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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Do baú


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Das pequenas surpresas que aprecio muito: acabo de ver um vídeo de um famoso grupo de samba cantando e tocando "Mercedes-Benz", clássico da contracultura (ironia à parte), que debocha dos valores e símbolos de riqueza e status, composto e gravado por Janis Joplin em 1970. Tão, mas tão definitivamente Janis, que não esperava ouvi-lo em outra voz, muito menos em ritmo de samba. É óbvio que se trata de uma brincadeira, mas muito competente e divertida. (Se tivesse sobrevivido a toda aquela loucura, e depois de ajudar a virar a cultura judaico-cristã ocidental de pernas pro ar, talvez Janis estivesse hoje "em casa, guardada por Deus, contando o vil metal". Nunca saberemos.)

Daí, sabe como é, a memória abre o baú e eu me lembro de, por volta dos doze anos, sentir a mesma surpresa com o inusitado ao ver Jair Rodrigues, no auge da fama e popularidade, cantando lindamente a valsa "Eu sonhei que tu estavas tão linda", ao vivo, num programa de televisão. Achei muito estranho, não sei se por vê-lo cantando uma canção derramada, ou por ele não estar se sacudindo todo no palco enquanto cantava. Talvez pelas duas coisas. Ficamos todos em casa muito impressionados com a beleza daquela interpretação, rendeu vários dias de comentários.

E um rápido presencial: em Nova York, durante uma conferência mundial, uma jovem militar brasileira, que integrava a comitiva de alguma autoridade, buscava alguém que a fotografasse no plenário da ONU, enquanto rolava um pronunciamento da delegação brasileira (faltava muito para a era selfie). Estava ansiosa por registrar o momento e estrear a câmera digital recém-comprada, uma grande novidade. De forma aleatória, aproximou-se de Nair Benedicto (vai no Google!) e perguntou se poderia lhe fazer o favor. Ato contínuo, passou a explicar como se operava a máquina, insistindo no detalhe do foco e da visualização na tela de dois centímetros, que substituía os visores mínimos das máquinas analógicas. Nair, muito compenetrada, ouviu as explicações e orientações e partiu para a tarefa, deixando sob nossos cuidados seu precioso e completíssimo equipamento e os quilos de filmes que havíamos comprado na véspera. Ficamos de longe saboreando a cena e anotando a dedicação da fotógrafa "ocasional". Aposto que a moça nunca se deu conta de quem estreou sua câmera.

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 Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

4 comentários:

Carlos Augusto Medeiros disse...

Fui ao Google. Lembrei-me do meu violão que só é bem tocado por alguém normalmente desconhecido que lhe dá os devidos tratos. Se eu fosse a moça, estaria satisfeito com a inauguração.
Abraços,
Carlos

Anônimo disse...

Remexendo a memória, indo até o fundo do baú,faço-lhe uma pergunta bem conhecida da família "onde foi parar o antigamente conhecido FMM ?" Cadê o "baú da felicidade ?" Façamos uma caça ao perdido .
Bja da Mummy

Anônimo disse...

Fantástico como sempre! E essa Nair Benedicto que gênio... sem palavras

Montanhas, mares e culturas disse...

Hummm. Não conhecia Nair Benedicto. Legal!

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