.

.
30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

Telenovelo: pobres homens


por Júnia Puglia  ilustração Fernando Vianna*

Deixa ver se eu entendi “Amor à Vida”. Aline é uma piranha, que se emprega como secretária do César, de olho na fortuna dele. Trabalhada no decote, na saia curtíssima e nas caras e bocas. O otário cai na conversa, se apaixona, casa e passa para ela uma procuração com plenos poderes sobre seu próprio e vasto patrimônio. Mas não sem antes se deixar cegar, através dos efeitos de um pó mágico, que Aline o faz ingerir sistematicamente.

César é um médico famoso, dono de um grande hospital, casado com Pilar, a quem traiu vezes incontáveis, inclusive com a nora de ambos, Edith. A uma certa altura, cai de amores pela secretária Aline, a cascavel interesseira, que inclusive domina a arte de cegar médicos experientes com pós misturados ao uísque, que o desinfeliz bebe como água, sem nem desconfiar.

Amarílis é uma médica mal amada e amargurada. Grande amiga do Niko, uma bicha boazinha, ansiosa por ter uma família para chamar de sua. Niko é casado com Eron, e com ele planeja contratar uma mulher para gestar-lhes um filho, concebido por inseminação artificial. Amarílis se prontifica para a tarefa. Niko a traz para morar com o casal durante a gestação, e a mocreia faz o maior jogo duplo. Seduz o pobre Eron e o rouba de Niko, se nega a entregar o bebê ao amigo e se supera todos os dias na arte da manipulação e da chantagem emocional contra os dois.

Alejandra é outra criatura do mal, oriunda das trevas incas do Peru, cheia de péssimas intenções gratuitas, que resolve explorar o sentimento do ingênuo amigo Ninho, um artista plástico podecrê. Ele cai na conversa dela e concorda em sequestrar a própria filha, para se aproximar da menina e ficar numa boa com a vilã.

Ninho é um cara do bem, mas não resiste a uma bruxa competente, que o convença a praticar as piores maldades, pois seu estilo de vida alternativo negou-lhe a oportunidade de ter boas influências e construir um caráter respeitável. Na juventude, envolveu-se com Paloma, uma criatura frágil e aguada a ponto de se apaixonar por um bonitão inútil como ele, que só faz maldades porque mulheres más o perseguem. Aline se aproveita do coitadinho e o obriga a fazer coisas terríveis, como matar a tia Mariah com uma tesoura de cozinha. Glauce é a víbora ginecologista, obcecada pelo Bruno “Bofe de Ouro”, cuja mulher dá à luz em condições de alto risco, o que oferece à doutora a oportunidade de assassiná-la sem deixar rastro, para depois poder arrastar a asa para o viuvão sofredor. Mais tarde, torna-se amiga e aliada de Félix, a bicha má da história.

Leila é uma moça pobre e ambiciosa, que tem uma tia rica e uma irmã autista, a quem ela odeia. Através da tia, conhece uma garota milionária e sozinha no mundo. Bola um plano maquiavélico para roubar-lhe a fortuna e convence Thales, seu guapo namorado escritor, a participar do plano e seduzir a ricaça, casar com ela e eliminá-la, para que depois ambos se joguem juntos na dinheirama. Ele aceita, o plano funciona e a moça rica morre, deixando seus milhões de herança para o garboso rapaz. Mas ele é sensível, coitado, começa a ver a morta pela casa, e fica lhe fazendo juras de amor eterno. Natasha, meio-irmã de Nicole, o enreda em outra armação pérfida.

Félix é a quintessência do vilão: ambicioso, mesquinho, ardiloso e estridente. Apronta todas com todas e todos. Rouba da própria irmã a filha recém-nascida e a abandona numa caçamba de lixo, trapaceia, mata, planeja sequestros, faz um casamento de aparência com a Edith (uma vilãzinha de quinta), surrupia as economias da Amarílis para investi-las em suas falcatruas, pinta e borda em várias modelagens e tons. A certa altura, a solidariedade e a generosidade de uma suposta estranha o comovem de tal forma, que ele se vê como um ser totalmente desprezível, se arrepende de todas as suas incontáveis maldades e se regenera. No caminho do bem, terá a companhia de Niko, o bonzinho, com quem está prestes a iniciar o romance da superação.

Então, ficamos assim: César, Niko, Eron, Thales e Ninho são todos pobres vítimas das bruacas irremediáveis Aline, Amarílis, Alejandra, Leila e Glauce, enquanto Félix, ferino e perigoso, se regenera, conquista o afeto de todos e encontra o amor nos braços de Niko.

É isso mesmo, Arnaldo?

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto.

4 comentários:

Anônimo disse...

Júnia. como vc conseguiu montar essa trama ardilosa ? Acho que o malfadado vírus da atualização social bateu em sua cabeça. Haja maldade, confusão, desencontros e maluquices ! Não conheço nenhum caso assim tão fora do que se chama contexto social.

Montanhas, mares e culturas disse...

Novelas, Junia! Aproveito para fazer uma pergunta: será que a ficção na TV é nociva? E a dos livros? Será mesmo que as inversões de valores que ocorrem hoje em dia na sociedade em geral deve-se à influência dos enredos de novelas e filmes cada vez mais concentrados em tramas ardilosos e temas catavéricos? Isso é o que dizem por ai. Será?

Anônimo disse...

Bem-vinda,Ju!
Você me surpreendeu muito com esse texto, pq eu não a imaginava noveleira.(ou está sendo, no caso desta).Nada contra, hem? Eu sou uma-quase-assídua-do-gênero. Vc foi MUITO feliz no seu raio-x. Brindou-nos com uma sinopse precisa, bem-humorada, inteligente e, claro,permeada daquela picardia que dá cor especial à sua escrita. Adorei, menina!
Terê

Carlos Augusto Medeiros disse...

E via Félix!!!!!

Postar um comentário

Ofensas e a falta de identificação do leitor serão excluídos.

Web Analytics