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30 de Julho de 1929, jovens velejadoras no porto de Deauville, França (Getty Images)

sexta-feira, 5 de junho de 2015

Menu principal

por Júnia Puglia

Eu sei quem sou, às vezes não. Muitas vezes sei de onde venho, e levo a vida a buscar o meu próprio caminho, que não sei aonde vai dar. Ou melhor, sei, mas evito pensar sobre isto, por inútil. Às vezes, me dá um tédio profundo de tudo o que fiz e vivi até agora, mas passa logo. Considero o sol essencial para manter minha conexão com a vida e continuar circulando por aí, tanto quanto é crucial ter ao meu alcance e sentir as pessoas que me são importantes.

Fico muito impressionada cada vez que me deparo com gente de olhos opacos, que apenas traduzem o nada que têm lá dentro. Nada me parece tão terrível quanto a energia vital desperdiçada, submetida ao piloto automático ou engolida pelas circunstâncias, ou pela simples impossibilidade de reagir a ela, acolhê-la, nutri-la. (Agora percebo por quê me foi tão definitiva a rápida visita que há poucos meses fiz a alguém que por muitos anos me inspirou, cujo brilho me alentou a juventude, mas que está entregue a uma desvida insuportável de tão dolorosa.)

Abomino esses condomínios fechados que são uma triste imitação de Miami, e se alastram como praga entre pessoas ávidas por se proteger da pretensa inveja alheia e da convivência com os diferentes, de modo a se sentirem valorizadas, diferenciadas, separadas daqueles que desprezam, por se sentirem as únicas merecedoras do que consideram o melhor em suas vidinhas pequenininhas. Estão cada vez mais apavoradas com a perspectiva de sermos menos desiguais.

Tenho lamentado muito os imensos gramados com que atapetamos o mundo urbano, padronizado pela negação do espontâneo. Mais árvores e vegetação nativa por perto nos ampliariam a percepção do quanto dependemos dos outros seres vivos para continuar existindo, e também do estrago que somos capazes de fazer no nosso mundo.

Depois de viver algumas décadas e, como todo mundo, aprender e absorver uma montoeira de coisas e fazer outras tantas (sempre menos do que eu gostaria), acho que estou mesmo é querendo voltar para o menu principal, e ficar só com ele. Neste caso, o vinho do supermercado é bom o suficiente, e melhor ainda quando compartilhado naquela conversa mansa, que não começa nem acaba, apenas flui.

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Júnia Puglia, cronista, mantém a coluna semanal De um tudo. Emails para esta coluna devem ser enviados a: deumtudocronicas@gmail.com

2 comentários:

Anônimo disse...

Reflexão sobre o tudo e o nada...olhos brilhantes, energia vital bem nutrida,eis a Júnia.
Bjs da Mummy Dircim

Montanhas, mares e culturas disse...

O essencial é o que vale, mas o brilho nos olhos por isso...leva tempo e maturidade. Por enquanto, para alguns é mesmo condominio miaminianos e tudo mais. O que vale é respeitar o tempo de cada um. Beijos!

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