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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

São Jorge

por Fernanda Pompeu*

Reconheço que na maioria da vida dos santos há abnegação, sacrifício, compaixão. E, é claro, esforço e graça em amar o outro, principalmente quando esse outro são crianças, bichos, velhinhos. Os santos amaram, cada um ao seu modo, a imensa legião dos sem. Sem dinheiro, sem casa, sem país, sem alfabeto, sem direitos, sem sorte. Praticaram o chamado e idealizado amor gratuito.

Sempre me surpreendeu quando um amigo ou conhecido revelava seu santo de devoção. Filha de mãe e pai ateus, vivi minha infância sem medalhinhas ou retratinhos bentos. Mas, brasileira, sou herdeira de uma religiosidade mestiça, abundante e flexível. Daí, já na minha vida adulta, percebi que eu também precisava eleger um santo pra chamar de meu.

Por fidelidade de gênero, no princípio, procurei uma santa. Tendi para a Santa Clara, uma vez que no começo da minha de saga de trabalhadora estive envolvida com cinema, vídeo e televisão. Encontrei poética a ideia de uma santa que, em 1688, fez uma menina cega voltar a ver. Clara de Assis que se tornaria, no século XX, a padroeira dos ofícios da imagem. Mas foi uma escolha cerebral demais, não pegou no coração. Segui deserdada de santo.

Até que numa data qualquer, ouvindo uma emissora de rádio, me encantei com a voz da xará Fernanda Abreu interpretando Jorge da Capadócia, de outro Jorge, o Ben Jor: "Jorge sentou praça/ na cavalaria / Eu estou feliz / porque eu também / sou da sua companhia." A partir daí, minha memória ateia passou a recuperar milhares de imagens do lanceiro sobre um cavalo. Nos táxis, nas cozinhas, nos bares, nos barracos. O cavaleiro lutando contra o dragão da maldade.

Gostei principalmente de ele ser um santo guerreiro. Aquele que sabe que paz se conquista com luta. Pronto. Virei São Jorge. Entrei para a legião dos milhões de devotos. Ele é santo em rede, conhecido no Oriente e Ocidente, popular nas igrejas Católica, Ortodoxa, Anglicana. Aquele que conjuga força e fé, pois uma nada pode sem a outra. Se você age sem acreditar, dá em nada. Também dá em nada acreditar sem agir. Por fim, São Jorge é Ogum! "E beira-rio, beira-rio, beira-mar / o que se ganha de Ogum / só Ogum pode tirar."

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fernanda pompeu, webcronista do Yahoo e do Nota de Rodapé. *Texto publicado originalmente no Mente Aberta - Yahoo. Imagem: Régine Ferrandis, "São Jorge lutando com o dragão", de Rafael.

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