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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 31 de agosto de 2010

O amor mora no 202?

Queridaaaaa, cheguei!

“Amooor, seguei”. É uma frase simples, inócua, mas que consegue estragar o pouco de humor que me resta no final do dia. Ela é dita pelo vizinho do lado, diariamente, quando o dito cujo chega do trabalho, entre seis e meia e sete e meia da noite. Eu disse: todos os dias. A parede fina do apartamento me permite (talvez me obrigue) ouvir a saudação do rapaz a sua amada com toda a desnecessária sonoridade.
Vivo neste cubículo há seis meses, mas o fantasma da alegria alheia me persegue há menos. O casal se mudou para o 202 há uns três meses.
Nunca conversei com eles e os vi algumas poucas vezes no elevador ou no corredor no prédio. Parecem pessoas normais. Até gente boa, eu diria. Mais ou menos da minha idade. Em tese, poderiam perfeitamente fazer parte do meu ciclo de amizades. Mas eu trocaria meus vizinhos por um aprendiz de violoncelo, uma evangélica fervorosa ou um casal ninfomaníaco.
Nada contra o amor. Fico contente que ainda haja no mundo pessoas que consigam dividir o mesmo espaço - nesse caso, mínimo, escasso - e serem felizes. Meu ódio é contra a mesmice, a monotonia, e, principalmente, a imbecilidade de se dizer diariamente um “amor, cheguei”.
Sempre que ouço o Romeu chegando, penso: como alguém pode sentir qualquer tipo de carinho pelo companheiro que faz, diariamente, com aquela entonação idiota que algumas pessoas usam para falar com as crianças ou os cachorros, a mesma declaração (batida) de amor? E como pode alguém manter intacto o carinho e respeito conquistados ao fazer, todos os dias, com a mesma voz de babaca, a mesma declaração (batida) de amor?
Quando a chave roda na porta do 202 me sobe um frio na espinha e o tempo se congela. Os dois ou três segundos de silêncio entre o ranger da madeira e a frase dita são uma eternidade, a calmaria antes do tsunami.
Confesso que da primeira vez foi engraçado. Fui pego de surpresa e um sorriso espontâneo brotou na minha face quando escutei a manifestação amorosa. A partir do terceiro comecei a fazer cara de namorado idiota e dublar a frase. Ainda era um pouco divertido.
Na segunda semana já passou a ser insuportável e comecei a me planejar para não estar em casa nesse horário. Saía para andar com o cachorro, tomava banho, colocava o som mais alto. Qualquer coisa para não duvidar de que duas pessoas com as perfeitas faculdades mentais podem se amar dessa forma. Era inócuo. Difícil prever com exatidão o momento da chegada da hecatombe que carrega meu resto de humor para a lua.
Já cogitei muitas hipóteses – algumas de extrema maldade - para que a paz volte a reinar em minha casa. Primeiro (e bondoso) pensamento: quem sabe a Julieta engravida e eles cheguem a conclusão de que o espaço é pequeno demais para três? Demoraria, no mínimo, nove meses. Até lá já terei enlouquecido.
Pequenos atentados, foi a segunda alternativa. Riscar o carro do casal e murchar os pneus; colocar por baixo da porta insultos e ameaças; propagar a teoria de que no apartamento do lado houve um brutal crime em que o homem matou a mulher e deixou o corpo guardado na geladeira por anos; contratar um profissional para descobrir a amante dele ou o amante dela (e se não existir, criar um) e enviar por correio um dossiê detalhado sobre a traição. Hipóteses, pelo perigo que trazem e pela maldade em si, inviáveis. Tão inviável quanto os dois mil e trezentos reais que o rapaz quer me cobrar para tornar meu apartamento cem por cento vedado a ruídos externos. “Pode pagar em três vezes, parceiro”. Como se em três vezes o valor caísse de dois mil para dois reais!
Já tenho o plano. Chamarei o dono do meu apartamento para um café e vou propor um ruptura do contrato amigável, sem multa. Motivo? Permitir que eu, um rapaz de trinta e poucos anos e que vem de relações afetivas frustradas, não perca o pouco de esperança que tenho no amor.
Faz quatro dias que não escuto o “amor, seguei”. Ouço ele entrar no apartamento no horário de sempre. Mas entra calado. Não sei se ela viajou ou se eles estão em crise. Hoje vi o elevador com a proteção que se coloca quando alguém no prédio está de mudança. O amor se mudou do 202?

Henrique de Melo Sabines, mineiro, 30 anos, trabalha na ECT e se dedica à astronomia nos fins de semana. Fã de Drummond, começou a escrever por recomendações médicas. É um dos autores do espaço Cronetas no NR.

3 comentários:

Flávio Lago disse...

Fabuloso!! rs... Além de ser engraçado é muito realista e sincero! Parabéns!!

elis disse...

Há algum tempo me devia uma volta à leitura do NR. Não poderia ter sido melhor o retorno...

Juju Balangandã disse...

Viver em apartamento é mesmo viver num pombal. Presenciamos brigas de casais, noites enlouquecidas de sexo e outras manifestações de intimidade que desejaríamos não ouvir tão de perto ou tão nitidamente. Ó céus, ó mar, Roguem perdão a nós, pecadores, quando o crime se consolidar. Serei cúmplice

Obrigada pelo texto cheio de graça ;)

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