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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Roupa nova


por Júnia Puglia    ilustração Fernando Vianna

Acontecia uma ou duas vezes por ano e era um assunto muito sério, restrito a formaturas, casamentos ou grandes eventos religiosos. Em qualquer caso, "roupas feitas" (aquelas compradas prontas nas lojas) ainda eram raras e caríssimas, muito além das nossas possibilidades. Tudo o que nos cobria era produzido pelas costureiras da vizinhança ou por nossas mães e avós, até mesmo pijamas, calcinhas e cuecas. Ninguém perguntava às crianças o que queriam ou gostariam de vestir. O que saísse das máquinas movidas a pedaladas era vestido, geralmente nos maiores, e depois repassado a irmãs e irmãos menores, primas, vizinhos e uma enorme cadeia de aproveitamento, pois tudo era usado até acabar.

Com os sapatos era a mesma coisa, com a diferença de que, não podendo ser feitos em casa, eram recebidos e repassados entre a mesma cadeia ou, com muito menor frequência, comprados. Os novos eram reservados para as principais ocasiões e calçados com reverência. Pequenos acidentes resultavam de caminhar com os olhos fixos neles. Os da formatura da quarta série, de verniz em duas cores, branco e cinza, ocupam um lugar de destaque na memória afetiva.

Num certo verão, nossa tia nos levou, minha irmã e eu, a uma loja que acabara de receber uma grande novidade: sandálias de dedo feitas de borracha colorida azul, amarela ou verde, com solado branco na face em contato com os pés. Cada uma de nós ganhou um par, e até pudemos escolher a cor. Recebemos nossas primeiras havaianas dentro de sacos plásticos amarrados com barbante colorido, fascinadas, de longe o acontecimento mais importante daquelas férias.

Também ficou gravado na minha biografia o episódio do vestido pesado, de veludo vermelho, herdado de uma prima, que maravilhou mãe e tias, mas que eu detestei completamente. Além de a textura do veludo me ser insuportável, dentro dele eu ficava parecendo a gata borralheira numa roupa das meio-irmãs ricas. Recusei-me terminantemente a usá-lo, para enorme decepção das adultas.

Elas ainda nem desconfiavam, mas eu começava a odiar as roupas que me eram destinadas. Queria poder escolher e, entre as minhas preferências, não havia lugar para os invariáveis modelos desmilinguidos, lambidos, cheios de flores, rendas, fitas e laçarotes. Eu olhava comprido para algumas roupas nas vitrines das lojas, nas telenovelas e nas revistas, pois me pareciam cheias de personalidade e capazes de refletir algo ainda indefinível, que se tornaria para mim uma obsessão: liberdade, ou aquilo que para mim mais se parecesse com ela. Era eu começando a pensar em agir como eu mesma. Terremotos se seguiram.

* * * * * *

Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Ilustração de Fernando Vianna, artista gráfico e engenheiro, especial para o texto. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

5 comentários:

Carlos Augusto Medeiros disse...

Que venham os terremotos!!!!

Pastora Leila Müzel dos Santos disse...

ahahahah... uma guria determinada e cheia de personalidade desde sempre! #docesmemorias
beijão querida!

Anônimo disse...

Terremoto é apelido! Usei roupas herdadas por muitos anos. As vindas dos Estados Unidos então, eram esperadas com ansiedade: calça jeans era um must! Chorei de emoção no dia em que comprei as primeiras roupas que eu escolhi. Márcia Ester

Anônimo disse...

Ah, Ju, não dá mesmo pra imaginar vc, menina ou mocinha, dentro de um repolhudo vestido vermelho de veludo.Já havia mta personalidade na causa pra que isso acontecesse...
Terê

Montanhas, mares e culturas disse...

Junia, cá entre nós, com esse gosto consumistas que as nossas queridas e queridos adolescentes têm hoje em dia, dá um pouco de nostalgia desses nossos tempos em que valorizávamos muito quando algo era especialmente comprado e escolhidos por nós. Sei não...Acho melhor o esquema daquela época (acho que estou ficando velha! Risos)

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