estrela do rádio excursionava pelo Chile, e o rapaz de quinze anos foi assisti-la. Saiu em êxtase, teve febre, insônia, inapetência, até descobrir onde a sua deusa estaria e ir até lá, levando um ramalhete de rosas, que lhe custou a mesada inteira. Dalva se comoveu com aquela aparição e, não sendo nada boba, sacou a fornalha que o consumia. Deu-lhe um beijo e lhe escreveu na capa de um disco: "ao meu único amor chileno". Queria que você visse a expressão dele contando a história. Emende aí à vontade.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

terça-feira, 19 de maio de 2015

O adesivo do Fusca


por Fernando Evangelista*

As seis letras estavam grudadas no vidro traseiro do fusca: vida ok.

Eliza estava no trânsito, viu o fusca e não esqueceu aquele adesivo. Alguns dias depois, no sofá da minha casa, já tarde da noite, ela me disse:

– O dono do carro poderia ter escolhido aquelas lições de autoajuda ou gratidões religiosas. Preferiu a simplicidade.

– Tá, e daí?

– Daí nada.

Mas mudou de ideia, tomou um gole do vinho tinto, e se corrigiu:

– Daí tudo – ela disse – porque, em primeiro lugar, é muito difícil ser objetivo e simples. A gente tem a tendência de complicar as coisas. E também porque é assim que deve ser a vida, pelo menos a vida que procuro ter: curta nas explicações e infinita nos sentidos.

Ela esticou as pernas no sofá – sempre que se põe a filosofar ela estica as pernas – e continuou:

– Uma vida ok nas miudezas da rotina, simples no banal e no desimportante e, por isso mesmo, extraordinária. Tô viajando, né?”.

A viagem dela me fez pensar nas minhas crônicas e reportagens. Queria, sempre quis, e falei isso pra ela, produzir textos como o adesivo do fusca. Certeiros, sem firulas ou truques. Nunca consegui.

Citei Drummond em Confissões de Minas: – “certos espíritos dificilmente admitem que uma coisa simples possa ser bela, e menos ainda que uma coisa bela é, necessariamente, simples”.

A partir daí, pensando em voz alta, e nem um pouco impressionada com minha memória literária, ela juntou tudo e me confundiu, como de costume:

– No fundo, por alguns anos, andei procurando um amor que me levasse e um texto que me escrevesse e que ambos – amor e texto – deixassem a minha vida mais ok.

Não sabia a qual texto ela estava se referindo, supôs que estivesse falando da própria história.

– É tudo uma maneira de ver, entende? Quando menina, li uma frase assim: ‘Não vemos as coisas como são, mas como somos'. De quem será essa frase?

Eu não sabia. Ela continuou:

– Quando parei de procurar, encontrei. Não é louco isso?

– .....

– É louco ou não? – ela insistiu

– É – respondi.

Depois de algum tempo em silêncio, perguntei se ela estava bem. Eliza encolheu as pernas, tomou mais um gole de vinho, levantou as sobrancelhas e disse, sorrindo:

–Tudo ok.

E adormeceu no sofá.

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Fernando Evangelista escreve as terças no Nota de Rodapé. Foto: arquivo do autor.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Os fundos


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Os milhares de motoristas e passageiros que percorrem a W3 norte o tempo todo não veem, não têm como ver. Precisei morar vinte anos na região pra perceber.

Tem a avenida, com blocos comerciais dos dois lados, em toda a sua extensão e, atrás destes, no rumo oeste, pequenos blocos com lojas no térreo e dois ou três andares de apartamentos. Mais atrás ainda, outra linha de lojas e apartamentos. Entre estes e os conjuntos de casas, uma calçada.

Como em tudo o que se construiu aqui em Brasília, especialmente no Plano Piloto, houve uma ideia, um conceito inicial para esse estranho lugar, onde tudo parece improvisado. Ignoro totalmente qual tenha sido a proposta, mas acho que ela ficou perdida pelos caminhos gerenciais burocráticos. Um sinal disto são os endereços ininteligíveis, até mesmo para esta cronista candanga veterana.

O que se encontra, ao explorar a área, é uma calçada que começa e acaba de repente, começa e acaba de novo, sem qualquer razão aparente. De um lado, os fundos dos apartamentos, meio brutos, mal acabados e cheios de grades ⎼ sob cuja marquise às vezes se abrigam alguns moradores de rua com suas sacolas e cobertores ⎼, pessoas passeando cachorros, carros abandonados, carros estropiados, carros estacionados sobre a calçada, pneus velhos, oficinas mecânicas informais em vagas de estacionamento, lojas transformadas em igrejas evangélicas, pequenos restaurantes que servem por quilo, academias de ginástica e artes marciais e toda uma variedade de pequenos negócios. A melhor parte: como a circulação de veículos na área é complicada e desorganizada, os carros em movimento são poucos e, portanto, não tem barulho de trânsito.

Do lado oposto, as quadras residenciais, com suas casas geminadas e alguns blocos de apartamentos bem mais arrumados, cheias de gramados, belas árvores e cercas vivas. Um verde exuberante e bem cuidado, que abriga passarinhos, calangos, gatos, insetos, borboletas e parquinhos infantis onde ainda não vi criança brincando. Entre os dois territórios quase inconciliáveis, a estreita calçada que aparece e desaparece. Pouca gente circula por ela.

Nas primeiras caminhadas, eu ia imaginando como seria se aquela passarela intermitente fosse transformada num bulevar para pedestres, bem pavimentado e ajustado a caminhantes de todas as idades e diversas condições físicas. Em linguagem moderna, que tivesse acessibilidade, iluminação e sinalização adequadas, talvez uns bancos de praça e alguns lugares de descanso e encontro. Imaginar não paga imposto, inclusive porque desconfio que este lugar deve ocupar a milésima posição na ordem de prioridades do governo local.

Além de mais bonito, atrairia o uso dos moradores, que, no entanto, parecem não estar nada interessados. Minha sensação é de que demos as costas para este lugar, porque fica nos fundos de uma área comercial nada elegante, algo que a vizinhança despreza e não quer nem ver.

Pensando melhor, podia ficar tudo como está, só que com uma calçada contínua e lisinha, onde ninguém estacionasse seus malditos carros, pra que a gente pudesse percorrer a pé, sem interrupções, esse furdunço urbano inesperado no coração do Plano Piloto, cidade bem arrumada, feita para pessoas sobre rodas. Plano é bom, mudar o plano pode ser melhor.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Única

Passados os 50 anos do golpe militar a coluna 1964+50 segue firme em 2015, mas agora com novo título: VIVOS. Afinal, mortos e desaparecidos estão vivos na nossa memória e na nossa história.


por Fernanda Pompeu   ilustração Fernando Carvall

Inês Etienne Romeu
Nascimento: 1942
Cidade natal: Pouso Alegre - MG
Morte: 27 abril de 2015
Local final: Niterói - RJ

Dizem que morrer dormindo é dádiva. Talvez tenha sido uma espécie de agradecimento a Inês Etienne Romeu, morta no último 27 de abril, aos 72 anos, na graciosa Niterói. Não fosse ela com sua memória e coragem, provavelmente pouco ou nada saberíamos da tristemente hoje famosa Casa da Morte, Petrópolis, Rio de Janeiro. A Casa era um centro clandestino de interrogatórios com torturas. A exceção de Inês, todos os hóspedes de Petrópolis foram “desaparecidos” depois de assassinados.

Ela conseguiu se safar em troca de ser uma delatora. Papel que jamais cumpriu. Acabou condenada à prisão perpétua. Foi solta após a Anistia de 1979. A última presa política a ser libertada e única sobrevivente da Casa da Morte revelou nomes de algumas das vítimas, apelidos dos torturadores e narrou seus métodos de interrogatório. Descanse em paz, Inês Etienne Romeu!

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Fernanda Pompeu é a mulher do texto Fernando Carvall é o homem da arte
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