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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Estimada e desconhecida alma gêmea

por Fernando Evangelista*

Saudações. Meu nome é Cristina – a família me chama de Tina, os colegas do trabalho me conhecem como Cris e tu podes me chamar como quiseres. Bom, eu estou escrevendo esta carta porque, puta que o pariu, cansei de te esperar.

Olha que te procurei pelos lugares mais respeitáveis e pelos becos mais suspeitos. Experimentei de tudo e não me arrependo de quase nada, exceto, verdade seja dita, do caso com o chinês e com aquele capixaba, que colecionava mulheres e passagens pela polícia.

Eu sei, só uma idiota para acreditar nessa bobajada de amor romântico, de amor perfeito, de príncipe herói. Sou uma idiota completa. Para te achar, rezei, fiz mandinga, simpatia, fingi indiferença, fiz promessa, dancei sertanejo universitário, fiz de tudo, só não espetei agulha em boneco, que não me serviria de nada.

Querida alma gêmea, amor da minha vida, tu és padre? Estás casada com a pessoa errada? Morreste há muitos anos e não cumpriste o destino? Eu sou aquela que sobrou?

Sou dramática, né? Dramática e um pouco louca, sabe? Várias vezes tive a certeza de ter te encontrado. No começo, todos os homens meio que se parecem contigo. São atenciosos, interessados, educados. Todos têm um brilho nos olhos, uma ternura, uma carinha que dá aquela alegria no coração. Mas depois...

Depois é aquela coisa desagradável que vem junto com a intimidade e a convivência diária.

Lá no fundo, vou ser sincera, sonho com um amor no estilo daquele noticiado pelo jornal The Sun. É a história de uma inglesa de 43 anos e uma porca. O nome da mulher é Janey Byrne e da porca é Meeka, ou alguma coisa assim, sem sobrenome.

Janey comprou a mini porquinha e confiou na promessa do vendedor de que o bicho permaneceria pequeno para sempre, como um cachorro maltês. Até o fim de sua suínica vida, garantiu o homem, Meeka seria um porquinho-anão, um bonsai-porquinho.

Pois três anos depois, criada desde então dentro de casa, a mini porquinha transformou-se numa porca de 107 quilos, com 76 centímetros de altura e 1,5m de comprimento.

Aí alguém perguntou para Janey sobre essa transformação drástica e ela, veja você, disse alguma coisa assim: “No início, fiquei decepcionada por Meeka não ser micro, mas agora não mudaria nada nela. Eu a amo assim”. Uau!

Eu queria um amor deste tipo – e você nem precisaria ficar com 107 quilos. Pensando bem, embora frustrante e doída, essa minha procura permite a ideia de perfeição, de eternidade, permite qualquer coisa, menos, lógico, viver um grande amor. Mas viver um grande amor, tu deves saber, é muito arriscado, perigoso mesmo. Ainda assim, sigo te procurando.

Onde tu estás?

* * * * * *

Fernando Evangelista é jornalista. Escreve as terças-feiras no Nota de Rodapé. Crônica da série republicando.

8 comentários:

Naira Souto disse...

Muito bom o romantismo século 21, querendo ser 19, mas cheio de futuro! Adorei!

Patricia Helena Cunha Pinto disse...

Delícia!!!Colocou um sorriso em meus lábios!Obrigada Fê.

Lúcia Helena Vieira disse...

Adorei! Também colocou um sorriso no meu rosto!

Maria Esmênia Ribeiro Gonçalves disse...

Adorei a crônica. Diz o ditado que quem espera sempre alcança, viu
Cris...Parabéns Fernando Evangelista.

Ambelle B. Schmidt disse...

Identifiquei-me! Huhauaha!

seguidores no soundcloud disse...

Sensacional!

Cecilia Cordeiro disse...

Texto delicioso de ler! Você registrou o que a maioria das pessoas busca, com muita leveza e humor!

swing disse...

Adorei este site ao ler vi que era o que eu estava procurando

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