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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

quinta-feira, 24 de maio de 2012

histórico no último

Na quarta-feira passada, zanzando pelo centro de Sampa acabei entrando no Ponto Chic do Largo do Paissandu. É claro, pedi um bauru. Afinal esse sanduíche, nativamente paulistano e conhecido em todo o país, nasceu exatamente no bar Ponto Chic do Paissandu.

O Ponto Chic foi inaugurado em 1922, o ano da Semana de Arte Moderna. Contam que muitos modernistas comiam e bebiam por lá. Entre eles, as pintoras Tarsila do Amaral e Anita Malfatti, os escritores Oswald de Andrade e Mario de Andrade.

Este último em um poema genial pede aos amigos que quando ele morrer espalhem pedaços de seu corpo pela cidade: "No Paissandu deixem meu sexo". O pedido do poeta fazia sentido. O Largo era uma Vila Madalena dos anos 20. O epicentro da vida boêmia sampalina.

Antes dos modernistas, o Largo do Paissandu já havia sido palco de várias manifestações da cultura popular. Lugar onde o povo se encontrava para se entreter, muito antes do rádio e da televisão. Por lá passaram circos, danças afro-brasileiras, faquires, elefantes da Índia.

Hoje o Paissandu, como 90% do outrora belo centro de São Paulo, está caidão. O poder público e a maior parte dos paulistanos deram as costas para a região. Existem garotas e garotos com menos de trinta anos que jamais circularam pelo Largo do Paissandu, com exceção dos amantes do pop, pois lá também está a Galeria do Rock.

No Paissandu, ainda sobrevive a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Construída por volta de 1908, em sistema de mutirão, por mulheres e homens negros. Por razões óbvias, a dos Homens Pretos tem um significado especial para a população negra. Também é verdade que garotas e garotos negros pouco sabem disso.

O Ponto Chic resiste no Paissandu, atende a uma clientela eclética, como eclética é a cidade de São Paulo. Talvez de todas as capitais, Sampa seja a que mais entenda a palavra diversidade. Por aqui navegam todos os tipos, tipinhos e tipões. Do motorista de Brasílias amarelas aos de Tucsons prateados.

A história oficial da criação do bauru no Ponto Chic é a seguinte: um estudante de direito de outro largo, o de São Francisco, apelidado pelos colegas de Bauru por ter nascido nesta cidade, pediu ao sanduicheiro: "Pão com queijo, rosbife, tomate e pepino".

Agradou a receita! A turma da Faculdade de Direito entrava e pedia um bauru. Daí o sanduba pegou. Outros bares e padarias passaram a fazer esse combinado. Verdade que na imensa maioria saiu o rosbife, entrou o presunto. E o pepino sumiu.

Digo história oficial, pois há outra versão. Mais proletária. Ela conta que o sanduíche teria sido inventado por um garçom do Ponto Chic, o Bauru, também ele nascido na cidade a 345 km de Sampa.

Convivem essas duas versões. Duas caras como a do próprio Largo do Paissandu. Duas caras como a do próprio Brasil. Uma de um representante da elite, futuro advogado. Outra, de um representante do trabalho duro e mal remunerado. Ao fim, nós brasileiros, somos um sanduíche!

fernanda pompeu, webjornalista e redatora freelancer, colunista do Nota de Rodapé e do Yahoo. Escreve às quintas.

4 comentários:

julio disse...

sabe que deu uma fome ......

Anônimo disse...

São Paulo, como capital da gastronomia, deveria dedicar um espaço especial a este sanduiche.
Rachel

C. Pompeu disse...

Coitado do pepino! Foi deixado de lado! Eu sou um entusiasta de pepino e, no próximo bauru que eu fizer em casa, vou adicioná-lo à minha receita. Picles também cairia bem. Mas definitivamente manterei o presunto porque rosbife é difícil para eu encarar!

Anônimo disse...

Lembrando São Paulo antigo. Na FAAP ha uma maravilhosa exposição de "panoramas" não só de fotos
como gravuras de Rio, Salvador, Recife, São Paulo.
Imperdível para conhecermos um pouco melhor esta nossa cidade de tantas reformas...que atualmente se
transformaram em destruições!

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